Por Sam Fleming, Martin Arnold e Colby Smith — Financial Times
06/11/2023 05h03 · Atualizado há 5 hora
Os presidentes dos bancos centrais dos países-membros da zona do euro, que compõem o conselho diretor do Banco Central Europeu (BCE), usufruíram de uma saída noturna, que incluiu dançar a música-tema do filme “Zorba, o Grego”, na semana passada em Atenas, e concordaram por unanimidade deixar de elevar as taxas de juros pela primeira vez em 15 meses.
Os responsáveis por fixar as taxas de juros podem ser desculpados por relaxar e se divertir após a reunião surpreendentemente harmoniosa que realizaram. Mesmo os membros mais linha-dura do conselho do BCE concordaram com a decisão de renunciar a mais um aumento dos custos das tomadas de empréstimos, após a grande queda da inflação observada na área da moeda única.
“Foi a discussão mais tranquila que tivemos em vários meses”, recorda Yannis Stournaras, presidente do banco central da Grécia, que foi o anfitrião da reunião da semana passada. “Está muito evidente que endurecemos a política monetária o suficiente.”
O BCE não estava sozinho em optar por uma pausa nas altas. O Federal Reserve (Fed), o Banco do Canadá e o Banco da Inglaterra mantiveram a política monetária inalterada nos últimos dias, juntando-se assim a bancos centrais que vão desde o da República Checa até o da Nova Zelândia. Os BCs de alguns mercados emergentes, entre eles os de Brasil e Polônia, têm realizado cortes seguidos.
A interrupção do ciclo de elevação das taxas de juros gerou uma onda de otimismo entre os investidores no mercado de bônus, diante da possibilidade de as principais economias estarem próximas de vencer a escalada da inflação, após o crescimento dos preços ao consumidor ter recuado para níveis inferiores à metade de seus patamares de pico em economias como a dos EUA e da zona do euro. Jari Stehn, economista-chefe do Goldman Sachs para a Europa, disse haver “crescente opinião de que o problema da inflação está sob controle agora – e, eu diria, trata-se de uma opinião correta”.
Mas esse clima de comemoração estava visivelmente ausente entre os próprios presidentes dos bancos centrais – se for desconsiderada a folia em Atenas. Nos últimos dias a presidente do BCE, Christine Lagarde, Jerome Powell, do Fed, e Andrew Bailey, do Banco da Inglaterra (BoE), continuaram a insistir que novas elevações dos juros seguem sendo passíveis de discussão apesar dos sinais de que a inflação dos preços ao consumidor está diminuindo.
Isso reflete em parte um desejo de resistir aos investidores que poderiam, de outra forma, empurrar para baixo os rendimentos e afrouxar as condições financeiras, minando assim a campanha de combate ao aumento dos preços. Reflete também uma incerteza sincera sobre se os recentes dados marcam ou não um ponto de inflexão conclusivo, principalmente em vista das falhas passadas de previsão dos bancos centrais e dos temores de que a volatilidade do ambiente geopolítico possa gerar novos choques de preços.
Joseph Gagnon, um ex-alto membro do Fed que atua no momento no Instituto Peterson de Economia Internacional, diz que os BCs passam atualmente por um “ponto de inflexão”, e que este é um ponto de confiança mínima – e não máxima – nas perspectivas.
“Quando você sabe que ficou para trás e que é melhor que eleve os juros rapidamente para alcançar os demais, tem muita confiança de que está fazendo a coisa certa”, diz ele. “Mas depois, quando se aproxima do ponto em que acha que pode ter feito o suficiente, é quando você tem menos certeza quanto à próxima medida [a tomar]. É aí que eles estão.”
A cautela é compreensível após os presidentes dos BCs terem sido tão violentamente surpreendidos pela inflação dois anos atrás. A rápida recuperação dos gastos do consumidor depois dos “lockdowns”, associada aos efeitos duradouros dos episódios de escassez da cadeia de suprimentos, os enormes estímulos fiscais dos EUA e os choques dos preços da energia resultantes da guerra na Ucrânia foram todos fatores que ajudaram a inflamar a pior irrupção de inflação de décadas entre as grandes economias.
Foi um surto que os bancos centrais demoraram a reconhecer, até perceberem que poderia afastar as expectativas de inflação da estimada meta de 2%. Os formuladores de políticas de Fed, BCE, BoE e outros bancos centrais embarcaram em uma frenética sucessão de aumentos das taxas de juros iniciada há dois anos e que deixou os custos dos empréstimos na Europa e nos EUA em seus níveis mais altos desde antes da crise financeira.
Nos EUA, a série brutal de aumentos dos juros ajudou a reduzir a inflação do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) para 3,7%, bem abaixo de um pico que se aproximou dos 10%. Mesmo assim, o Fed ainda lida com uma economia surpreendentemente aquecida, que registrou um crescimento anualizado de 4,9% no trimestre mais recente. Apesar dos preços mais altos e da redução das reservas de poupança, os gastos do consumidor ainda não caíram significativamente. Isso se deve em grande parte a um mercado de trabalho vigoroso, embora um relatório mais fraco que o esperado sobre o nível de emprego em outubro sugira que alguma moderação está por vir.
