26/02/2024 05h02 Atualizado há 5 horas
A atividade brasileira deve ter conseguido evitar, outra vez, uma queda trimestral em 2023, em um tom mais otimista que marcou o Produto Interno Bruto (PIB) ao longo de boa parte do ano passado e que começa a transbordar também para 2024.
Se o PIB não deve ter caído no quarto trimestre de 2023, tampouco deve apresentar crescimento expressivo. A projeção mediana de 66 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor indica ligeira alta de 0,1% ante o terceiro trimestre, o que costuma ser considerado estabilidade pelo IBGE. Os dados oficiais serão divulgados pelo instituto na sexta-feira, 1º.
“O PIB do quarto trimestre teve uma dinâmica curiosa. Outubro veio mais fraco, mas novembro e dezembro tiveram desempenho muito positivo”, diz Daniela Lima, economista da Kinea.
Apenas uma casa vê a possibilidade de uma contração mais forte, de dois dígitos (2,2%), no quarto trimestre de 2023. Fora isso, as projeções variam de queda de 0,4% a crescimento de 0,5%.
Em relação ao quarto trimestre de 2022, a expectativa mediana é de crescimento de 2,2%, similar ao 2% observado no terceiro trimestre de 2023.
Se não houver revisão da série e a projeção de 0,1% for confirmada, o PIB do quarto trimestre repetirá o desempenho do terceiro, quando acabou surpreendendo diante da expectativa de queda de 0,2%.
Com isso, a mediana das projeções indica que o Brasil terá crescido 3% em 2023, mesma taxa observada no ano anterior. As projeções para o ano variam de 2,6% a 3,4%. Para 2024, a expectativa é de crescimento mediano de 1,7%, com variação de 0,7% a 2,6%.
“Desde 2020, nos últimos quatro anos, a expectativa de PIB começou fraca, com estimativas de condições financeiras mais apertadas, apontando para desaceleração de crescimento econômico, e tivemos surpresas positivas”, observa Guilherme Loureiro, economista-chefe da Trafalgar Investimentos. “Isso aconteceu, de certa forma, também no terceiro e quarto trimestres de 2023, para o qual as variações estimadas eram inicialmente mais no campo negativo, na comparação com os três meses anteriores, mas, à medida que foram saindo os dados de atividade, isso foi ajustado”, diz o economista, que tem projeção para o PIB do quarto trimestre de 2023 em linha com a mediana.
Do lado da oferta, a mediana da pesquisa mostra que a indústria deve voltar a acelerar ligeiramente, de 0,6% no terceiro trimestre para 0,7% no quarto, após crescer 0,9% no segundo trimestre, sempre em relação aos três meses imediatamente anteriores.
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Os serviços mostraram resiliência maior do que o esperado no quarto trimestre, mas, ainda assim, devem desacelerar para 0,3%, de 0,6% no terceiro.
A agropecuária, por sua vez, continuará devolvendo os aumentos expressivos do primeiro semestre de 2023, com queda de 3,3% no terceiro trimestre e, agora, expectativa de contração de 1,7%.
É essa “devolução” do agro que faz a Kinea ainda ver possibilidade de queda de 0,2% do PIB no quarto trimestre, ante o terceiro. Ainda assim, a economista Daniela Lima diz que a casa mantém uma visão construtiva para o PIB. “A indústria deve crescer, puxada pelo segmento extrativo. E os serviços também tiveram bom desempenho, só não devem crescer mais por causa de serviços de transporte, por exemplo, que são ligados ao agro”, afirma.
Para Nelson Rocha Augusto, presidente e economista-chefe do BRP, diversos indicadores – taxa de ocupação de hotéis, volume de passageiros em transportes aéreos e rodoviários, vendas de combustíveis e de supermercados e consumo de energia, por exemplo – apontam uma atividade até mais forte do que a mediana esperada pelo mercado. Ele projeta alta de 0,5% para o PIB no quarto trimestre de 2023, ante o terceiro.
“Enxergamos uma diferença positiva um pouco mais expressiva, em relação aos colegas, nos serviços. Ao mesmo tempo, também não esperamos uma contração tão expressiva no agro, porque as quedas de produção foram aparecendo mais depois de dezembro”, afirma Rocha.
Pelo lado da demanda, o consumo das famílias deve ter desacelerado bastante no fim do ano, mas ainda se destaca. Pela mediana, deve subir 0,3% no quarto trimestre, após altas trimestrais ao redor de 1% ao longo de 2023.
“Devemos passar a ver, a partir do quarto trimestre, efeitos de demanda global mais fraca” — Maurício Une
“Começamos a ver, em meados do ano passado, que aquela pisada no freio dos bancos estava tendo impacto na melhora da inadimplência e em um crédito novo vindo com qualidade melhor. Por isso, já esperávamos um desempenho melhor de setores ligados ao crédito no último trimestre de 2023, em serviços e consumo das famílias, o que acabou acontecendo”, diz Lima.
Para o comportamento do consumo do governo no quarto trimestre, ante o terceiro, é esperado um crescimento de 0,2% pela mediana dos economistas.
