Por Gillian Tett — Financial Times
27/01/2023 05h01 · Atualizado
Nunca há um bom momento para o governo dos Estados Unidos atingir seu teto para a emissão de dívida – e desencadear especulações sobre um possível “default” iminente se o Congresso se recusar a elevá-lo.
O momento, porém, é especialmente inoportuno para essa briga. Isso em parte porque os grandes compradores estrangeiros reduziram discretamente suas compras de títulos do Tesouro no último ano, e isso poderá se acelerar se a falação sobre um possível default aumentar.
Também se deve ao fato de a liquidez ter desaparecido repetidamente do setor dos Treasuries em momentos de tensão nos últimos anos, por causa de vulnerabilidades latentes na estrutura do mercado. Isso poderia facilmente acontecer de novo em um choque do teto da dívida, uma vez que esses problemas estruturais permanecem (lamentavelmente) sem solução.
Mas o maior motivo de preocupação com o “timing” é que o sistema financeiro encontra-se em um estágio crucial no ciclo monetário. Após 15 anos de uma política monetária acomodativa, período em que o Federal Reserve (Fed) expandiu seu balanço de US$ 1 trilhão para US$ 9 trilhões, o banco central americano agora está tentando tirar liquidez do sistema, na ordem de US$ 1 trilhão por ano.
Esse processo há muito é necessário. Mas sempre seria difícil e perigoso. E se o Congresso passar os próximos meses convulsionado por ameaças de default – uma vez que a capacidade do Tesouro de se financiar aparentemente se esgota em junho -, os riscos de um choque no mercado vão aumentar.
Um relatório recente do grupo lobista americano Better Markets delineia bem o cenário mais amplo. Essa entidade ganhou fama durante a crise financeira global de 2008, quando se tornou uma pedra no sapato de Wall Street e das autoridades reguladoras em Washington por ter reclamado ruidosamente – e corretamente – sobre a insensatez da excessiva desregulamentação financeira.
Desde então, ela continua investigando os detalhes mais recônditos da regulamentação dos Estados Unidos, reclamando, mais uma vez com razão, de que as regras foram diluídas recentemente. No entanto, em um sinal marcante dos tempos, ela agora tem um outro alvo à vista: o Fed. Mais notadamente, ela acredita que o maior perigo à estabilidade financeira não são apenas os detalhes mais sutis da regulamentação, e sim a política monetária frouxa do pós-crise.
Isso deixou os investidores “bastante encorajados, ou mesmo forçados, a partir para compras de ativos mais arriscados, dissociou os preços dos ativos do risco e iniciou uma farra histórica de empréstimos e dívidas”, afirma o relatório da Better Markets. Assim, entre 2008 e 2019, o montante de dívida dos EUA mantida pelo público aumentou 500%, o total de dívida corporativa não financeira cresceu 90% e o crédito ao consumidor, excluindo financiamentos imobiliários, aumentou 30%.
Então, quando o Federal Reserve dobrou seu balanço em 2020 em meio à pandemia, essas categorias de dívida aumentaram outros 30%, 15% e 10%, respectivamente. E a consequência dessa alavancagem explosiva é que o sistema está hoje altamente vulnerável a choques à medida que as taxas de juros sobem e a liquidez declina – antes mesmo de se levar em conta a rixa sobre o teto da dívida.
“De muitas maneiras, o Fed está enfrentando problemas que ele mesmo criou. E considerando-se a escala desses problemas, é muito difícil resolvê-los sem causar algum dano”, dispara o relatório. “Embora o Fed monitore e procure abordar os riscos à estabilidade financeira e ao sistema bancário, ele simplesmente não conseguiu se ver – ou não olhou, ou não se considerou – como uma possível fonte desses riscos.”
As próprias autoridades do banco central americano contestariam isso, uma vez que acreditam que suas políticas monetárias frouxas evitaram uma depressão econômica. Eles também podem observar que aumentar a dívida não é um problema apenas americano. Uma das características mais impressionantes e frequentemente ignoradas do mundo pós-crise é que o endividamento global enquanto proporção do PIB saltou de 195% para 257% entre 2007 e 2020 (e de cerca de 170% em 2000).
Além disso, as autoridades do Fed também apontariam, corretamente, que o banco central americano não é uma causa direta da briga pelo teto da dívida. A culpa aqui está na disfunção política no Congresso e um conjunto insano de regras para a tomada de Treasuries.
Mas, mesmo admitindo essas ressalvas, concordo com a mensagem central da Better Markets, ou seja, que o banco central poderia e deveria ter sido bem mais proativo em reconhecer (e enfrentar) os riscos de suas políticas pós-crise, principalmente porque isso agora deixa o Fed – e os investidores – em um buraco horrível.
Em um mundo ideal, a saída menos ruim do desastre seria o Congresso abolir as regras de teto da dívida e criar um plano bipartidário para controlar os empréstimos; e que o Fed reconhecesse publicamente que foi um erro manter o dinheiro tão barato por tanto tempo e, assim, normalizar os níveis sempre crescentes de alavancagem.
Talvez isso venha a acontecer. Na semana passada, o senador Joe Manchin ventilou algumas ideias sobre uma reforma na seguridade social, sugerindo que pode haver um caminho para um acordo bipartidário para evitar um default. Mas se isso não acontecer, os próximos meses trarão um aumento das tensões no mercado e/ou um cenário em que o Fed será forçado a interferir e comprar ele mesmo Treasuries – mais uma vez.
Indubitavelmente os investidores e os políticos prefeririam a última opção. Na verdade, muitos provavelmente assumem que isso acontecerá. Mas trata-se de algo que aumentaria novamente a ameaça de risco moral e criaria ainda mais problemas no longo prazo. Seja como for, não há soluções fáceis. O feitiço está se voltando contra o feiticeiro.
Fonte: Valor Econômico


