Projeções sobre a população feitas pelo Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística (IBGE) indicam o tamanho do desafio que a saúde no Brasil tem pela frente. Se entre 2000 e 2023 o percentual de idosos – pessoas com 60 anos ou mais – subiu de 8,7% da população (15,2 milhões de pessoas) para 15,6% (33 milhões), em 2070 eles serão mais de um terço dos habitantes, com 37,8% de participação (75,3 milhões). Esse envelhecimento da população eleva a incidência de doenças crônicas, que demandam cuidados contínuos e ampliam as despesas com saúde.
Cálculos do governo para o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) 2025 indicaram que, devido ao crescimento e envelhecimento populacionais, o gasto público em saúde aumentará R$ 67,2 bilhões entre 2024 e 2034. Esse valor inclui despesas com assistência farmacêutica, como o programa Farmácia Popular, além de atenção de média e alta complexidade, como os atendimentos ambulatoriais e hospitalares.
O Sistema Único de Saúde (SUS) e o setor de saúde suplementar, as operadoras de planos, têm adotado cada vez mais iniciativas para lidar com essa transformação no perfil demográfico do país.
A abrangência do SUS envolve prevenção, reabilitação, acesso a medicamentos e atenção multiprofissional. Uma das ações, segundo o Ministério da Saúde, foi tornar o programa Farmácia Popular 100% gratuito e incluir fraldas geriátricas para a parcela mais idosa dos brasileiros. Também iniciou, em janeiro deste ano, uma pesquisa para revisar e aprimorar a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa.
No setor privado, dados da Agência Nacional de Saúde (ANS), elaborados pela Associação Brasileira dos Planos de Saúde (Abramge), mostram que o total de beneficiários de planos de saúde com 60 anos ou mais subiu, entre 2019 e 2024, de 6,6 milhões para 7,9 milhões, o equivalente 19,3% de alta.
Gustavo Ribeiro, presidente da Abramge, diz que as operadoras já incorporaram o processo de envelhecimento ao seu modelo de funcionamento, baseado no mutualismo – no qual o equilíbrio depende da solidariedade entre faixas etárias. “O envelhecimento pode e deve ser planejado”, diz. “Ao contrário de fatores imprevisíveis, como fraudes e judicialização excessiva, que desestabilizam o sistema de saúde de forma abrupta.”
As empresas de planos de saúde estão atentas. Na Amil, uma das maiores do setor, as estratégias incluem programas de prevenção de doenças e de acompanhamento e tratamento dos beneficiários que já têm enfermidades. Em geral, são doenças crônicas como hipertensão, diabetes, câncer ou problemas respiratórios. “Os clientes são identificados com o apoio da tecnologia e conduzidos a consultas regulares, monitoramento remoto e ações preventivas”, diz Renato Manso, CEO da Amil.
Na BradescoCotação de Bradesco Saúde, outra das principais empresas do setor, há também programas de prevenção e promoção de hábitos saudáveis que contam com a adesão de mais de 160 empresas, totalizando cerca de 1,2 milhão de beneficiários.
Segundo a diretora de serviços ao segurado e gestão médica da Bradesco, Thaís Jorge, avaliações feitas antes, durante e depois da adesão ao programa indicam redução de 8% no sedentarismo e de 47% na frequência de internações. Isso não só ajuda a diminuir despesas da operadora como melhora o absenteísmo nas empresas.
Outros programas oferecem cuidado coordenado, reforçando a relação médico-paciente. É feito em parcerias com diversos hospitais, para atendimento em diferentes especialidades. Um deles é voltado para usuários a partir de 60 anos – que tem 44% dos participantes entre 69 e 78 anos. Proporcionou redução de 75% nas idas a prontos-socorros após três anos de entrada no programa.
O envelhecimento da população, observa o diretor-executivo da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp), Antônio Britto, chegou sem a prévia valorização da prevenção e a promoção da saúde. Como consequência, ampliou a incidência de doenças crônicas. “Impactou não só em custos financeiros, mas também na qualidade de vida das pessoas”, diz.
Para Britto, a saúde suplementar não se sustenta pelo modelo atual e precisa de uma reforma urgente, devido à alta dos custos da saúde. Isso porque, segundo ele, não existe uma estratégia unificada da cadeia setorial para enfrentar o problema, que tende a se agravar com o peso da maior demanda pelos idosos.
Britto lembra que, no caso dos hospitais, há um aumento expressivo nas glosas (suspensão de pagamentos pelas operadoras), o que interfere no fluxo de caixa e limita a capacidade de investimento em infraestrutura, tecnologia e ampliação de serviços. “Os hospitais são o único local do setor de saúde onde estão diretamente presentes todos os seus segmentos e o que vemos são todos reclamando da falta de recursos”, afirma.
Na visão de especialistas, os desafios para enfrentar o envelhecimento da população são muitos, para ambos os setores, público e privado. Jorge Félix, pesquisador da Fapesp de pós-doutorado no Centre de la Recherche Scientifique (CNRS), em Paris, e membro da rede Cuidados, Direitos e Desigualdades (CuiDDe), ressalta que o Brasil tem de atender a transição demográfica em curso enquanto a demanda infantil permanece elevada.
“Esse quadro exige a elevação do investimento no Sistema Único de Saúde. Nas últimas décadas, verifica-se um desfinanciamento do sistema ao mesmo tempo em que os custos de saúde, com o avanço tecnológico, são cada vez maiores.”
E a saúde suplementar, segundo Félix, “é inviável com a população envelhecendo tão rapidamente, porque a exigência de retorno sobre o investimento é muito alta”. Ele lembra que as pessoas idosas estão se endividando por conta do custo do plano de saúde ou gastos do próprio bolso. “São 13 milhões de idosos negativados no Serasa”, afirma.
Para o professor da Unicamp Cármino de Souza, é importante preparar os sistemas de saúde público e privado para o processo de envelhecimento fortalecendo a rede de atenção básica, para as ações de prevenção e diagnóstico precoce. Em outra frente, será necessário a criação de centros integrados e avançados para doenças degenerativas mais prevalentes, como câncer e as cardiovasculares.
“Devemos fazer um planejamento plurianual com esta finalidade, já que nos próximos anos nossa população começará a diminuir. Talvez tenhamos uma pirâmide etária “invertida” e então será muito difícil enfrentar este problema sem estarmos preparados”, ressalta Souza.
Fonte; Valor Econômico