De quanto sofrimento no mercado de trabalho precisaremos para fazer a inflação realmente cair?” — Tiffany Wilding
Em uma entrevista coletiva na semana passada, após a decisão do Fed de não aumentar as taxas de juros pela segunda reunião seguida, Powell foi inflexível ao afirmar que não fechou a porta a um maior aperto monetário. “Não temos confiança neste momento de que alcançamos um equilíbrio”, disse ele em resposta a uma pergunta sobre se as taxas de juros estão agora suficientemente restritivas.
No entanto, Powell não avisou os mercados de que um eventual aperto é iminente, levando investidores a tirarem suas próprias conclusões, à medida que eles passam a especular sobre quão cedo os cortes nos juros poderão ocorrer.
Powell insistiu que o Fed nem sequer cogita a ideia de quando cortar as taxas. Mas os aumentos nos juros de longo prazo nas últimas semanas, motivados por fatores que incluem as preocupações com os elevados empréstimos governamentais, ajudaram a apertar significativamente as condições financeiras, reforçando a ideia de que o Fed poderá ficar parado por enquanto.
Bastante criticado por ter sido muito lento em reagir ao maior aumento da inflação em uma geração, no ano passado, o BCE – assim como o Fed – está muito relutante em declarar prematuramente uma vitória contra a inflação. “A última coisa que o BCE quer é cometer o mesmo erro de subestimar a inflação pela segunda vez em dois anos”, diz Frederik Ducrozet, chefe de análises macroeconômicas da Pictet Wealth Management.
Mas o argumento de que os juros europeus atingiram seu pico é, na verdade, ainda mais forte do que nos EUA. A economia da zona do euro contraiu 0,1% no terceiro trimestre, enquanto a inflação no bloco da moeda única também caiu abaixo de 3% pela primeira vez em mais de dois anos.
A discussão do mercado agora está centrada não na possibilidade de novos aumentos, e sim quão logo o primeiro corte do BCE vai acontecer. Economistas acreditam que os responsáveis pela política monetária esperarão por evidências de que a inflação foi contida, antes de reduzirem os juros. Isso poderá depender de os acordos salariais coletivos com os sindicatos no segundo trimestre de 2024 mostrarem flexibilização do aumento dos salários – passo fundamental para reduzir o núcleo da inflação, que exclui os preços da energia e dos alimentos, de seu patamar atual de 4,3%. Se a inflação geral da zona do euro se mantiver abaixo dos 3% de forma sustentável, Stournaras admite que um corte nos juros poderá ocorrer “na metade do ano que vem”.
Para o Banco da Inglaterra, o dilema à frente é mais incômodo. O banco reduziu suas perspectivas para o PIB e a oferta no Reino Unido em suas previsões para novembro, divulgadas na quinta-feira, quando manteve as taxas de juros em 5,25%, alertando que as pressões salariais permanecem mais resistentes do que ele esperava e que o desemprego poderá ter de aumentar mais do que o esperado para derrubar os preços.
A perspectiva do BoE é sombria, pressagiando uma estagnação do crescimento, juntamente com uma inflação acima da meta até o fim de 2025. Bailey disse que seu comitê de juros se reserva o direito de aumentar novamente as taxas se isso for necessário, mas muitos investidores veem um novo aumento como altamente improvável dada a fraqueza da economia e os sinais de um esfriamento do mercado de trabalho.
Tiffany Wilding, diretora-geral da Pimco, diz que embora as principais tendências inflacionárias na Europa estejam um ou dois quartos atrás das dos EUA, as economias caminham agora para a direção certa nos dois lados do Atlântico. De quanto sofrimento no mercado de trabalho é preciso para realmente fazer a inflação voltar a cair?
Mas ela acrescenta que isso não significa necessariamente que eles estejam totalmente fora de perigo, em parte porque os principais motivos para a queda da inflação são “o desaparecimento dos efeitos relacionados à pandemia” – por exemplo, o fim as interrupções nas cadeias de abastecimento e a redução dos efeitos favoráveis da política fiscal.
“O que deixa os bancos centrais ainda um pouco preocupados é que, uma vez que essas distorções na inflação relacionadas à pandemia desaparecerem, onde estará a tendência latente da inflação?”, pergunta ela. “De quanto sofrimento no mercado de trabalho precisaremos para fazer a inflação realmente cair?”
“Não creio que nenhum deles esteja preparado para levantar a bandeira que diz ‘missão cumprida’”, afirma Seth Carpenter, que já trabalhou no Departamento do Tesouro dos EUA e no Fed, e hoje está no Morgan Stanley.
“Acho que os últimos dois anos e meio mostraram o quanto pode ser difícil fazer previsões e penso que há uma dose suficiente e apropriada de humildade dos banqueiros centrais sobre como é difícil saber com certeza para onde as coisas caminham.”
Fonte: FT / Valor Econômico


