Renovação e esperança costumam ser termos associados à chegada de um novo ano. No cenário econômico, porém, é a palavra continuidade que conduz as expectativas para 2026 — ainda que se trate de um ano eleitoral e do aguardado (e já sinalizado pelo Banco Central) ciclo de corte de juros.
Em entrevista à Forbes Brasil, Fernando Machado Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco, afirma que os próximos meses tendem a reproduzir a dinâmica observada em 2025 — com fluxo de capital estrangeiro em “fuga” de ativos ligados ao dólar, um caminho relativamente previsível para a política monetária e uma economia doméstica ainda sustentada pelo consumo, após o forte estímulo fiscal dos últimos anos.
A clássica volatilidade pré-eleição, que costuma tomar conta dos mercados, deve ficar concentrada no momento em que os candidatos ao pleito estiverem definidos — o que deve ocorrer apenas em julho. Nem mesmo o cenário fiscal, que dominou a pauta econômica recente, deve trazer grandes sustos no curto prazo.
“Surpresas sempre podem acontecer do lado fiscal, mas acho que haverá um certo grau de dormência sobre esse tema. A proporção dívida/PIB cresceu muito nos últimos anos. 2027 tem potencial de ser um ano diferente, porque será o momento de discutir esses ajustes. No pós-eleição, as primeiras declarações sobre o tema fiscal devem fazer preço no mercado”, afirma.
Sem a pressão imediata do grande elefante na sala, o cenário-base é de continuidade, com ajustes marginais para refletir a desaceleração da atividade. Para Gonçalves, crescimento do PIB, taxa de desemprego e inflação devem registrar números semelhantes aos de 2025, enquanto a Selic deve iniciar um ciclo de queda em março e caminhar para um nível terminal de 12,75% — acima dos 12,25% projetados pela pesquisa Focus.
No plano doméstico, a semelhança entre 2025 e 2026 fica ainda mais evidente no mercado de trabalho. A taxa de desemprego segue surpreendendo e, segundo o economista, há indícios de que o nível de equilíbrio esteja estruturalmente mais baixo. “Já dá para dizer que em 2026 essa tendência continua”, afirma.
O resultado é uma economia que segue “voando com o motor do consumo ligado”, impulsionada por estímulos diretos à renda, como a antecipação de precatórios, reajustes reais do salário mínimo, ampliação de programas sociais e, mais recentemente, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
A principal variável fora da curva — e também a mais difícil de antecipar — segue sendo o cenário externo. Assim como ocorreu em 2025, o dólar vem sofrendo perdas sucessivas para ativos como ouro, prata e moedas de países emergentes diante da crise de confiança nos EUA e problemas geopolíticos. Só em janeiro, investidores estrangeiros injetaram R$ 23 bilhões na B3, o equivalente a cerca de 90% de todo o fluxo registrado ao longo de 2025.
A leitura de Gonçalves é que o enfraquecimento recente do dólar não é pontual, mas parte de um movimento mais amplo de redução de exposição aos Estados Unidos. A América Latina voltou ao radar dos investidores globais, com o Brasil se beneficiando da percepção de estabilidade política relativa e de sua elevada liquidez.
“A porta de saída dos Estados Unidos é muito grande; a porta de entrada das outras economias é pequena. Qualquer fluxo que vem para cá tem impacto des…
Confira os principais trechos da entrevista entre o Itaú Unibanco e a Forbes Brasil. As respostas foram editadas para maior coesão, fluidez e síntese.
Forbes Money: Para traçarmos o cenário de 2026, é importante entender o que foi ou não conforme o esperado no ano anterior. O que surpreendeu em 2025 e como isso impacta as projeções para este ano?
Fernando Machado Gonçalves: O primeiro ponto de surpresa foi o câmbio. No fim de 2024, ele estava em patamares muito elevados, próximo de R$ 6,20. Quando 2025 começou, havia uma expectativa de crescimento nos Estados Unidos e de que o câmbio no Brasil terminasse um pouco mais baixo, talvez abaixo de R$ 6, mas não era um cenário de revalorização do real do tamanho do que acabou acontecendo.
Isso foi muito produto de uma mudança de avaliação em relação à economia americana, de preocupações com tarifas e também de mudanças geopolíticas, envolvendo países ligados à China e à Rússia. Esse conjunto acabou gerando menos entrada — e, em alguns momentos, até saída — de fluxos para os Estados Unidos ao longo do ano. Foi uma surpresa importante e ajudou o cenário inflacionário local.
