Fortalecer conexões e ampliar a presença feminina em espaços de poder por meio de uma rede global de mulheres em posições de liderança. É assim que Kimberly Cooper Jaqua, presidente global do conselho do International Women’s Forum (IWF), define a missão da organização.
Criado nos EUA em 1974, o IWF conecta atualmente cerca de 8 mil mulheres em mais de 30 países. Entre as associadas estão profissionais de diferentes áreas, como artistas, astronautas, executivas, chefes de Estado e vencedoras do prêmio Nobel.
Jaqua esteve no Brasil para o lançamento de um capítulo do IWF no país. No momento, 32 mulheres integram a organização em São Paulo, entre elas Angelina Loureiro, CFO para a América do Sul da Ford; Caroline Carpenedo, CHRO da Suzano; Chantal Pillet, diretora executiva na Kroll; Mariana Miné, CEO do Instituto Rede Tênis Brasil; e Rosalba Pantoja, diretora executiva de operações internacionais na Eurofarma.
A ideia é chegar a 100 membros até 2028, além de expandir a operação para as cidades do Rio de Janeiro e Porto Alegre. Para participar, é necessário receber indicação de pelo menos duas pessoas que já estejam na rede, atender a critérios como impacto na sociedade e se comprometer com a causa “menos ego e mais propósitos”.
Em entrevista exclusiva ao Valor, a executiva afirmou que o momento é oportuno para iniciar a operação devido ao avanço recente na redução da desigualdade de gênero na América do Sul. “Nos empolga a energia das pessoas, da economia, do crescimento social, e o fato de ser uma região que está realmente acelerando o progresso das mulheres. O Brasil tem muito a oferecer ao mundo, e o mundo tem muito a oferecer em troca.”
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Tatiana da Ponte, presidente do IWF no Brasil, complementou dizendo que apesar dos avanços, ainda há um longo caminho a percorrer. “Somos maioria entre os formados na universidade, entramos fortemente no mercado de trabalho, temos 33% das mulheres em cargos de gestão, mas ainda não alcançamos esse patamar na alta liderança. Ou seja, estamos indo rápido, mas ainda não chegamos lá.”
Para aumentar a participação feminina em cargos de diretoria e conselhos, o IWF atua com base na filosofia “lift as we rise” (elevar outras mulheres enquanto avançamos), que, segundo Jaqua, é colocada em prática por meio de três pilares: conectar, por meio da construção de redes de relacionamento; catalisar, ao oferecer programas de desenvolvimento; e celebrar, reconhecendo as conquistas das mulheres. “O primeiro passo é unir as mulheres. Quando você se isola, passa a focar apenas em sobreviver. Então, garantir que as mulheres que ocupam posições de autoridade não fiquem sozinhas é muito importante”, destaca.
Entre as iniciativas do IWF está um programa de desenvolvimento de lideranças voltado a mulheres que aspiram a cargos de C-Level, realizado em parceria com instituições como Harvard, Cambridge e Insead. Também são promovidos eventos de networking e premiações, além de conferências globais em que são discutidas as principais questões do momento, como inteligência artificial, sob a ótica feminina. “Teremos ainda, no Brasil, um programa de mentoria para mulheres de média gerência chegarem à diretoria”, detalha Ponte.
“Focamos especificamente em mulheres em cargos de liderança porque isso tem um efeito dominó profundo”, pontua Jaqua. “Quando mulheres veem outras ascendendo a cargos de liderança, elas também conseguem se ver assumindo essas posições. Assim, mais mulheres sobem e todas se beneficiam. O impacto é exponencial.”
A executiva frisa que o crescimento só acontece quando há intencionalidade por trás das ações e que, nesse sentido, é importante que empresários estejam realmente comprometidos com a diversidade independentemente de políticas públicas. “Dados da ONU e do Fórum Econômico Mundial mostram que quando você tem uma variedade de perspectivas na mesa, aumenta a sua capacidade de inovação e criatividade, diminui seu risco geral e aumenta a sua sustentabilidade a longo prazo”, diz.
“Diferente das políticas governamentais, que podem mudar dependendo da administração, acredito que cabe aos líderes da comunidade empresarial entender a oportunidade econômica de ter mulheres na liderança”, argumenta Jaqua. “Estamos deixando trilhões de dólares na mesa ao não ter mulheres participando nos mesmos níveis que os homens.”
Na visão de Ponte, é necessário que os cargos mais altos das companhias sejam um espelho da sua força de trabalho e de seus clientes. “Uma empresa em que metade dos talentos são mulheres mas não tem nenhuma mulher na liderança não está sendo representativa. Por não oferecer perspectivas a essas mulheres, ela não vai conseguir atrair e reter talentos. E sabemos que talentos são muito importantes para o crescimento”, ilustra.
“Além disso, as mulheres estão crescendo profissionalmente e se tornando cada vez mais consumidoras. Se o seu consumidor são as mulheres, mas você não tem uma voz com propriedade feminina, como poderia entender as necessidades do seu cliente? “, questiona. “E não é escolher qualquer uma só para ter um número. É preciso preparar as mulheres que serão promovidas.”
Para aquelas que desejam ascender à liderança, a principal recomendação de Jaqua é procurar outras mulheres e aliados que possam oferecer mentoria e patrocínio profissional. “Eu realmente acredito que somos mais fortes juntas. Não cheguei aonde estou só com mulheres, mas sei que estou melhor por causa das mulheres que me cercam”, declara.
Segundo Jaqua, o IWF continuará se expandindo, sendo que o próximo lançamento de capítulo local deve acontecer no Uruguai. “Nenhum país fechou completamente a lacuna de gênero. Nossa esperança é que, ao conectarmos líderes mulheres ao redor do mundo, possamos compartilhar ideias e trocar informações sobre melhores práticas para levarmos de volta para todas as regiões e, assim, ajudar a tornar o processo de equidade mais rápido para todos.”
Fonte: Valor Econômico