Por Marcelo Osakabe — De São Paulo
07/04/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
A recente onda de pressões globais sobre os preços e, internamente, o aquecimento do setor de não comercializáveis seguem levando analistas econômicos a rever para cima suas projeções para a inflação no país para 2022 e 2023.
Em relatório publicado ontem, o Citi elevou sua estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no fim deste ano de 6,7% para 7,6%. “As pressões sobre os preços se mostram mais persistentes que o esperado, o que piora a perspectiva de médio prazo através do canal inercial”, escrevem os economistas Paulo Lopes, Leonardo Porto e Thais Ortega.
A equipe do Citi pondera que, mesmo levando em conta a valorização do real desde o início do ano, o resultado líquido sobre a dinâmica inflacionária acaba sendo altista, em meio a questões como a guerra entre Rússia e Ucrânia e a escalada das restrições relacionadas à covid na Ásia.
Com a leitura mais alta neste ano, a projeção para o fim de 2023 também subiu, de 3,3% para 3,9%. Esta é a primeira vez, ressaltam os economistas, que a o número fica acima do centro da meta de 3,25% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para 2023.
“Ancorávamos nossa projeção presumindo que o Comitê Monetário Nacional iria levar a Selic onde fosse necessário para o entregar a inflação no centro da meta. Esta percepção enfraqueceu desde que o Copom demonstrou intenção de interromper o ciclo de aperto em 12,75%, apesar do processo corrente de desancoragem das expectativas”, diz o relatório.
No Santander Asset, a projeção para o IPCA em 2022 subiu de 6,5% para 7%. Em sua carta mensal de abril, a casa cita fatores como custos represados das empresas, bem como uma perspectiva de inflação mais alta no exterior também.
Dificuldades ainda encontradas em relação às cadeias produtivas globais e a alta das commodities, influenciada pela guerra na Ucrânia, também manterão pressionado o Federal Reserve, diz o texto.
A gestora entende que o Copom será obrigado a ir além dos 12,75% sinalizados em sua última comunicação. “Acreditamos que o BC será compelido a estender o ciclo até junho, com uma alta de 0,5% para 13,25%.”
Os economistas do Citi e do Santander Asset não foram encontrados até a conclusão desta edição para comentar se as revisões já contemplavam a redução nas tarifas de energia anunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro a partir do próximo dia 16. Contudo, em conversas recentes com o Valor, economistas das duas instituições e de outras já previam o fim da bandeira de escassez hídrica entre abril e maio.
No início do mês, o Bradesco já havia divulgado sua novas estimativas para o IPCA, que passou 6% para 6,9% neste ano e de 3,5% para 3,9% em 2023. Os economistas do banco entendem que a guerra entre Rússia e Ucrânia traz efeitos ambíguos para a economia brasileira. Haverá mais inflação, mas também um impulso adicional ao crescimento este ano – a projeção para o PIB subiu de 0,5% para 1,0%.
O conflito impulsiona os termos de troca e favorece a apreciação do real, causando uma melhora das contas públicas e menor aversão ao risco. Por outro lado, também leva a uma maior inflação em todo o mundo, ao pressionar preços de commodities e prejudicar a normalização das cadeias produtivas globais, diz o relatório do banco. (Colaborou Rafael Vazquez)
Fonte: Valor Econômico