17 Aug 2023
LUIZ HENRIQUE GOMES O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO MINISTÉRIO DO COMÉRCIO DA CHINA
Em um dia de verão, com os termômetros marcando 39 graus, centenas de crianças faziam fila na entrada do Templo do Céu, complexo taoista construído em 1420, uma das principais atrações de Pequim. Enquanto aliviavam o calor com ventoinhas, guias gritavam instruções segurando bandeirolas. Durante as férias, a capital chinesa está lotada de turistas de várias partes do país. Um ano após o fim da política de covid zero, os chineses voltaram a viajar, com incentivo do governo para acelerar a recuperação econômica. Mas, se o setor de serviços está aquecido, o restante da economia patina.
O PIB cresceu 6,3% no segundo trimestre, em comparação com o mesmo período de 2022, quando a economia estava em baixa por causa dos lockdowns – o que torna o crescimento menos impressionante. Em comparação com o primeiro trimestre, a economia cresceu apenas 0,8%.
O desemprego entre jovens continua em alta (21,9%), o setor privado ainda não recuperou a confiança para novos investimentos e as exportações tiveram uma queda de 12% em junho, em comparação com o ano anterior. A venda de imóveis caiu 27% no mesmo período, mostrando a crise no setor imobiliário, a espinha dorsal do crescimento chinês.
DEFLAÇÃO. Em julho, os preços ao consumidor caíram pela primeira vez desde 2021. Agora, a China convive com o fantasma da deflação, o mesmo que assombrou o Japão na estagnação dos anos 90. Analistas atribuem o cenário ruim às mudanças nos preços globais das commodities e à guerra comercial com os EUA.
Dificuldades domésticas também desafiam o crescimento, justamente em um ciclo econômico que prioriza o consumo e a demanda para tornar a economia menos dependente do comércio exterior. “Existe um cenário doméstico de falta de confiança do consumidor e de empresários para investir”, disse Aline Tedeschi, do centro de estudos Observa China.
Esses desafios são reconhecidos pelo governo chinês. O Politburo, principal órgão decisório na China, analisa uma série de medidas para impulsionar a economia. “O principal desafio é a demanda interna insuficiente, dificuldades operacionais de empresas, risco em setores-chave e ambiente externo complicado”, disse o órgão, que definiu a recuperação póscovid como um movimento de ondas, de avanços e retrocessos.
As respostas têm sido cautelosas, ao contrário de outras crises. Em 2008, vastos pacotes de estímulo foram lançados para impulsionar o crescimento. Hoje, no entanto, as medidas estão limitadas a cortar juros, dar incentivos aos consumidores – como crédito para compra de eletrodomésticos e automóveis – e encorajar o setor privado a investir.
Para alguns economistas, a cautela representa o cuidado do governo para não haver inflação ou uma explosão de empréstimos que corroa a lucratividade de bancos e aumente a inadimplência, que cresceu durante a pandemia.
PREÇOS. Segundo a economista Isabella Weber, autora do livro Como a China escapou da Terapia de Choque, o temor da inflação está ligado à história: na década de 40, um fator determinante para a revolução foi a incapacidade dos nacionalistas de controlar a inflação. “O fato de não terem feito grandes estímulos tem a ver com esse controle”, disse Weber.
A queda de preços em junho desafia o planejamento econômico chinês. Com preços em queda, os consumidores esperam para adquirir bens na expectativa de encontrar valores cada vez mais baixos.
Esse comportamento se soma à desconfiança de investidores privados e às altas despesas de famílias durante a pandemia como fatores que reprimem a demanda doméstica. Como consequência, corre-se o risco de cair em um ciclo vicioso: menos atividade econômica resulta em cortes salariais, renda instável, piora no índice de emprego e queda ainda maior do consumo.
As políticas de estímulo do governo são implementadas para reverter esse processo, mas esse tipo de medida, em mercados como o imobiliário, aumenta o risco de contrariar outros planos econômicos. Hoje, o setor é visto por muitos como o maior desafio da China. Em 2017, o presidente chinês, Xi Jinping, iniciou uma política de moradia para evitar a especulação. “Moradia é para morar, não para especular”, disse.
A especulação aconteceu quando o setor era responsável por 25% do PIB e resultou em grandes incorporadoras e acumulação de propriedade por parte de famílias que viam os imóveis como um meio de investimento.
ESPECULAÇÃO. Por seis anos, o princípio de Xi sustentou a política contra a especulação imobiliária e expansão do crédito. Mas, nos últimos meses, a regulação foi afrouxada em diversas cidades para o setor voltar a aquecer e ajudar a recuperação. A compra de casas e regras de financiamento para incorporadoras foram facilitadas.
O grande esforço é para recuperar a confiança dos investidores, em baixa desde o caso da Evergrande, que ficou à beira da falência após acumular dívidas de US$ 300 bilhões. “O governo deve se adaptar à nova situação, na qual a dinâmica de oferta e demanda do mercado imobiliário está mudando”, disse o Politburo.
Analistas, porém, esperam que as autoridades se abstenham de fortes medidas de estímulo, em meio a preocupações de que elas possam inflar ainda mais a bolha imobiliária. “O governo não quer resolver os problemas de hoje apenas criando uma bolha maior para esvaziar no futuro”, afirmou Wei He, da Gavekal Dragonomics.
Em julho, 28 medidas foram anunciadas para impulsionar o setor privado, que incluem a desburocratização para facilitar a participação de empresas em grandes projetos nacionais de infraestrutura e investir no setor imobiliário.
O país mira em projetos em áreas menos desenvolvidas, como as zonas rurais e províncias orientais. “A China é um país gigantesco e ainda há vastas áreas muito pobres. Isso terá grandes implicações para o desenvolvimento macroeconômico”, disse Weber.
Para Tedeschi, o foco no setor de construção tem ligação com o incentivo ao consumo. “A maior parte do consumo, incluindo carros e eletrodomésticos, está ligada ao setor imobiliário”, declarou. “Portanto, o apoio ao setor é fundamental para estimular o consumo em outras áreas.” Entre as medidas de estímulo, estão a garantia aos compradores da primeira casa e crédito aos que buscam melhores moradias.
O governo estuda a resposta aos desafios e experimenta soluções, com políticas de incentivo que visam, ao mesmo tempo, evitar o retorno de antigos problemas e impulsionar a economia dentro da nova direção estabelecida por Xi.
Mesmo que as férias de verão (Hemisfério Norte) deem um alívio momentâneo para a economia, o governo sabe que o setor de serviços e o consumo são insuficientes para crescer. Afinal, as temperaturas logo vão baixar e os turistas de férias serão uma imagem distante. •
“O governo não quer resolver os problemas de hoje apenas criando uma bolha (imobiliária) maior para esvaziar no futuro” Wei He – Consultor da Gavekal Dragonomics
Os incentivos visam evitar antigos problemas e impulsionar a economia segundo a direção de Xi
Fonte: O Estado de S. Paulo