A demanda pelos ativos de propriedade industrial no Brasil deve continuar crescendo até 2030, mas em ritmos relativamente estagnados entre as modalidades, aponta estudo do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) obtido com exclusividade pelo Valor.
A projeção é baseada nas expectativas de mercado do relatório Focus, que trabalha com crescimento moderado do Produto Interno Bruto (PIB), inflação convergindo para perto da meta e câmbio ainda depreciado.
Segundo o levantamento, nos próximos anos, o depósito de patentes tende a avançar de forma moderada, em 3% ao ano, enquanto as marcas permanecem como principal vetor de expansão (6,9%).
Ainda segundo o estudo, os registros de programas de computador seguem crescendo a taxas elevadas (15,6%) até 2030, enquanto os novos depósitos de desenhos industriais devem permanecer praticamente estáveis (0,5%).
Na visão do economista-chefe do INPI, Rodrigo Ventura, os dados de propriedade intelectual funcionam como uma “lente de alta resolução” para análise da economia.
“As estatísticas de propriedades industriais revelam como os agentes estão reagindo a esse ambiente de crescimento econômico moderado. Ou seja, os ativos de propriedade industrial ajudam a contar histórias sobre a economia. A inovação no Brasil está mudando de natureza, está cada vez menos industrial e mais digital e orientada a serviços. Essa é uma mensagem-chave trazida por esse relatório”, afirma o especialista
A análise retrospectiva do período entre 2016 e 2025 mostra que a economia brasileira saiu da recessão, enfrentou o choque da pandemia e entrou em uma fase de recuperação, mas ainda com limitações estruturais. Entre 2016 e 2020, o depósito de patentes vinha de uma queda anual de 3,9%, passando por recuperação entre 2021 e 2025 (1,8% de crescimento anual médio).
Segundo o estudo, o crescimento recente dos depósitos de propriedade intelectual foi apoiado sobretudo em commodities e agropecuária. O cenário de investimento baixo e indústria ainda frágil, ajuda a explicar a evolução mais contida de ativos ligados a atividades industriais e tecnológicas mais intensivas em capital, como as patentes e os desenhos industriais.
“Esse é o nosso cenário de referência, com inflação sob controle, crescimento moderado, câmbio relativamente depreciado e alguma recuperação do investimento, mas ainda num patamar limitado. Ou seja, é um cenário que não sinaliza e não antecipa nenhuma mudança estrutural relevante. É uma expansão econômica mais organizada, porém limitada. Dentro desse ambiente, a propriedade industrial deixa de se mover de uma forma uniforme”, explica.
Assim como as patentes, as marcas devem também manter um crescimento desacelerado, da ordem de 7%, mas, por outro lado, consolidaram-se como o ativo mais dinâmico. Entre 2016 e 2020, os depósitos de marcas cresceram 13% ao ano, enquanto o crescimento foi de 11,9% entre 2021 e 2025, segundo o estudo do INPI.
O crescimento do comércio eletrônico, a digitalização dos serviços e a maior inserção internacional, impulsionada pela adesão ao Protocolo de Madri – tratado internacional que permite registrar e gerenciar marcas em mais de 120 países através de um único pedido – sustentaram o aumento dos depósitos mesmo durante a pandemia.
“Em marcas, vemos um dinamismo que desacelera. E o que que sustenta o depósito de marcas? É a própria competição, a competitividade da economia e do setor de serviços. A economia brasileira é uma economia cada vez mais orientada pelo setor de serviços. Marcas ainda são um ativo de propriedade industrial dinâmico, embora a quantidade de depósitos cresça em ritmo decrescente”, explica Ventura.
Já em programas de computador, a história é outra: os registros cresceram continuamente e de forma relativamente dissociada do ciclo macroeconômico, sustentados pela digitalização acelerada e pela difusão de soluções tecnológicas.
Fonte: Valor Econômico