Por Richard Waters, Adrienne Klasa, Sylvia Pfeifer, Tom Wilson e Antoine Gara — Financial Times, de San Francisco, Paris, Londres e Nova York
03/01/2024 05h00 Atualizado há 6 horas
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O ano passado nos ensinou a nos a preocuparmos com chatbots inteligentes, e este ano descobriremos se a inteligência artificial (IA) está pronta para um uso muito mais amplo. O “Financial Times” examina esta e outras tendências que afetam as empresas, desde as prestadoras de serviços da área de defesa até as grandes dos setores de energia, artigos de luxo e fundos de investimentos (private equity).
Tecnologia
Se a maior história da área de tecnologia de 2023 foi a corrida para desenvolver sistemas de IA generativa capazes de simularem seres humanos na produção de textos e imagens, 2024 trará a prova de fogo para saber se a IA está pronta para ser adotada de maneira generalizada.
Empresas de consumo da internet, como o Google, já incorporam a nova IA a seus serviços gratuitos. Mas ainda não está claro se os consumidores também estarão dispostos a pagar mais para usar a inteligência artificial, e os primeiros indícios sugerem que a aceitação no mundo empresarial será lenta. Esses tipos de sistemas muitas vezes “alucinam” – inventam informações – ou produzem resultados erráticos, e muitas empresas estão apenas nas etapas iniciais de explorar seu uso para tornar seus funcionários mais produtivos. Depois de todas as expectativas e badalação, os atrasos na adoção da IA generativa em 2024 podem abalar seriamente a euforia do mercado de ações em relação à tecnologia.
O maior risco
Nos 13 anos desde que Bruxelas abriu sua primeira investigação sobre o Google por acusações de comportamento anticoncorrencial, as maiores empresas de tecnologia não sofreram muito com sanções antitruste, para além das punições financeiras com que podem arcar facilmente. Isso pode mudar em 2024, quando um juiz em Washington emitirá uma sentença em um processo histórico contra o Google e seu mecanismo de buscas, o que pode até abrir caminho para mudanças determinadas pelo tribunal na estrutura da empresa ou na forma como ela opera.
Ao mesmo tempo, a União Europeia dará os primeiros passos na aplicação da sua nova Lei de Mercados Digitais, projetada para romper o poder dos “gatekeepers” (grupos controladores) que dominam áreas cruciais da atividade digital. Para os consumidores, isto pode levar a mais possibilidades de escolha nos serviços digitais. Depois da grande alta nas ações de tecnologia em 2023, isso também representa um risco grave para os investidores.
O status da Apple como a empresa mais valiosa do mundo pode chegar ao fim
Pessoa para se acompanhar
Depois de sua chocante demissão e reintegração como executivo-chefe da OpenAI, a desenvolvedora do ChatGPT, Sam Altman estará ainda mais sob os holofotes em 2024 do que esteve em 2023. A comoção serviu para deixar clara a tensão desconfortável que existe no cerne do setor enquanto a OpenAI e suas rivais correm para desenvolver uma tecnologia que admitem que também pode causar danos graves.
Voltar ao comando depois de um motim de funcionários parece uma volta por cima poderosa para Altman e um sinal verde para que siga adiante. Mas um conselho de diretores novo e mais experiente buscará formas de resguardar a missão da empresa de colocar a segurança em primeiro lugar, e o comportamento passado de Altman está sob investigação a nível do conselho. Seu desafio será mostrar que tem um compromisso sério com a segurança sem afrouxar na corrida da inteligência artificial.
Qual seria a maior surpresa?
O status da Apple como a empresa mais valiosa do mundo – uma posição que mantém quase sem interrupções há mais de uma década – pode chegar ao fim em 2024. A fabricante do iPhone tem sido lenta em usar IA generativa para aprimorar seus serviços, o que aumenta a pressão para que ela revele mais sobre seus planos em seu evento anual para desenvolvedores, que normalmente ocorre em junho. Enquanto isso, a expectativa é que seu novo e mais importante dispositivo em anos, o “headset” Vision Pro, só seja vendido em pequenas quantidades quando chegar ao mercado este ano.
