
O investidor brasileiro está cauteloso depois que inesperados movimentos de reestruturação de dívida em grandes empresas puxaram a abertura dos spreads no mercado de crédito brasileiro afetando a rentabilidade dos fundos, segundo especialistas consultados pela Capital Aberto.
Ao mesmo tempo, o agravamento da guerra no Irã contribui para a deterioração dos fundamentos no mercado local e externo, aumentando ainda mais a desconfiança do investidor local, Segundo Hugo Queiroz sócio e head de Corporate Advisory da L4 Capital, o ambiente macroeconômico brasileiro é desafiador.
Para ele, o contexto traz notícias negativas não apenas pelo lado de Raízen e GPA, mas por uma grande quantidade de outras recuperações judiciais e extrajudiciais, que acabam enfraquecendo as garantias apresentadas nestas emissões. “O ativismo das equipes jurídicas nestes casos acaba aumentando a percepção de risco no mercado, e toda vez que se tem esta percepção, piora o [cenário para o] crédito privado interno,” afirmou Queiroz.
Investidor pondera o risco de crédito

Com o spread atual e a taxa Selic ainda elevada, e sem perspectiva de queda no curto prazo, combinados com o conturbado cenário global, o investidor pondera que não vale a pena correr o risco neste momento, observou Milene Dellatore, especialista em finanças, day trader e sócia-diretora da MIDE Mesa Proprietária.
“No mercado local, o que impressiona é que são empresas que cinco anos atrás não se cogitavam que fossem passar por uma recuperação extrajudicial”, disse Milene. “Para o investidor institucional, é diferente porque ele tem mais acesso a informação, mais garantias, mas para o investidor individual é mais complicado”, acrescentou.
A deterioração no ambiente interno somada ao cenário adverso também no mercado externo impacta negativamente os fundamentos. No fim do dia são a base da análise de crédito que os bancos e os investidores no mercado de capitais usam para fazer as suas modelagens e achar o spread adequado para cada companhia e setor.
“Isto tudo reduz concessão [de crédito], aumenta critério, aumenta as taxas para as empresas e, consequentemente, diminui as rolagens e renovações de dívida,” disse Queiroz sobre o mercado primário de crédito.
Contágio no mercado secundário
No mercado secundário, a percepção de risco também prevalece e os investidores estão atentos a este momento e monitorando todos os desafios. Mesmo os títulos que não têm perspectiva negativa acabam sofrendo desvalorização, por conta deste prêmio que está sendo exigido no mercado primário e que acaba sendo transferido para o mercado secundário.
“É um cenário que vai prevalecer no curto prazo, uma vez que as companhias estão enfrentando bastante dificuldade em renegociar dívida e honrar os pagamentos contratados,” disse Queiroz.
Milene, da MIDE, observa que neste cenário, a atuação da justiça brasileira nas reestruturações de dívida em curso terá um papel fundamental para sustentar o mercado de crédito brasileiro. “Nossa Justiça vai ter que ser firme para dar sustentação ao mercado privado de crédito no Brasil,” afirmou Milene, da MIDE.
O Brasil vem registrando níveis crescentes de recuperações judiciais e extrajudiciais desde 2020, com níveis mais preocupantes entre 2023 e 2025, em meio aos juros elevados, observou Maria Alice Deucher, advogada do DDSA Advogados.
Tal cenário ainda deve prevalecer neste ano por conta da perspectiva de manutenção dos juros elevados, que pressionam a performance das empresas, e de um cenário macroeconômico ainda incerto, afirmou Deucher.
Algumas mudanças nos processos de recuperação judicial, como melhorar capacidade de recuperação de créditos para estes investidores poderiam minimizar estes impactos, acrescentou.
Enquanto isso, dados da Anbima mostram que, em dezembro, os fundos de investimentos registraram um resgate líquido de R$ 66,7 bilhões, observou Milene. “Estamos vendo a possibilidade de novos picos de resgate por conta da confiança no mercado”, afirmou.
Fonte: Capital Aberto