Rede tem reduzido estoques em lojas por conta da criminalidade, com Ozempic como alvo
1 de 1 Renato Raduan, presidente da Raia Drogasil, disse que rede está sentindo piora do consumo: “Há desaceleração. O crescimento estrutural está menor” — Foto: Nilani Goettems/Valor
Renato Raduan, presidente da Raia Drogasil, disse que rede está sentindo piora do consumo: “Há desaceleração. O crescimento estrutural está menor” — Foto: Nilani Goettems/Valor
A Raia Drogasil (RD Saúde) teve um começo de ano difícil, pior que o esperado pelo próprio comando, em parte por componentes como base de comparação alta e efeito calendário, mas a questão é mais complexa. Houve desaceleração nas vendas, com o consumo perdendo fôlego em certas categorias, e analistas vêem peso de um aumento de competição.
O grupo está avançando menos em praças “onde costumava crescer mais”, disse o presidente, Renato Raduan. A varejista decidiu entrar com um plano para tentar reverter esse cenário nos próximos meses.
Até mesmo o aumento de roubos em lojas, das canetas emagrecedoras (Ozempic e Wegovy) e outros itens, especialmente no Estado de São Paulo, entraram na conta, ao elevar o índice de perdas nas vendas em 0,3 ponto, e seu consequente impacto na margem bruta.
A empresa não informou o tamanho da perda, mas disse que “não dá para dormir tranquilamente com esse aumento”, segundo Raduan. É a primeira vez que a RD, maior varejista de farmácias do país, abriu ao mercado esse efeito nos números.
Ontem, após a teleconferência dos resultados do primeiro trimestre, a ação fechou em queda de 14,76%, a R$ 16,58, a maior queda do Ibovespa. A empresa perdeu R$ 5 bilhões em valor de mercado ao longo do pregão.
“Tivemos problemas de perdas como fruto de aumento de roubos, especialmente de Ozempic e outros, e sabemos que houve um aumento de criminalidade principalmente em São Paulo. Nordeste e Sul. Isso [roubos] é marginal, mas Sudeste é uma questão”, disse ele.
Foram tomadas medidas como redução de estoques de produtos com maior valor nas lojas, e colocar mais itens com risco maior de roubo nos balcões de acrílico, apesar do efeito negativo na hora da venda ao consumidor.
Ontem, analistas mencionaram em relatórios possível revisão de projeções no ano pelas casas de análise, mas com manutenção das estimativas de longo prazo, pela solidez histórica da empresa. A companhia manteve projeção de 330 a 350 aberturas no ano.
De janeiro a março, a receita bruta subiu 10,8% frente a 2024, para R$ 10,8 bilhões, abaixo da média de 14% para o período, com impacto de um dia a mais de vendas no ano passado (fevereiro com 29 dias em 2024) e pela forte venda de repelentes e testes nas lojas um ano atrás.
A margem bruta foi de 26,6%, queda de 0,6 pontos, o que a direção chamou de “vale” em sua rentabilidade histórica, normalmente acima de 27%. A venda de um portfólio de itens de menor rentabilidade e maiores investimentos em ofertas de forma cirúrgica explicam o recuo.
De janeiro a março, a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) caiu de 7% para 6%, mas a direção entende que esses 7% está “fora da curva”. Isso porque houve um dia a mais em fevereiro de 2024. De qualquer forma, de janeiro a março de 2023, o índice foi de 6,6%.
Mesmo com essas ponderações do efeito calendário e da base de comparação, o comando não se absteve de trazer para si a necessidade de “virar” esse desempenho. Raduan reconhece as pressões, mas diz que gestores “precisam procurar compensações” para equilibrar os números.
Um plano para voltar a acelerar venda, ampliar margens e reduzir custos está em implementação. Uma readequação de estrutura começou a ser implementada há alguns meses. Funcionários foram dispensados por conta de sobreposições, apurou o Valor.
A companhia já começou a destinar “investimentos para elevar competitividade”, ou seja, ser mais agressiva em preços pontualmente, a depender da loja e região.
Na área de perfumaria, as ações já têm dado resultado, o que sinaliza caminho acertado.
Também deve ser lançado calendário mais promocional robusto e a rede está buscando resgatar clientes pela reativação de ações para trazê-los mais para lojas.
A direção ainda mencionou ontem investimentos em praças com retorno maior e de busca de diminuição de perdas de estoque, o que pode ajudar a melhorar rentabilidade.
“Alguém acha que é popular ou legal fazer um ajuste de despesas com vendas, gerais e administrativas três meses após um novo ciclo? Mas sabemos que faz parte do longo prazo, fazer um investimento maior no curto prazo”, disse ele. A rede está num outro ciclo de projetos e investimentos, com Raduan no cargo desde janeiro.
A Raia e Drogasil sentiu uma piora do cenário de consumo, algo que já afetou, em 2025, supermercados, redes de moda e o varejo eletrônico. “Não é que há queda [de venda], há desaceleração. O crescimento estrutural nesses dois trimestres está menor, e isso está centrado em perfumaria e OTC [medicamentos sem receita]. Não queremos usar como justificativa porque precisamos recuperar crescimento nos históricos 14%”, disse.
Apesar dos esforços do comando, analistas reforçaram na teleconferência que o segundo trimestre não deve ser fácil. Isso porque, por exemplo, o reajuste de medicamentos autorizado pelo governo foi abaixo de outros anos, de 3,9%, além de também existir um novo efeito calendário negativo de abril a junho. Analistas ainda lembraram que os ajustes em andamento terão custos nas despesas para o segundo trimestre.
A rede citou, porém, que há um ambiente de preços com menos descontos no mercado, o que tende a ser favorável para margens, e há medidas já implementadas trazendo resultados. Além disso, trata-se de um setor resiliente, e dependente mais do envelhecimento da população do que de crédito e juros, como outros tipos de comércios.
Para o CEO, se o grupo reduzisse expansão, “óbvio que inflaria o resultado de ‘mesmas lojas’ hoje, mas afetaria crescimento em 2 ou 3 anos”, e a RD quer proteger crescimento futuro. A empresa disse que manterá plano de 330 a 350 aberturas ao ano.
Fonte: Valor Econômico