Por Álvaro Campos — De São Paulo
27/03/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
A Kamaroopin, plataforma que ancora a estratégia de “growth equity” da gestora Pátria Investimentos, divulgou um amplo estudo sobre esse segmento, formado por empresas com alto crescimento e que estão em fase de dar escala à oferta. Algumas descobertas são surpreendentes e vão contra o senso comum. Se, em geral, os retornos em venture capital (voltado para startups em estágio mais inicial) são nominalmente maiores, quando ajustado pelo risco o retorno em “growth” ultrapassa esse segmento. Além disso, a América Latina aparece como a região do mundo com maior retorno.
A base para o desenvolvimento do material utilizou o banco de dados Preqin, que rastreia informações de fundos de risco, e analisou informações de desempenho de 3.955 carteiras de investimentos alternativos entre 2010 e 2022, separadas em 1.017 de growth, 1.414 de venture capital e 1.524 de private equity (que mira empresas já maduras). O estudo propõe uma métrica derivada da “Sharpe ratio”, usada para analisar risco ajustado ao retorno de investimento em empresas listadas, para investimentos ilíquidos. A análise considera diferentes fatores de risco ligados a empresas em vários estágios de desenvolvimento, como risco de produto, tecnologia, expansão, equipe, jurídico, adaptação do produto ao mercado e lucratividade.
Na medição tradicional, o retorno (MOIC, múltiplo sobre capital investido, na sigla em inglês) é maior em venture capital, a 2,49 vezes, do que em growth, a 1,74. Já no MOIC ajustado, growth assume a liderança, com retorno de 1,30 vez, contra apenas 0,3 do venture capital. Na divisão geográfica, a América Latina tem maior retorno ajustado em growth, a 2,6, seguida por Europa (2,0), América do Norte (1,81), África (1,73), Oriente Médio (1,17) e Ásia (1,16).
De acordo com Pedro Faria, sócio-fundador da Kamaroopin, as particularidades do mercado latino-americano trazem oportunidades de investimentos interessantes em growth. “Nos últimos anos, muitas empresas ‘early stage’ [fase inicial] receberam investimentos expressivos de fundos de venture capital e, atualmente, muitas delas estão atingindo um maior nível de maturidade. Dado esse cenário, existe uma crescente demanda não só por investimentos de growth, mas, também, por sócios que consigam levá-las para outro patamar do ponto de vista de estratégia, equipe e governança.”
José Eduardo Andrade, analista de growth da Kamaroopin, explica que o risco no segmento é proporcionalmente muito menor do que em venture capital, o que faz com que o retorno ajustado se torne maior. “Muito se fala da volatilidade na América Latina, mas nossa pesquisa mostra que, das seis regiões pesquisadas, o retorno ajustado do growth é maior que o venture capital em quatro delas.” O estudo aponta que as razões para as diferenças regionais observadas são provavelmente complexas e multifacetadas e exigiriam uma análise mais aprofundada de diversas variáveis específicas de cada região do mundo. Entretanto, devido à falta de granularidade nos dados disponíveis, ainda não é possível explorar esses fatores em detalhes.
Ainda assim, o estudo aponta que um dos motivos que podem ter colaborado para o bom desempenho dos latinos é que nos últimos cinco anos a região viu um aumento significativo nos investimentos no mercado privado, levando a um cenário empreendedor mais próspero e diversificado. Nesse período houve 3.790 rodadas pré-seed (capital semente) ou seed, 459 rodadas de série A e 165 rodadas de série B. “Muitas das startups que receberam capital institucional nesse período desenvolveram produtos de sucesso com altos NPS [métrica de satisfação de clientes], escalaram sua base de clientes, construíram equipes fortes, estabeleceram vantagens competitivas e alcançaram ‘unit economics’ atrativos”, afirma o relatório.
Outro fator que pode ajudar a explicar os retornos maiores na América Latina é a baixa concorrência de fundos de growth que fazem aportes na região. Ou seja, eles conseguem pagar preços menores e, assim, ter retornos mais elevados. O estudo estima que a demanda por rodadas pós-Série A será de aproximadamente US$ 6,1 bilhões por ano na região no médio prazo. No entanto, a disponibilidade de capital para growth é de apenas US$ 3,7 bilhões, incluindo investimentos oportunistas de fundos globais sem equipes latino-americanas dedicadas. Isso cria um desequilíbrio anual de US$ 2,4 bilhões entre oferta e demanda. “Nesse ambiente de demanda excessiva, o investidor tem maior capacidade de escolha, pode ser mais seletivo”, explica Faria.
Na divisão por setores de atuação, aqueles com maior taxa interna de retorno (IRR) em growth são serviços (42,2%), saúde (36,1%), consumo discricionário (30,4%), tecnologia (28,5%) e serviços financeiros (23,4%). “O investimento em growth necessita de conhecimento muito mais profundo em poucas verticais”, aponta Faria. O estudo indica que empresas de growth com abordagem mais próxima com as investidas tiveram retorno médio 11% maior do que aquelas com envolvimento diário limitado.
Fonte: Valor Econômico


