A situação financeira da elite do futebol brasileiro piorou, apesar dos times terem conseguido no último ano aumentar o faturamento. Os 20 clubes da série A tiveram receitas maiores em 2023, mas isso não significou um maior equilíbrio financeiro, considerando que tanto os custos quanto as dívidas aumentaram. É o que mostra um estudo produzido pelo economista Cesar Grafietti, da consultoria esportiva Convocados, em parceria com a Outfield e a gestora Galapagos Capital.
“Os clubes tiveram um aumento de receita, de forma geral, mas parte dela não foi usada para pagar dívidas. Ao invés de aproveitar a maior receita para adequar a situação financeira, os clubes preferiram reinvestir ou usar os recursos na própria operação”, disse Grafietti ao Valor.
A geração de caixa, medida pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caiu 12,5% no consolidado, passando de R$ 1,67 bilhão para R$ 1,46 bilhão. A medida mostra quanto sobra para o clube depois de pagar seus custos e despesas correntes.
O cálculo considera tanto as receitas produzidas pelos times de futebol com a venda de ingressos, por exemplo, quanto as negociações de atletas. Se fossem excluídas as receitas com venda de jogadores, a queda seria maior, passando de R$ 396 milhões positivos para R$ 155 milhões negativos.
Entre os clubes, o Flamengo é o que apresenta o maior Ebitda, de R$ 486 milhões, seguido por Corinthians, com R$ 271 milhões, e Palmeiras, com R$ 228 milhões. Na ponta oposta, o Botafogo teve resultado negativo de R$ 122 milhões e o Coritiba de R$ 48 milhões também negativos.
O levantamento, chamado de Relatório Convocados, mostra ainda que as receitas totais dos times da série A cresceram 22%, para R$ 8,8 bilhões. As receitas recorrentes, que desconsideram o que é obtido com negociação de atletas e outros eventos como o perdão de dívidas, cresceram 16,4% em 2023, chegando a R$ 7,21 bilhões.
O aumento da receita foi impulsionado pelo retorno do Bahia, do Cruzeiro, do Grêmio e do Vasco à série A em 2023. Como eles voltam à Série A, o bolo da receita aumenta. Eles têm importância porque são quatro clubes de grande relevância no cenário, considerando o tamanho da torcida e as receitas, que ficam na casa dos R$ 200 milhões”, diz o economista.
Os times com as maiores receitas em 2023 foram Flamengo, com R$ 1,34 bilhão, Corinthians, com R$ 932 milhões, Palmeiras, com R$ 829 milhões, e São Paulo, com R$ 681 milhões.
No consolidado, houve crescimento em todas as fontes de receitas, mas principalmente no conjunto bilheteria e programas de sócio-torcedor (aumento de 44%) e na categoria comercial (avanço de 31%).
“Em 2022 já havíamos notado um crescimento de bilheteria e sócio-torcedor em consequência da melhora da pandemia. Os torcedores tinham voltado aos estádios. Em 2023, vimos um envolvimento maior deles com o futebol. O efeito pós-pandemia criou um desejo de participar mais da vida dos clubes”, diz Grafietti.
Os custos e despesas avançaram 33,5% em 2023, para R$ 7 bilhões. Todos os clubes da série A apresentaram crescimento dos custos. Botafogo, Santos e Bahia puxam a fila dos maiores aumentos, enquanto Grêmio, Atlético MG, Flamengo, Palmeiras e Cuiabá tiveram as menores variações.
A dívida líquida cresceu em um ritmo mais lento do que as receitas, avançando pouco mais de 12%, de R$ 10,4 bilhões em 2022 para R$ 11,7 bilhões em 2023. O número inclui pela primeira vez a dívida da Neoquímica Arena, do Corinthians, de R$ 703 milhões. Desconsiderando essa dívida, o valor total seria de R$ 11 bilhões, aumento de 5,7% em relação a 2022.
A alavancagem, medida pela relação entre dívidas líquidas e receitas recorrentes (sem venda de jogadores), teve uma leve queda em 2023, passando de 176% para 162%, refletindo as maiores receitas.
O Botafogo conseguiu reduzir a alavancagem. Segundo o economista, a transformação do clube em SAF e o crescimento do faturamento foram importantes para essa redução. Esses fatores, no entanto, foram insuficientes para trazer o equilíbrio, como mostra o estudo. O time do Rio de Janeiro segue, assim como em 2022, com a maior alavancagem da série A, de 3,7 vezes.
O levantamento mostra ainda que 13% dos clubes têm algum modelo empresarial, como SAF (Sociedade Anônima do Futebol). Para Grafietti, em 2023 foi possível ver os primeiros efeitos positivos das SAFs na gestão dos clubes.
“A SAF do Bahia conseguiu pagar todas as suas dívidas. As do Botafogo e a do Cruzeiro conseguiram melhorar a situação financeira”, afirma. “Os clubes estavam em uma situação mais delicada e a entrada dos acionistas projetou até mesmo um aumento dos dividendos.”
Em outros casos, diz o economista, a melhora da gestão de publicidade ou comercial influenciou em maiores receitas. “Tudo isso é efeito de novos donos que olham o futebol como um negócio”, afirma.
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Fonte: Valor Econômico