Em contraposição, a Microsoft, que vale 9% menos que a Apple, aproveita a onda da IA generativa graças à sua parceria inicial com a OpenAI. Se isto se traduzir em um aumento das vendas de software e em um estímulo para sua plataforma de computação em nuvem Azure, a Microsoft poderá dar um salto adiante e tornar-se a líder de capitalização de mercado do setor de tecnologia.
Fundos de investimento
Já faz muito tempo que os grupos de private equity, como a Blackstone, fazem propaganda de seus fundos como uma maneira de superar os mercados abertos. Mas eles mesmos são empresas abertas e alicerces das carteiras de acionistas comuns em todo o mundo.
Em setembro a Blackstone tornou-se o primeiro grupo de private equity a ser incluído no índice S&P 500 e seus rivais Apollo Global e KKR esperam estar perto disso. A aceitação dos grupos de private equity nos mercados abertos empurrou suas ações para altas recordes.
Essa perspectiva animadora é uma tentação para que outros grupos, como a CVC Capital, a General Atlantic e a L Catterton, sigam seu exemplo. A CVC deve ser a primeira a entrar de cabeça em 2024. Se sua chegada nas bolsas for bem recebida, pode instigar uma onda de ofertas públicas iniciais.
O maior risco
Boa parte do dinheiro despejado no setor chega na forma de prêmios de seguro de poupadores que buscam uma renda para sua aposentadoria, em vez de vir de sua fonte tradicional de investidores institucionais à procura de financiar aquisições de empresas.
As agências reguladoras começaram a se preocupar com essa tendência, da mesma forma que investidores privados experientes, como a JC Flowers. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), no fim de 2021 quase 10% – US$ 850 bilhões – dos ativos de seguros de vida dos Estados Unidos pertenciam ou eram geridos por empresas de private equity. Essa mudança significou um forte aumento dos ativos não líquidos detidos pelas seguradoras e o FMI apontou os perigos de “contágio” para o setor financeiro como um todo e para a economia real.
O escrutínio só aumentará, já que altas autoridades de Washington, como o senador Sherrod Brown, realizam investigações próprias.
Pessoa a se observar
Harvey Schwartz, ex-presidente do Goldman Sachs, assumiu o comando do Carlyle Group em fevereiro, e está diante do que muitos negociadores consideram uma tarefa brutalmente difícil.
Os três bilionários fundadores do Carlyle ajudaram a lançar o setor, mas um plano de sucessão mal feito, um desempenho medíocre e um ambiente difícil para levantar recursos puseram o grupo na defensiva.
Desde que assumiu o cargo, Schwartz restaurou os laços com investidores institucionais e começou uma reformulação operacional para melhorar as margens de lucro e reanimar o crescimento. Recentemente, o grupo cortou alguns negociadores e reduziu despesas.
É o tipo de trabalho pelo qual Schwartz ficou conhecido em suas décadas no Goldman Sachs. No entanto, ele terá de apresentar logo uma estratégia abrangente para o Carlyle e novos objetivos financeiros.
Qual seria a maior surpresa?
Os executivos de private equity insistem em que o setor está entrando em uma fase de consolidação, em que empresas menores são absorvidas por outras maiores e mais diversificadas.
Grupos como Apollo, Brookfield, CVC, TPG e General Atlantic acertaram recentemente aquisições de empresas de investimento privado e a BlackRock está à caça de fusões e aquisições. Mas outra onda de negociações sobre transações pode estar a caminho.
Companhias de seguros como Prudential, MetLife e Allianz podem se aprofundar em mercados alternativos, ao fechar parcerias de investimento com grandes grupos de capital privado, ou adquiri-los diretamente.
A LVMH, maior empresa de luxo do mundo, tem dinheiro para gastar neste ano
Luxo
O luxo perdeu parte do seu brilho em 2023. A indústria ainda está indo bem em comparação com muitas outras, graças à sua clientela abastada, mas algumas partes estão enfraquecendo à medida que o impulso de vendas de três anos causado pelo covid diminui. O culpado inicial foi os Estados Unidos, à medida que compradores da classe média apertaram os cintos.
E parece que será mais moderado em 2024 também, com analistas da Bain prevendo que o crescimento ficará entre 4% e 6%. A tendência nos últimos anos tem sido que as marcas mais fortes, como Hermès, Louis Vuitton e Chanel, se tornaram mais robustas, enquanto rivais menores têm enfrentado dificuldades. É esperado que essa polarização aumente em um mercado mais desafiador.
