Scott Bessent passou os últimos 40 anos estudando história econômica. Agora, o escolhido de Donald Trump para comandar o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos tem a chance de deixar a própria marca nessa história.
Como gestor de fundo hedge, primeiro na empresa de George Soros e depois na sua própria, Bessent se especializou em investimentos fundamentados pela macroeconomia, o que significa analisar as situações geopolíticas e os dados econômicos para fazer apostas no grande quadro das variações do mercado. Ele gerou bilhões de dólares em lucros apostando a favor e contra moedas, taxas de juros, ações e de outros tipos de ativos pelo mundo.
Ele sentiu-se motivado a sair de trás de sua mesa e envolver-se na campanha de Trump, em parte, por achar que o tempo está se esgotando para que a economia dos EUA consiga superar os déficits orçamentários e o endividamento excessivo por meio de um maior crescimento.
Por volta das 16h30 locais de sexta-feira (22), Trump ligou para Bessent em seu hotel em Palm Beach, para informá-lo que ele era o seu escolhido. Bessent foi até o resort Mar-a-Lago Club para se juntar a Trump, ao vice-presidente eleito J. D. Vance e à futura chefe de gabinete, Susie Wiles, onde trocaram apertos de mãos e discutiram estratégias de política econômica.
Em sua primeira entrevista após o anúncio, Bessent disse que sua prioridade será cumprir as diversas promessas de cortes de impostos feitas por Trump. Isso inclui tornar permanentes as reduções do primeiro mandato e eliminar impostos sobre gorjetas, benefícios da Previdência Social e horas extras.
Também disse que a adoção de tarifas e a redução de gastos estarão no foco do governo, da mesma forma que “manter o status do dólar como moeda de reserva mundial”.
Bessent se tornou um dos conselheiros mais próximos de Trump ao dar mais profundidade às propostas econômicas do presidente eleito e ao defender os planos de políticas mais ativas no comércio exterior. Ele argumenta que os planos de Trump de estender cortes de impostos e desregulamentar partes da economia dos EUA criariam um “lollapalooza” econômico [gíria em inglês usada para eventos espetaculares].
Trump o escolheu entre vários candidatos que disputavam o cargo, em parte porque confiava mais em sua capacidade de executar as políticas do governo do que nos outros concorrentes, segundo o “The Wall Street Journal”. A decisão ocorreu após Elon Musk, que fazia campanha pelo nome de Howard Lutnick, executivo-chefe da firma financeira Cantor Fitzgerald, ter criticado Bessent como uma “escolha tradicional”. (Depois, Trump nomeou Lutnick para liderar o Departamento de Comércio.)
Muitos em Wall Street, incluindo gestores de fundos hedge como Daniel Loeb e Bill Ackman, aplaudiram a escolha de Bessent. O investidor Kyle Bass disse no X (Twitter) que Bessent era “a melhor escolha possível”.
Quem trabalhou com Bessent o descreve como reservado e professoral. Ele já lecionou história econômica na Universidade Yale, onde se formou, e, como investidor, frequentemente usava analogias financeiras esquecidas para fundamentar suas visões sobre os eventos atuais.
“Vamos precisar de algum tipo de reordenamento econômico global,” disse Bessent em evento em junho. “Eu gostaria de fazer parte disso. Estudei isso.”
Ele ingressou na Soros Fund Management em 1991, na qual suas análises sobre a fragilidade do mercado imobiliário do Reino Unido serviram de catalisador para a aposta altamente bem-sucedida da firma contra a libra esterlina.
De 2011 a 2015, Bessent atuou como diretor de investimentos de Soros, gerando mais de US$ 1 bilhão em lucros com apostas bem-sucedidas no Japão, incluindo uma contra o iene japonês. Ele deixou a empresa para fundar o próprio fundo hedge, a Key Square Capital Management, que ainda administra.
O fundo hedge da Key Square teve anos de desempenho sem grandes distinções até registrar um ganho de cerca de 31% em seu principal fundo em 2022.
Em 2023 e neste ano até agora, o fundo acumula ganhos de mais de 10%, segundo um investidor. Novembro foi o melhor mês para o fundo, em parte graças à aposta de que uma vitória de Trump impulsionaria o mercado. Em comparação, o S&P 500 subiu cerca de 25% em 2024, embora os fundos hedge macro não tenham nem se aproximado disso.
Desde 2020, Bessent e seu marido John Freeman, ex-promotor de Nova York, tem sua moradia principal em Charleston, Carolina do Sul, perto da cidade natal de Bessent. Eles têm dois filhos.
Caso seu nome seja confirmado como secretário do Tesouro pelo Senado, Bessent administrará a venda de trilhões de dólares em títulos de dívida do governo dos EUA — que ele costumava comprar e vender como investidor. Entre outras responsabilidades, ele vai dar assessoria em política fiscal, cuidar da arrecadação de impostos e aplicar punições financeiras.
Há tempos, Bessent se preocupa com o alto endividamento dos EUA e acredita que impulsionar o crescimento da economia é a principal forma de reduzi-lo, pois isso aumentaria a arrecadação tributária.
Ele tem aconselhado Trump a adotar uma política que chama de “3-3-3”, inspirada no ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, que revitalizou a economia japonesa na década de 2010 com a política econômica das “três flechas”. No caso de Bessent, suas “três flechas” são reduzir o déficit fiscal para 3% do produto interno bruto (PIB) até 2028, estimular um crescimento do PIB de 3% por meio da desregulamentação e produzir um volume adicional de 3 milhões de barris de petróleo equivalente (BPE).
Para controlar os gastos do governo, Bessent defendeu a extensão da Lei de Empregos e Cortes de Impostos de 2017, mas com medidas adicionais de custeio conhecidas como “pay-fors” para reduzir o impacto financeiro. Isso envolveria ou reduzir gastos ou aumentar receitas em outras áreas para compensar o custo da extensão. Ele também propôs congelar os gastos discricionários não militares e reformar os subsídios para veículos elétricos e outras partes da Lei de Redução da Inflação.
No início do ano, Bessent via as tarifas como uma ferramenta de negociação. Disse a investidores em uma carta que a “arma das tarifas estará sempre carregada e na mesa, mas raramente disparada”. Desde então, ele passou a defendê-las com mais ênfase, especialmente como uma fonte de arrecadação tributária.
Em discurso feito em outubro, intitulado “Tornar o Sistema Econômico Internacional Grande de Novo”, Bessent defendeu o aumento das tarifas por motivos de segurança nacional e como forma de induzir outros países a reduzir barreiras comerciais com os EUA. Ele criticou a política comercial com a China por enriquecer Wall Street, enfraquecer a força industrial local e não resultar em reformas econômicas na China.
Para Bessent, as tarifas deveriam ser como o programa de punições financeiras do Departamento do Tesouro, uma ferramenta para promover os interesses dos EUA no exterior. Também se mostrou aberto a eliminar as tarifas de países que realizem reformas estruturais e expressou apoio a um bloco de “comércio justo” com aliados que tenham interesses de segurança comuns e abordagens recíprocas para tarifas.
“O presidente Trump está certo ao dizer que o comércio verdadeiramente livre é desejável”, disse Bessent, segundo o texto de um discurso que fez na época. “Isso pode parecer contraintuitivo do ponto de vista de um mercado livre, mas ele também está certo ao dizer que, para realmente criar um sistema de comércio mais livre e amplo no longo prazo, precisamos de uma abordagem mais ativa internacionalmente.” (Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico