O desmonte internacional da maior operação de “carry trade”, que ganha com a diferença de juros entre diferentes países, tem potencial para desestabilizar ainda mais os mercados financeiros, segundo analistas, uma vez que o fortalecimento da moeda japonesa tem obrigado especuladores a desfazer apostas que poderiam chegar a centenas de bilhões de dólares.
Nos últimos três anos, a versão em ienes para operações que consistem em captar dinheiro em um país com juros baixos para investir em ativos que oferecem retornos mais altos teve um crescimento explosivo, graças aos juros baixíssimos do Japão.
A valorização do iene, impulsionada pela elevação na semana passada da taxa básica de juros pelo Banco do Japão (BoJ), a autoridade monetária do país, obrigou fundos hedge e outros investidores a rapidamente desfazer suas operações. Isso teve influência na recente turbulência dos mercados, inclusive na onda desenfreada de vendas na segunda-feira, quando investidores se apressaram em vender ativos que haviam comprado após captarem empréstimos em ienes.
“Você não pode desfazer o maior carry trade que o mundo já viu sem cortar algumas cabeças”, disse Kit Juckes, estrategista cambial do Société Générale.
Estimativas apontam que as operações de carry trade com ienes se tornaram uma das maiores apostas do tipo na história, com a captação barata na moeda japonesa sendo redirecionada para todo tipo de ativo, desde ações nos EUA e moedas em países emergentes como peso mexicano até ações e imóveis em Taiwan.
É difícil estimar o tamanho das apostas, dizem analistas, em razão de sua escala e da disseminação do uso pelos mais variados tipos de investidores, desde fundos hedge e escritório de gestão de patrimônio familiar até gestoras de private equity e empresas japonesas.
Embora uma parte dessas operações envolva fundos hedge e outros investidores de curto prazo financiando apostas especulativas com empréstimos captados em ienes, elas também foram feitas por investidores pessoa física e empresas japonesas que usaram recursos locais para investir no exterior.
Nesta semana, em teleconferência com clientes, James Malcolm, estrategista global do UBS, estimou em cerca de US$ 500 bilhões o tamanho acumulado do carry trade dólar-iene construído desde 2011, com cerca da metade disso tendo sido feita nos últimos dois a três anos. Ele calcula que cerca de US$ 200 bilhões dessas posições foram desmontadas nas últimas semanas, em torno a 75% do total que acabará sendo desfeito, segundo suas previsões.
Uma autoridade japonesa de alto escalão disse que “houve muito uso irracional do carry trade nos últimos anos, então era inevitável que houvesse uma grande reversão disso em algum momento”.
De acordo com o Banco de Compensações Internacionais (BIS), os empréstimos em ienes entre fronteiras – nem todos usados necessariamente em carry trade – aumentaram em US$ 742 bilhões desde o fim de 2021. Os empréstimos entre fronteiras com origem no Japão atingiram 157 trilhões de ienes (US$ 1 trilhão) em março de 2024, um aumento de 21% desde 2021, segundo analistas do ING.
Essa recente dinâmica foi alterada radicalmente quando as autoridades japonesas intervieram para fortalecer o iene e, na semana passada, quando o BoJ impactou o mercado com uma elevação inesperada nos juros básicos e deu fortes indicações de que haveria mais por vir.
Alguns analistas e operadores suspeitam que a maioria das apostas mais especulativas feitas com captações em ienes já foi liquidada. Outros acreditam que ainda pode haver um volume grande de liquidações por vir, uma vez que as vendas feitas por fundos hedge também estão passando a ser executadas por investidores de “dinheiro real”.
“A verdade sobre o carry trade em ienes é que ninguém sabe exatamente o quão grande ele é ou quanto já foi desfeito. Mas, a esta altura, sem dúvida há uma sensação de que algumas das apostas vendidas em ienes mais instáveis que estavam financiando operações especulativas foram eliminadas”, disse Benjamin Shatil, estrategista cambial do J.P. Morgan.
A operação de carry trade baseada em dinheiro agora provavelmente já deixou seu pico para trás, “mas ainda tem um longo caminho a percorrer”, diz Shatil.
Em nota após o aumento dos juros pelo BoJ, o analista de câmbio Osamu Takashima, do Citigroup, previu que “o ajuste atual é apenas o começo do fim”. Ele estima que a cotação da moeda americana poderia cair para 129 ienes por dólar, em 2026, e para 116 ienes, em 2027. Hoje, gira em torno de 147 ienes.
Fonte: Valor Econômico