Puxada pela agropecuária, a economia brasileira cresceu 1,4% no primeiro trimestre deste ano na comparação com os últimos três meses de 2024. O número foi divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 30.
O desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) nos primeiros três meses deste ano ficou dentro do esperado pelos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast – as estimativas variavam de alta de 0,4% a 1,8%. O resultado também veio um pouco abaixo da mediana das previsões (1,5%).
Desempenho da soja ajudou o agro e a economia no primeiro trimestre Foto: EPITACIO PESSOA/ESTADAO
Na comparação com o primeiro trimestre de 2024, o Brasil cresceu 2,9%.
“É um crescimento que surpreende. No começo do ano, estava todo mundo com uma previsão (de alta do PIB de) 0,8%, 0,9%. E veio um número mais forte”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.
No primeiro trimestre, a agropecuária avançou 12,2%. Em 2025, o País deve colher uma safra recorde e, tradicionalmente, os números mais positivos do setor aparecem nos meses iniciais do ano, sobretudo pelo efeito positivo da produção de soja.
A estimativa mais recente do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, apurado pelo IBGE, projeta 328,4 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2025, o que representa um crescimento de 12,2% na comparação com o ano passado.
“Vamos ter um novo recorde de soja, mas também há outras produções, como a do milho, que estão com um comportamento positivo”, afirma Alessandra Ribeiro, economista e sócia da consultoria Tendências. “Vai ser um ano em que o agro ajuda bem e temos aqueles efeitos em cadeia. Isso aparece no setor de serviços e respinga na indústria.”
Ainda pelo lado da oferta, o setor de serviços, que tem se beneficiado de um mercado de trabalho bastante forte e do aumento da renda, cresceu 0,3%, e a indústria recuou 0,1%.
“Já havia a expectativa de uma safra muito boa para este ano. Não surpreende nesse sentido. Mas a gente percebe que o setor de serviços mostra resiliência, apesar da taxa de juros”, afirma Juliana Trece, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre) e coordenadora do Monitor do PIB.
Na análise pela ótica da demanda, o consumo das famílias (1%) e do governo (0,1%) avançaram no primeiro trimestre. A formação bruta de capital fixo (FBCF, a conta dos investimentos no cálculo do PIB) também cresceu. A alta foi de 3,1%.
Por fim, as exportações subiram 2,9%, e as importações, 5,9%
“A base inicial dos dois primeiros anos do governo Lula foi a política fiscal, uma política expansionista que ajudou no crescimento. Agora, tem uma política micro do governo, com todos os incentivos que ele está colocando, como a Minha Casa Minha Vida, tarifa (social) de energia elétrica, Pé-de-meia, (novo) consignado, e (liberação do saque bloqueado do) FGTS. É um conjunto de medidas para estimular o consumo”, diz Vale.
O que vem pela frente
Com os números do primeiro trimestre, boa parte de bancos e consultorias tem aumentado a sua projeção para o crescimento do PIB de 2025 para o patamar de 2% a 2,5%.
A leitura, no entanto, é de que a economia deve perder força daqui em diante por causa da dissipação do efeito da agropecuária no resultado da economia e pelo impacto da alta da taxa básica de juros (Selic).
Com a inflação distante do centro da meta, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou a Selic em mais 0,50 ponto porcentual, de 14,25% para 14,75% ao ano, no início de maio. É o maior nível nominal desde julho de 2006.
Juros mais altos encarecem os investimentos das companhias e o consumo das famílias.
“Na nossa estimativa, não é um crescimento sustentável. É fato que houve importantes reformas desde meados de 2016, com efeitos em PIB potencial, que está mais próximo de 2%. Mas é uma economia que está crescendo mais do que pode, porque uma parte da história vem turbinada por aumento de gasto público”, diz Alessandra, da Tendências.
“E o que vemos em termos de juros futuros é que já estamos pagando muito nessa história do fiscal, e o outro lado da história é a inflação muito resistente e demorando para voltar para a meta”, acrescenta.
A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual para mais ou para menos. Segundo o último boletim Focus, do Banco Central, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar em 5,5% este ano e recuar a 4,5% em 2026.
Está reportagem está em atualização
Fonte: Estadão