Ao mesmo tempo, quanto ao “luxo de experiência”, como viagens e hospitalidade, é esperado que cresça a uma taxa mais rápida do que bens de luxo, como bolsas e relógios.
Maior risco
Os rigorosos lockdowns do covid na China impactaram as vendas de produtos de luxo, e sua recuperação tem sido menos direta do que muitos esperavam. No entanto, ainda é o país cujo crescimento espera-se que impulsione o mercado global. A consultoria Bain espera que os compradores chineses representem cerca de 40% do mercado global de bens de luxo pessoais, que deve variar entre 540 bilhões e 580 bilhões de euros até 2030.
Se a bolha imobiliária do país estourar ou houver uma escalada adicional de tensões com o Ocidente, isso seria um golpe para a indústria. Os EUA podem ser o maior mercado de luxo, mas a China é seu motor de crescimento.
Pessoa para se observar
Bernard Arnault, o CEO da LVMH, é a figura mais influente na indústria por uma razão. Além de disputar com Elon Musk, da Tesla, pelo título de pessoa mais rica do mundo, a LVMH é de longe a maior empresa de luxo e é considerada referência para o setor.
Arnault é um operador meticuloso, mantendo um controle estrito sobre o funcionamento de seu império, que abrange cerca de 75 marcas, de hotéis a alta moda e joias. Ele ampliou os limites do que se pensava ser possível para o luxo, expandindo a Louis Vuitton para uma marca com receita de 20 bilhões de euros, algo que nunca havia sido feito antes em uma indústria historicamente baseada em exclusividade.
A empresa tem dinheiro para gastar. Com as avaliações sob pressão à medida que o setor se ajusta, será 2024 o ano em que Arnault fará seu próximo grande negócio?
Qual seria a maior surpresa?
Rumores circulam há anos sobre a LVMH ou a Kering tentando comprar o rival suíço Richemont. Além das outras marcas de joias e relógios da Richemont, como Van Cleef & Arpels, o grande prêmio seria a Cartier, que o Morgan Stanley estima ter vendas de cerca de 10 bilhões de euros por ano.
Johann Rupert, presidente e acionista controlador de 73 anos da Richemont, sempre afirmou que não é vendedor. Mas, com o passar dos anos e nenhum sucessor escolhido, pode ser apenas uma questão de tempo. (Adrienne Klasa, de Paris)
Defesa
Os drones de baixo custo tornaram-se um elemento central no campo de batalha na Ucrânia, destacando o papel crescente de novas tecnologias autônomas na guerra moderna.
Essa mudança tem implicações profundas para os departamentos de defesa governamentais, que precisam evoluir suas estratégias de aquisição, muitas vezes lentas, de uma dependência de hardware, como tanques e navios, para investimentos em sistemas mais ágeis, como robótica e sensores controlados por IA.
Para a indústria, as grandes empreiteiras que dominaram por décadas precisam acompanhar os avanços rápidos feitos por rivais menores liderados por tecnologia. O próximo ano e além testarão sua capacidade de inovação à medida que os governos procuram cada vez mais além dos fornecedores tradicionais.
Maior risco
O conflito na Ucrânia e a tensão no leste da Ásia impulsionaram os gastos com defesa em todo o mundo: os gastos militares globais aumentaram 3,7% em termos reais em 2022, atingindo um novo recorde de US$ 2,2 bilhões, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo. Os gastos militares na Europa tiveram seu maior aumento ano a ano em pelo menos 30 anos.
As promessas de orçamentos de defesa mais altos impulsionaram os preços das ações das empresas e levaram as carteiras de pedidos firmes a novos recordes, mas há o risco de que nem todo o financiamento seja garantido, à medida que os governos lidam com outras prioridades orçamentárias.
Na Europa, em particular, o conflito na Ucrânia incentivou os governos a cumprir promessas anteriores de fortalecer a posição da região como uma potência militar global coesa.
Apesar de alguns progressos, muitos dos mesmos desafios permanecem: tomada de decisões fragmentada, rivalidades nacionais que minam iniciativas conjuntas de aquisição e decisões de aquisição em favor de equipamentos dos EUA. A indústria ainda não convenceu os governos de que a defesa não é apenas uma apólice de seguro em tempos de guerra.
