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Em um ambiente carregado de incertezas, o Bank of America tem sido mais conservador que o consenso do mercado e espera que o Federal Reserve (Fed) comece a reduzir juros somente em dezembro. Em entrevista ao Valor, o economista-chefe para EUA do banco, Michael Gapen, diz que há risco, ainda, de o banco central americano só conseguir cortar em 2025.
“Não é tão óbvio para mim que tudo é uma questão de oferta agregada e que ela fará o trabalho pesado na hora de reduzir a inflação. O risco indica que o Fed demorará mais a ganhar confiança e os cortes ocorreriam somente em 2025”, afirma o economista.
Sobre as eleições de novembro nos EUA, Gapen acredita que será uma disputa acirrada e que o cenário que mais preocupa é o de controle da Casa Branca e do Congresso por um partido só. “Em casos como esse, a política fiscal tende a ser mais frouxa – e pode haver uma situação de política fiscal frouxa e política monetária restritiva.”
Veja, abaixo, os principais pontos da entrevista.
Valor: O que é necessário para que o Fed comece a cortar os juros e por que, na visão do BofA, isso acontecerá somente em dezembro?
Michael Gapen: Há dois caminhos para que o Fed corte juros neste ano. Um deles, para usar a terminologia do Fed, é o da fraqueza inesperada do mercado de trabalho, mas este é um mundo em que as autoridades não querem estar. Não achamos que este é um cenário muito provável. A segunda razão é o que o Fed chama de ‘maior confiança’ de que a inflação está desacelerando à meta de 2%. Não sabemos exatamente o que essa ‘maior confiança’ significa, mas, pelos comentários do Fed, eles esperam que a inflação desacelere, e ela está desacelerando. Prevemos uma moderação da força da inflação de serviços no fim deste ano e o Fed poderá ver três meses disso até dezembro e, portanto, começaria a reduzir as taxas nesta reunião.
Valor: Há maior chance de um corte nos juros americanos antes de dezembro ou o risco aponta para um corte somente em 2025?
Gapen: Um corte em 2025, na reunião de março que vem, é um pouco mais provável que um corte em setembro de 2024. Não é o que os mercados financeiros pensam no momento. Nossa visão é que a economia siga saudável, e embora ela esteja sendo beneficiada por forças de oferta no mercado de trabalho, é uma história que termina em mais emprego, renda e gastos. Não é tão óbvio para mim que tudo é uma questão de oferta agregada e que ela fará o trabalho pesado na hora de reduzir a inflação. O risco indica que o Fed demorará mais a ganhar confiança e os cortes ocorreriam somente em 2025.
Valor: E se o crescimento desacelerar sem uma melhora da inflação? Qual seria a função de reação do Fed nesse caso?
Gapen: Se houver uma tensão entre a atividade e a inflação, com a atividade desacelerando junto com o mercado de trabalho, achamos que o Fed vai prestar mais atenção para isso do que para a inflação, sob a expectativa de que os preços cairiam depois. Então há a possibilidade de que comece a cortar mesmo em um mundo em que a inflação esteja teimosamente alta. Mas a fonte dessa narrativa importa. Digamos, por exemplo, que um choque geopolítico aumente os preços do petróleo… É um mundo em que a inflação ficaria alta, mas pesaria sobre os gastos de consumidores e aumentaria a incerteza dos negócios. Essa é uma situação complicada para o Fed, mas, mais uma vez, acho que eles prestariam atenção à fraqueza dos gastos do consumidor e dos gastos das empresas e reagiriam a isso.
Valor: A política do Fed não está tão eficiente quanto em outros ciclos? A taxa neutra aumentou?
Gapen: Achamos que o juro neutro está, pelo menos temporariamente, mais alto. Há muitas razões relacionadas à estrutura da economia, como a prevalência de taxas fixas de hipotecas, mas também simplesmente pelas forças de reabertura após a pandemia, que apontam para uma economia mais resiliente às taxas de juros. Acho, sim, que a taxa de juros está mais alta pelo menos no curto prazo. Concordo com o Fed que a política monetária está restritiva, mas acredito que ela está apenas moderadamente restritiva. À frente, eu diria que a duração do aumento da taxa neutra ainda é uma pergunta em aberto. É possível argumentar que talvez o mundo pós-covid tenha falta de oferta, enquanto o mundo pós-crise financeira global sofreu com a falta de demanda. Assim, pode ser que a inflação fique um pouco acima de 2% e, portanto, os juros no fim do ciclo ainda sejam altos.
Valor: A eleição pode ter algum impacto na política monetária?
Gapen: No momento, é uma eleição muito acirrada. Assim, o cenário que mais preocupa é o de controle da Casa Branca e do Congresso por um partido só. Em casos como esse, a política fiscal tende a ser mais frouxa – e pode haver, assim, uma situação de política fiscal frouxa e política monetária restritiva. O Fed poderia iniciar um ciclo de flexibilização independentemente do resultado das eleições, dada a situação da inflação, mas eu diria que a preocupação dos mercados se centra nesses resultados e no que isso implicaria para a política fiscal. De certa forma, pode-se argumentar que somos todos mercados emergentes agora. E se a visão é de política fiscal frouxa, o cenário de juros mais altos que temos agora pode se estender.
Valor: As incertezas fiscais têm sido menos discutidas do que o necessário nos EUA?
Gapen: Bem, há muita discussão sobre política fiscal em torno do curto prazo, ou dinâmica cíclica, mas também tem havido muita discussão sobre a sustentabilidade da dívida no longo prazo. Acho que os EUA podem contrair muito mais dívida. Não tenho certeza de que a sustentabilidade da dívida seja uma questão tão preocupante nos EUA como é em outros países. Dito isto, não é porque podemos contrair mais dívidas que devemos fazê-lo.
Valor: A independência do banco central corre perigo?
Gapen: A formulação de políticas do banco central é sempre política, já que o Congresso delegou responsabilidades ao Fed, que presta contas ao Congresso e ao Executivo, ao menos indiretamente. Portanto, dizer que a instituição é totalmente independente da política não é inteiramente verdade. Sobre possíveis mudanças nesse equilíbrio, acho que o Fed tem uma longa história de independência, que valoriza essa independência e tenta fazer a coisa certa em termos de elaboração de políticas. Se os seus objetivos forem claros e a autarquia continuar a se explicar publicamente de uma forma que as suas ações sejam justificáveis, estou menos preocupado com uma intervenção política no Fed.
Valor: Fatores como inteligência artificial (IA), imigração e ‘nearshoring’ já são relevantes para a resiliência da atividade nos EUA?
Gapen: Os nossos modelos captam claramente as melhorias na oferta de trabalho e isso aumenta a capacidade de crescimento da economia. Aumenta o potencial do PIB. Não por acaso, temos hoje um crescimento potencial em torno de 2,2% e 2,3%, que antes da pandemia estava em 1,7%, 1,8%. Sobre IA e ‘nearshoring’, há evidências claras de que os gastos e o investimento das empresas aumentaram, mas eu diria que não está claro se isso está neste momento provocando uma aceleração do crescimento da produtividade. Estamos otimistas que isso possa acontecer, mas não encontramos evidências de que isso esteja acontecendo hoje.
Fonte: Valor Econômico
