Numa semana em que o dólar atingiu as alturas impulsionado, segundo alguns operadores, pelas incertezas em relação à política fiscal, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou ao Valor que não há desancoragem de expectativas em relação a indicadores fiscais. Segundo ele, há “desancoragem na margem”, para inflação, mas isso estaria desassociado do quadro fiscal.
“Não há uma desancoragem fiscal. Isso é falacioso”, disse. “Quem falar que há uma desencoragem nas expectativas fiscais não está dizendo a verdade com base nos números.”
Por outro lado, Ceron reconheceu que o nível de incerteza em temas fiscais elevou-se “por diversos fatores” e que compreende “sensibilidades de diferentes naturezas”.
O secretário utiliza os resultados da pesquisa Focus, que o Banco Central realiza semanalmente com mais de uma centena de instituições financeiras, para mostrar que as projeções do mercado para o resultado das contas públicas e para a dívida pública medida como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) não apresentaram piora, em contraste com a turbulência nos mercados.
“Se você pode pegar qual era a expectativa do mercado para a trajetória da dívida sobre o PIB até 2031 em outubro de 2022, no meio das eleições, em dezembro de 2023 e agora, vai ver que tem um processo de melhora contínua”, afirmou.
De acordo com os dados do Focus, ao fim de outubro de 2022 o mercado estimava que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) estaria em 92% do PIB em 2031. Em dezembro passado, 90,3% do PIB. Na mais recente pesquisa, a projeção estava em 86,6% do PIB.
Olhando para o resultado primário do governo central, prossegue, a expectativa em dezembro de 2023 era um déficit de 0,8% do PIB. Estava em 0,7% do PIB em março, antes revisão das metas fiscais de 2025 e 2026, um fato que gerou ruído no mercado. Na mais recente pesquisa, estava em 0,7% do PIB. “Mudou nada em 2024, nada”, frisou. “Ou, de outra forma, melhorou de dezembro para cá e não mudou nada de março para cá.”
A soma dos resultados esperados para 2024, 2025 e 2026 “só vem melhorando”, comentou. “Não mudou a expectativa. Ah, pode mudar nos próximos boletins? Aí é o futuro, veremos”, disse. Há “uma incerteza maior em relação a questões fiscais”, admitiu. “Por conta de diversas questões que aconteceram e, sem juízo se elas são corretas, incorretas ou exageradas, elas trouxeram ali um ambiente de um pouco de aversão ao risco”, disse, sem especificar a que se referia.
Além disso, acrescentou, há efeito do mercado internacional, em função do que está acontecendo no mercado americano, onde o corte nas taxas de juros tem sido sucessivamente postergado. Há desancoragem em relação às expectativas de inflação, disse. “Ela [a inflação] piorou na margem, de fato, mas dado que o fiscal não mudou, está em outra dimensão. É uma outra variável que está afetando a expectativa de inflação”, destacou o secretário.
Fonte: Valor Econômico
