Por Victor Rezende e Gabriel Roca — De São Paulo
18/05/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
Embora a potência da política monetária seja maior no momento, a dinâmica da atividade econômica indica que o nível elevado da Selic ainda não chegou a afetar o desempenho da economia brasileira, mesmo com os juros no campo restritivo desde o quarto trimestre de 2021. “Tinha algum colchão de poupança das famílias, que está terminando de ser consumido e que vai ganhar mais um choque de desfibrilador com o Auxílio Brasil e os R$ 1 mil do FGTS. Na margem, a economia ainda está muito forte”, avalia Victor Cândido, economista-chefe da RPS Capital, em entrevista ao Valor.
Recém-chegado à gestora, Cândido, que tem passagens pelo Santander e pela Guide Investimentos, acredita que o Banco Central deverá efetuar apenas mais uma elevação de 0,5 ponto percentual na Selic, o que levará o juro básico a 13,25% em junho, quando o ciclo de aperto monetário chegará ao fim. “Às vezes, a gente fica muito na margem e esquece um pouco da visão inteira. O juro saiu de 2% para 13,25%. É muita coisa”, observa o economista. Além disso, ele lembra da potência da política monetária, que aumentou diante de um mercado de crédito maior e da mudança da antiga Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP).
Para ele, o efeito dos juros restritivos deve começar a afetar a economia mais fortemente a partir do segundo semestre. Embora ele note alguma desaceleração no crédito e aponte que as famílias estão superendividadas, os indicadores econômicos continuam a surpreender positivamente. Cândido espera um crescimento de 0,8% no Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, mas observa que o efeito cumulativo deve afetar a economia também em 2023, o que faz a RPS projetar uma expansão de apenas 0,5% no próximo ano.
“A política monetária vai fazer efeito, mas quando isso acontecer vai ser de uma vez. Se você está gripado, você toma um comprimido. Duas horas depois, se você ainda não melhorou, toma mais dois e, depois, mais dois. No fim do dia, o efeito bate”, diz o economista. Para ele, porém, o BC não errou na medida ao colocar a Selic em 12,75%. “Fez o que tinha que ser feito, tinha que ancorar o mercado. Por isso eu tenho uma alta de 0,5 ponto na próxima [reunião]. É prudente ele falar que fez muito”, afirma Cândido.
Um dos pontos importantes destacados pelo economista em relação às estratégias da RPS para o mercado de juros está na definição sobre o pico da inflação em 12 meses. “Tem uma chance razoável de ter sido a máxima no ano contra ano em abril. A grande discussão é se vamos ter um novo ajuste nos preços dos combustíveis. Em maio, provavelmente, a inflação vai ceder, mas tem chance de ter um repique em junho, antes de voltar a cair”, observa Cândido.
A RPS projeta que o IPCA terminará este ano em 8,8%, nível ligeiramente acima do consenso. Em pesquisa feita pelo Valor na semana passada com 80 instituições financeiras, o ponto-médio das estimativas indicava o IPCA em 8,4% em 2022.
“Tem muita gordura na curva de juros e a única curva que não fecha [em que não há queda nas taxas] é a do Brasil. O mercado está esperando um sinal sobre o pico da inflação. Quando isso acontece, geralmente a taxa do pré de dois anos vem para baixo”, afirma Cândido. “Na hora em que o mercado observar o pico da inflação e que o BC não vai mais subir os juros, a curva começa a andar”, diz o profissional.
O economista nota que, historicamente, o BC costuma começar a reduzir a Selic antes de a expectativa de inflação convergir para a meta e, assim, deve dar início a um ciclo de corte de juros no começo de 2023. A RPS projeta o juro básico em 10% no fim de 2023, mas adota em seu cenário uma estimativa de juro real de equilíbrio entre 4% e 4,5% – nível superior ao estimado pelo BC, em torno de 3,5%.
Assim como a autoridade monetária, Cândido acredita que o balanço de riscos para a inflação ficou um pouco mais simétrico, “até porque piorou muito nos últimos meses”. Na visão do economista, um dos pontos a se observar é o de que o Federal Reserve (Fed, dos EUA) e o Banco Central Europeu (BCE) ajudam a combater a inflação global. “Na hora em que o Fed começa a subir com mais força os juros e as condições financeiras pioram lá, ele ajuda o resto do mundo, com efeitos de segunda ordem nas commodities.”
Apesar disso, Cândido lembra que o câmbio também sente os efeitos do aperto das condições monetárias nas economias desenvolvidas, mas ressalta que o dólar em torno de R$ 4,90 e R$ 5 “já ajuda em relação à média do câmbio no ano passado”. Assim, o economista aponta que, embora o balanço de riscos esteja “longe de ser o ideal”, há alguma melhora no curto prazo.
Fonte: Valor Econômico