Pessoa para se acompanhar
Se Donald Trump vencer as eleições presidenciais dos EUA em novembro, isso poderia ” alterar completamente todo o curso que vimos nos últimos dois anos”, disse Byron Callan, do grupo de pesquisa Capital Alpha Partners.
Trump disse que, se fosse reeleito, os EUA reconsiderariam “o propósito e a missão da OTAN”. A pressão também poderia aumentar sobre a Europa para aumentar seu financiamento para armas para a Ucrânia se os EUA reduzirem o apoio.
Qual seria a maior surpresa?
Apesar do papel crescente de empresas lideradas por tecnologia na indústria, ela permaneceu relativamente inalterada até agora. Ainda não há um disruptor nos moldes do Tesla, de Elon Musk, na fabricação de automóveis.
Com muitos apoiadores de startups do Vale do Silício pressionando por um papel maior nos programas de aquisição de defesa do Pentágono, isso pode mudar se um deles ganhar um grande contrato.
Energia
O cartel de petróleo Opep+ passou o ano reduzindo a produção em uma tentativa cada vez mais tensa de impulsionar os preços. Após reduzir a produção em 2 milhões de barris por dia em outubro de 2022, equivalente a 2% do consumo global, a Arábia Saudita liderou uma sucessão de cortes em 2023. No total, o grupo agora produzirá quase 6 milhões de barris por dia a menos do que poderia no primeiro trimestre de 2024.
Ao mesmo tempo, a produção crescente nos EUA fez com que a participação de mercado da Opep+ caísse para apenas 51%, de acordo com a Agência Internacional de Energia, o menor índice desde a formação do cartel expandido em 2016. E apesar dos cortes, os preços do petróleo ainda estão abaixo de US$ 80 por barril, em comparação com quase US$ 100 em setembro. Dado que a produção de membros não pertencentes à Opep+ deve continuar a aumentar, fica a questão de quanto tempo a Arábia Saudita e seus aliados podem continuar cedendo participação de mercado.
Maior risco
A inflação e as altas taxas de juros aumentaram os custos dos projetos de energia renovável em 2023, prejudicando os esforços para afastar o sistema global de energia dos combustíveis fósseis.
Se as taxas permanecerem altas, como alguns economistas acreditam, pode ser outro ano decepcionante para os projetos de energia limpa, justamente quando o mundo precisa que a transição energética ganhe ritmo. A indústria de energia eólica offshore enfrenta desafios particularmente agudos. O líder do setor, a Ørsted, foi uma das várias empresas a fazer grandes baixas em seu portfólio em 2023.
Pessoa para se observar
O CEO da BP: quem quer que seja. Murray Auchincloss, o chefe interino, assumiu o cargo em setembro depois que Bernard Looney renunciou por não divulgar relacionamentos passados ao conselho. A busca por um substituto permanente está demorando mais do que muitos esperavam. Auchincloss, que anteriormente atuou como diretor financeiro, é bem visto pelos investidores e considerado pelos funcionários atuais e antigos como o favorito interno. A BP também está considerando contratar um CEO de fora da empresa pela primeira vez.
No final, se escolher um candidato interno ou externo, isso poderá determinar se a gigante de energia de 114 anos permanece com o plano de transformação verde liderado por Looney.
Qual seria a maior surpresa?
A indústria de petróleo dos EUA passou os últimos três meses se consolidando, com ExxonMobil, Chevron e Occidental lançando todos meganegócios bilionários para rivais menores. A onda de aquisições levou à especulação sobre fusões europeias e, especificamente, se a Shell poderia comprar a BP. Uma fusão das duas maiores empresas de energia do Reino Unido é algo que a Shell periodicamente revisa há anos. Com 166 bilhões de libras esterlinas, a capitalização de mercado da Shell é o dobro da da BP. O CEO da Shell, Wael Sawan, disse que grandes aquisições não eram uma prioridade até 2025, então qualquer movimento no próximo ano seria uma grande surpresa. (Tradução de Samara Leonel e Lilian Carmona)
Fonte: Valor Econômico