O segundo ponto relevante foi o mercado de trabalho doméstico. A taxa de desemprego seguiu caindo e surpreendeu para baixo, o que sugere que o nível de equilíbrio do desemprego no Brasil hoje pode ser bastante baixo. Há várias explicações possíveis para isso, desde uma economia muito estimulada pelo lado fiscal, crescendo acima do potencial, até a maior presença de plataformas digitais e o aumento da participação das transferências fiscais na renda das famílias.
Quando olhamos para 2026, o cenário que se desenha é de continuidade. Em 2025, acreditamos que o Brasil cresceu cerca de 2,3%. Para 2026, projetamos um crescimento de 1,9%, mas com viés de alta. Há mais chances de revisão para cima do que para baixo, porque o ano deve seguir refletindo os estímulos fiscais.
Temos uma economia que segue bastante estimulada por medidas que aumentam a renda disponível. Em 2024 e 2025, vimos antecipação de precatórios, aumento real do salário mínimo, crescimento do número de beneficiários de programas sociais e tarifa social de energia. Para 2026, entra também a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Tudo isso coloca mais dinheiro no bolso das pessoas e sustenta o consumo.
Como essa combinação de desemprego baixo e consumo aquecido impacta a inflação e a condução da política monetária?
Gonçalves: Uma taxa de desemprego baixa acaba promovendo pressões salariais, e isso impacta a inflação, especialmente nos setores mais intensivos em mão de obra. O principal deles é serviços. Por isso, projetamos uma inflação de serviços ainda bastante carregada, em torno de 5,5%. Em 2025, ela ficou próxima de 6%.
Como o segmento representa cerca de 35% do IPCA, isso cria uma dificuldade relevante para trazer a inflação para baixo enquanto não houver uma moderação maior no mercado de trabalho — e esse processo ainda não começou.
Com isso, o Banco Central tem espaço para começar a cortar juros. A nossa leitura é de que isso deve ocorrer a partir de março. O ritmo, no entanto, t…
A economia desacelera na margem, o que permite algum corte, mas segue sendo impulsionada pela política fiscal, o que limita até onde a política monetária consegue ir. É um cenário em que fiscal e monetário acabam puxando em direções opostas.
Essa aparente tranquilidade do mercado, mesmo em ano eleitoral, se deve à atuação do Banco Central nos últimos anos?
Gonçalves: Eu diria que o Banco Central tem feito um bom trabalho e readquiriu credibilidade. Quando olhamos as expectativas longas da pesquisa Focus, elas são uma boa métrica disso, porque refletem o que os analistas acreditam que o Banco Central está mirando para a inflação no longo prazo. Essas expectativas hoje estão em níveis semelhantes aos observados anteriormente.
Além disso, a inflação implícita nos títulos negociados no mercado chegou a níveis muito altos e depois cedeu. Isso também é um sinal de credibilidade da política monetária. O que não aconteceu foi uma recuperação da credibilidade fiscal, e isso aparece no comportamento do real.
Sobre a eleição, a volatilidade tende a surgir mais para a frente, quando os candidatos são definidos, geralmente a partir de abril. Historicamente, o prêmio de risco sobe em maio e junho, depois cede um pouco e volta a aumentar mais próximo da eleição. Sendo uma disputa apertada, qualquer oscilação nas pesquisas tende a gerar volatilidade.
Fala-se muito em um “novo normal” de juros reais mais altos no mundo. O que impulsiona esse fenômeno?
Gonçalves: Acredito que os juros de equilíbrio subiram globalmente. Há uma grande busca por recursos no mundo, tanto por governos muito endividados quanto pelo setor privado. O tema da inteligência artificial é importante nesse contexto. A IA não é apenas software; ela demanda investimentos pesados em geração de energia, data centers e infraestrutura. Está mais próxima de uma usina do que de um programa de computador.
Essa demanda por recursos pressiona o custo do capital e tende a manter os juros em níveis mais elevados. Em um segundo momento, tudo vai depender do ganho de produtividade que essa tecnologia pode gerar. Se houver um aumento relevante de produtividade, isso pode aliviar pressões inflacionárias. Mas, no curto prazo, a força dominante é a da demanda por capital.
Diante desse panorama macroeconômico, que papel o Brasil desempenha na atração do investidor estrangeiro?
Gonçalves: Em geral, a visão externa é mais positiva do que a percepção doméstica. O estrangeiro compara o Brasil com outras regiões e não vê o endividamento como algo tão fora da curva. Além disso, o país tem vantagens importantes: energia limpa, potencial no mercado de carbono, um agronegócio forte e uma economia grande, politicamente relativamente estável.
Existe ainda um fator técnico relevante. A porta de saída dos Estados Unidos é muito grande, enquanto a porta de entrada das outras economias, inclusi…
Fonte: Forbes Brasil


