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Joe Biden, que luta para se reeleger presidente dos EUA com índices de aprovação péssimos, pode considerar que tem sorte em pelo menos um aspecto: ele não é Rishi Sunak.
O premiê do Reino Unido convocou eleições para 4 de julho e, assim como Biden, se defronta com um profundo pessimismo da opinião pública em relação à economia. Mas, ao contrário do presidente americano, Sunak não pode alegar que o pessimismo não tem ligação com os dados concretos.
O Reino Unido tem um dos piores desempenhos entre as maiores economias do mundo desde que a pandemia de covid-19 começou, em 2020, com crescimento menor, inflação mais alta e investimentos mais fracos do que seus pares.
A culpa é da falta de sorte e das escolhas ruins. A responsabilidade por algumas dessas escolhas cabe aos conservadores, em particular à decisão de abandonar a União Europeia. Mas isso não significa que o Partido Trabalhista, que pode formar o próximo governo, fará algo melhor. E disso é possível tirar lições para o resto do mundo: sejam quais forem as falhas da globalização, dar-lhe as costas pode custar caro e ser difícil de reverter.
Comecemos com a falta de sorte. Assim como nos EUA, a inflação é uma das principais preocupações das pessoas no Reino Unido. Embora o último número divulgado, de 2,3%, não seja alto em relação a outros países, o aumento acumulado dos preços desde fevereiro de 2020 foi maior no Reino Unido do que nos EUA ou na zona do euro (a partir de um índice que corrige as diferenças de medição).
Os preços da energia aumentaram em todos os países depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, mas no Reino Unido subiram mais do que na maioria; o Reino Unido importou muito pouco gás da Rússia, mas bastante da Noruega e dos EUA, cujos preços dispararam depois que a Rússia cortou seu fornecimento para a Europa ocidental.
O Reino Unido também teve um dos maiores números de mortes per capita do mundo desenvolvido no primeiro ano da pandemia de covid-19 e doenças de longa duração foram um dos principais fatores a tirarem as pessoas da força de trabalho. A oferta fraca de mão de obra, por sua vez, manteve o desemprego baixo, a quantidade de vagas em aberto alta e o crescimento salarial vigoroso, contribuindo para a pressão inflacionária. Isso tem impedido que o Banco da Inglaterra, corte as taxas de juro, cortes com os quais Sunak, como Biden, está contando.
Raramente o desempenho econômico pode ser associado a uma decisão específica de um líder. Os conservadores cometeram erros durante a pandemia, como desrespeitar as regras de distanciamento social que eles mesmos estabeleceram, mas o Reino Unido foi rápido em vacinar sua população.
Além disso, embora os choques dos últimos anos tenham atingido quase todo o mundo, o Reino Unido tem sido singularmente ineficaz para lidar com eles.
Biden foi muito criticado por alimentar a inflação com estímulos governamentais, mas conseguiu um mercado de trabalho invejavelmente forte. O mesmo não acontece com Sunak, um ex-analista do Goldman Sachs que era o ministro das Finanças no início da pandemia e se tornou primeiro-ministro em 2022. Um relatório de economistas do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) mostra que, embora o Reino Unido tenha oferecido quase tanto estímulo como os EUA, em relação à produção econômica de cada um, o país tem menos a mostrar como resultado e seu desempenho foi inferior ao da zona do euro, do Canadá e dos EUA em termos de crescimento do emprego, horas de trabalho e produtividade.
O crescimento fraco junto com a inflação persistente se explicam em parte pela produtividade estagnada (produção por trabalhador), que por sua vez pode ser atribuída a uma queda no investimento que começou depois que o Reino Unido votou a favor de sair da UE em 2016, com o apoio de Sunak.
Entre o início de 2016 e o fim de 2023, o investimento britânico caiu 17% em relação a outras economias desenvolvidas, segundo o J.P. Morgan. Metade disso pode ser vinculado de maneira plausível às barreiras administrativas e à incerteza provocadas pelo Brexit. Um estudo que tem como um de seus autores o dirigente do Banco da Inglaterra Jonathan Haskel concluiu que o investimento no Reino Unido em 2022 era 10% mais baixo do que se a tendência anterior a 2016 tivesse persistido.
Isso é o oposto daquilo em que os conservadores apostaram: que fora da UE e com pouca regulamentação, o Reino Unido poderia tornar-se um ímã para o investimento estrangeiro, um centro para a exportação de serviços muito valorizados e um parceiro de livre comércio dos EUA e da China.
O Reino Unido já apostava na globalização muito antes do Brexit. O “Novo Trabalhismo”, sob o comando do ex-premiê Tony Blair, adotou o chamado Consenso de Washington, pelo qual bens, serviços, capitais e ideias atravessariam as fronteiras de forma cada vez mais livre.
Em um mundo assim, não importava que o Reino Unido se tivesse desindustrializado; a indústria manufatureira correspondia a apenas 9% da produção nacional nos últimos anos, abaixo dos EUA, com 11%, e menos da metade dos números do Japão, da Coreia do Sul e da China.
O Reino Unido acreditava que poderia sustentar sua decisão porque se destacava no que o escritor de tecnologia Dan Wang chama de “setores que parecem inteligentes”, como os meios de comunicação, as finanças e o ensino superior.
Mas o Brexit aconteceu em um momento terrivelmente inoportuno, justo quando a globalização começou a retroceder: a China tornou-se mais explícita na sua ofensiva de promover campeões nacionais à custa do Ocidente e nos EUA o então presidente Donald Trump adotou tarifas para proteger as indústrias americanas e punir a China.
Em um mundo em fragmentação, as multinacionais querem estar presentes em todos os blocos econômicos, e o Reino Unido saiu do maior deles.
O Partido Trabalhista afirma estar pronto para esse mundo novo. “A globalização, tal como a conhecíamos, está morta”, disse em março Rachel Reeves, provável ministra das Finanças em um governo trabalhista. Em um eco dos temas ouvidos em Washington, Bruxelas e Pequim, ela cobrou uma “estratégia industrial moderna”, capaz de expandir a “capacidade produtiva nacional”, identificar setores “críticos para determinar nosso futuro” e aprofundar as “vantagens comparativas” que o Reino Unido já tem.
Contudo, não importa quem vença as eleições, tanto os trabalhistas como os conservadores estarão limitados pela realidade de uma economia mundial fragmentada, na qual o Reino Unido não tem os recursos financeiros dos EUA para subsidiar o investimento ou fabricantes de marca para ancorar a produção e a inovação nacionais. Para uma economia do tamanho da do Reino Unido, cadeias de fornecimento autossuficientes têm um custo proibitivo.
O Reino Unido poderia compensar isso se conseguisse acesso a um mercado interno tão grande quanto o da China ou o dos EUA. Tanto os trabalhistas como os conservadores já descartaram a possibilidade de voltar a integrar a UE.
Aqui há lições para o resto do mundo. A globalização e o livre comércio têm suas falhas, e pode ser necessário sacrificar alguma eficiência – por meio de subsídios ou tarifas – para corrigi-las. Mas se isso for levado longe demais, o resultado será mercados menores e preços mais altos. Os EUA não sentirão os efeitos tanto como o Reino Unido, mas a direção será a mesma e, como o Reino Unido está descobrindo, difícil de reverter.
Fonte: Valor Econômico
