/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/2/Z/4iIAJyQDKPFbJ4E4MfCg/foto25bra-201-mcf-a2.jpg)
“Imagine.” Tasso Jereissati e Clóvis Carvalho responderam em uma só voz. A pergunta era se o Plano Real passaria pelo Congresso de hoje. O ex-senador tucano virou o celular para si como se fizesse uma “selfie”. “Eles agora só pensam nisso”, comentou, numa referência à superexposição dos parlamentares nas redes sociais. O ex-chefe da Casa Civil de Fernando Henrique Cardoso disse que, a despeito do ceticismo dos economistas, o ex-presidente sempre apostou que o Congresso aprovaria o Real porque precisava de uma pauta positiva para se apresentar ao eleitor – “Mas esse de agora tá difícil.”
Jereissati e Carvalho estavam na plateia do evento promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso na tarde de ontem com quase toda a equipe que fez o Plano Real, 30 anos atrás. Ao fim do evento, a mesa de expositores e a plateia tinham virado uma coisa só. Todos se alternavam em contar os “causos” da implantação da moeda.
Na bancada de expositores, o ex-ministro Rubens Ricupero definiu os economistas que comandou por cinco meses como personagens do livro “Jovem audaz no trapézio voador”, do escritor americano de origem armênia William Saroyan. Disse que, 30 anos depois, o povo se convenceu da “malignidade da inflação”, mas teme que os políticos não. “Para eles a inflação não tem nada a ver com gasto”.
Jereissati tomou as dores. “Tenho que defender nossa categoria de políticos da visão de que vocês ajeitam e nós vamos lá e gastamos. Mário Covas era o grande líder no Congresso. E ele foi defender o Real desde o primeiro momento sem estar convencido dele.”
Cada um tinha uma história pra contar da reação do ex-senador e ex-governador paulista, morto em 2001, à intervenção no Banespa decretada pelo governo FHC. A melhor foi a do ex-secretário do Tesouro Murilo Portugal: “Ao lado do Covas disse a Fernando Henrique que estávamos fazendo das tripas coração para salvar o banco, quando ele emendou, ‘ele tem tripas, não coração’”.
A bancada de expositores era formada por Pedro Malan, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Persio Arida, Rubens Ricupero e Arminio Fraga, remotamente. André Lara Resende ausentou-se em função da missa de sétimo dia da mãe.
FHC, que, aos 93 anos, não tem mais condições de saúde para comparecer a um evento do gênero, era onipresente. Pela manhã, Malan, Franco e Arida o visitaram em seu apartamento em Higienópolis e saíram minutos antes da chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fez coincidir sua visita com o aniversário da moeda.
Na plateia, além de Jereissati, Carvalho e Portugal, muitos outros colaboradores daquele governo, como Martus Tavares, Amaury Bier, Andrea Calabi, Alkimar Moura, Elena Landau, Andrea Matarazzo, Eduardo Loyo e Nelson Jobim, dividiam a sala estreita de seminários da fundação com Pedro Moreira Salles, Horácio Lafer Piva e ex-colaboradores de governos petistas como Cristóvão Buarque e Luiz Awazu Pereira, cotado para voltar ao Banco Central.
Diretor da fundação e mediador do encontro, Sérgio Fausto, fustigou sobre as condições políticas da época comparadas às de hoje. Arida, depois do evento, comentava as diferenças gigantescas: “Não foi apenas o Congresso que mudou. O Judiciário não tinha o papel que tem hoje”.
Bacha, encarregado de negociações com o Congresso, disse que havia a consciência de que quem apoiasse um plano com capacidade de parar abruptamente a inflação se elegeria. “O Centrão talvez tivesse dado menos trabalho que o MDB com a URV porque está mais à direita, mas hoje seria mais difícil, e menos agradável, porque o Orçamento está mais rígido.”
Malan recorreu a Millôr Fernandes para definir as razões da popularidade do Real: “Sobrava mais mês no salário do trabalhador”. Ao seu lado, Gustavo Franco contabilizava a queda dos 46,6% de inflação em junho de 1994 para 6,7% no mês seguinte. E resumiu o acumulado desses 30 anos: “Falem de crise cambial e do que mais quiserem, mas quem fizer melhor que deixe o currículo na portaria”.
Mais sobre o Plano Real em Derrota da hiperinflação pelo Real foi mais que a ‘mágica’ da troca da moeda
Fonte: Valor Econômico