Já a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida para os investimentos no PIB, deve registrar contração de 0,1% nos três últimos meses de 2023, fechando, assim, um ano com todos os trimestres em queda.
“Há certa suavização da demanda interna, que ainda é suportada por aumento de salário mínimo e do Bolsa Família, mantendo certo impulso do crescimento, mas sob efeitos defasados da política monetária na ponta”, diz Maurício Une, economista-chefe do Rabobank Brasil, que também espera leve contração, de 0,1%, do PIB no quarto trimestre de 2023, ante o terceiro.
Para o setor externo, a estimativa mediana é que exportações e importações cresçam na mesma magnitude, de 0,7%. “Devemos passar a ver, a partir do quarto trimestre, efeitos de demanda global mais fraca”, diz Une.
O fim de 2023 não reflete bem a realidade total da agropecuária, que deve ter fechado o ano com alta de 16%, segundo a mediana da pesquisa, impulsionando o PIB pelo lado da oferta.
“O crescimento da atividade agrícola deve ter respondido por quase um terço do aumento agregado de 3% do PIB estimado para o ano. O agro teve desempenho fora da curva e acabou influenciando outros setores da economia”, diz Loureiro. Na mediana, os serviços devem subir 2,4% em 2023, e a indústria, 1,4%.
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O consumo das famílias é o destaque do ano passado pelo lado da demanda, com alta esperada de 3,2%. “As políticas de renda ajudaram a dar um piso para o consumo e serviços”, diz Une. Pela mediana das projeções coletadas, o consumo do governo deve subir 1,4%, enquanto a FBCF amargaria queda de 3,2%.
O setor externo deve dar uma contribuição bastante positiva para o PIB de 2023, com as exportações crescendo 9,3% e as importações caindo 1,2%. As importações, nota Une, vêm acompanhando a FBCF.
Olhando à frente, Une aponta a diferença de magnitude da herança estatística entre os anos. O chamado “carry-over” de 2023 para 2024, considerando as projeções do banco, seria de 0,2%. O de 2023, ao fim de 2022, foi de 0,8%, lembra o economista. Considerando essa herança, seria preciso um crescimento da atividade relativamente maior em 2024 para se chegar à alta de 1,8% do PIB estimada pelo Rabobank para este ano, 0,1 ponto percentual acima da mediana dos economistas.
A pesquisa do Valor indica ainda um primeiro trimestre com alta do PIB de 0,4%, em relação aos três últimos meses de 2023.
Une espera que a atividade comece a aquecer aos poucos entre o primeiro e o segundo trimestre de 2024, com uma trajetória mais forte no segundo semestre.
Em meio às incertezas sobre os impactos do fenômeno climático El Niño para a safra, não é esperada a mesma força do agro em 2024, que deve recuar 0,9%, de acordo com a mediana das estimativas, ainda que o nível se mantenha historicamente alto.
A contribuição do setor externo também deve ser bem mais modesta neste ano, com as exportações crescendo 3%, e as importações, 2%, indicam as medianas. “A demanda global tende a diminuir o apetite pelas nossas exportações”, afirma o economista do Rabobank. Isso não quer dizer, segundo ele, que o setor externo terá desempenho ruim, porque a balança comercial deve ser muito positiva e, apesar da menor taxa de crescimento, as exportações avançam em base alta.
Resta, pelo lado da oferta, a expectativa de aceleração da indústria, com alta de 1,7%, e relativa resiliência dos serviços, que ainda podem subir 1,9%, pela mediana. “É um ano de acomodação e de convergência nos componentes tanto na oferta quanto na demanda”, diz Une.
Pelo lado da demanda, é esperada alguma recuperação parcial da FBCF, que avançaria 1,5%, e sustentação do consumo das famílias, com alta de 2,1%. “Estamos começando a ver dados de concessão de crédito melhorando, mas até que chegue na economia como um todo, uma aceleração do consumo deve ficar mais para o segundo semestre”, afirma Une.
Para Lima, da Kinea, o aumento gradual do “apetite” dos bancos para emprestar à pessoa física, os cortes da Selic, a redução do endividamento e a visão positiva para o mercado de trabalho devem ajudar a sustentar o consumo já ao longo do primeiro semestre de 2024. Tanto que, apesar de ter um número mais fraco para o PIB do quarto trimestre de 2023, a Kinea espera crescimento de 0,5% nos três primeiros meses de 2024.
“Vivemos, em 2023, um raro equilíbrio macroeconômico conjuntural no Brasil, com a inflação caindo mais do que todo mundo esperava, a taxa de câmbio flutuando de forma até que bastante estável, expansão forte do emprego. E não está no meu radar fatores que mudem esse equilíbrio expressivamente para 2024”, diz Rocha, que projeta crescimento de 2% para o PIB brasileiro neste ano.
A expectativa da Kinea é de crescimento de 1,8%, mas Lima reconhece que esse número pode ser maior. “Se você pensar que não teremos mais o impulso da safra recorde e os juros ainda estarão restritivos, esse crescimento de 1,8% parece até bastante satisfatório.”
Fonte: Valor Econômico


