Por Rafael Vazquez e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio
13/04/2022 05h01 Atualizado há 7 horas
A atividade do setor de serviços caiu 0,2% no país em fevereiro na comparação com janeiro. O resultado foi na direção oposta da esperada por analistas, que estimavam crescimento de 0,7%, segundo a mediana das estimativas de 20 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data.
A leitura foi ainda mais negativa porque uma revisão apontou que a queda no primeiro mês do ano foi de 1,8%, e não de 0,1% conforme havia sido divulgado anteriormente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O gerente da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, Rodrigo Lobo, afirma que o setor passa por uma acomodação nos últimos meses, após alta mais forte até agosto de 2021. Nos últimos seis meses, o predomínio foi de taxas negativas, mas o saldo ficou em 0,1%. “Isso configura um setor de serviços mais estacionário, mostrando uma acomodação dos ganhos auferidos até agosto de 2021.”
Segundo o economista da Rio Bravo Investimentos Luca Mercadante, os dados mostram que o setor de serviços está decepcionando as expectativas no começo do ano. Para ele, o desempenho está sendo afetado pela perda do poder de compra da população. “Temos visto a renda cair nos últimos meses e isso impacta”.
Ao analisar o resultado interanual, que mostra crescimento de 7,4% dos serviços em relação a fevereiro do ano passado, o economista explica que se deve à base de comparação baixa dada pelo mesmo período de 2021. “Em fevereiro do ano passado, estávamos entrando em uma onda forte da covid. É uma recuperação ainda dessas ondas da pandemia e os serviços foram bastante impactados por isso.”
Na visão da economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, apesar da normalização da mobilidade com os sinais de melhora da pandemia, a redução do poder de compra das famílias, impactada pela elevada inflação de alimentos e combustíveis, e o aperto monetário em curso deve segurar a expansão da demanda das famílias nos próximos meses. “Não esperamos crescimento do setor de maneira mais significativa, que deve ficar entre 0,5% e 1% no ano.”
Já a economista sênior da AZ Quest Mirela Hirakawa considera que o resultado da pesquisa de serviços tende a impor cautela aos economistas que estavam revisando para cima as suas projeções de PIB. “Traz uma informação de que começamos 2022 um pouco pior que esperávamos anteriormente. Portanto, essas revisões pra cima do PIB devem cessar, ficando ainda abaixo de 1% e mais próximas da projeção que a gente tem: 0,6% para 2022.”
Na CM Capital, os economistas salientam que o último IBC-Br, indicador de atividade do Banco Central que serve como um termômetro do PIB, também ficou abaixo do esperado pelo mercado. “Podemos inferir que a atividade econômica brasileira, que no ano passado tinha apresentado recuperação do período de pandemia, começa a desaquecer e isso vem sendo refletido pelos indicadores de atividade”, avaliaram em relatório.
Já o economista do Banco BV Carlos Lopes também classifica o resultado dos serviços em fevereiro como “fraco”, mas disse que não vê uma fraqueza consolidada que se arrastará para o ano todo. “Pelo contrário, vemos esse resultado como ainda sendo pontual. Talvez ainda uma extensão da piora da pandemia em janeiro.”
Lopes destaca que os serviços prestados às famílias, que tiveram alta modesta de 0,1%, foram o ponto que mais decepcionou no dado de fevereiro. “Pode ser reflexo da pandemia, que preocupou em janeiro. Fora isso os outros setores em grande parte continuam se recuperando bem. A gente ainda mantém uma visão positiva para os serviços no ano a despeito desse resultado pior em fevereiro.”
Fonte: Valor Econômico