O fluxo para títulos de dívida foi recorde no ano passado e garantiu boa performance aos gestores – e ainda tem fôlego, avalia o diretor-executivo e gestor de crédito global da Oaktree, Wayne Dahl. Mesmo para investidores brasileiros, que se deparam com a maior taxa de juros local em 20 anos, ele vê competitividade nos yields de bonds externos.
Fundada por Howard Marks, a gestora especializada em investimentos alternativos tem US$ 203 bilhões sob gestão, sendo US$ 144 bilhões em ativos de crédito. Apesar da volatilidade causada pelo novo aumento de tarifas comerciais anunciado pelo governo Trump em junho, o impacto sobre o mercado de bonds foi menor do que o verificado em abril, no primeiro aceno de tarifaço, com os spreads desses títulos mantendo o movimento de queda diante da perspectiva de corte de juros global – o que gera valorização para esses papéis.
Dahl vê hoje mais oportunidade nos títulos de dívida de mercados desenvolvidos do que em papéis de emergentes. No ano, até 25 de julho, o índice Cembi do J.P. Morgan, que acompanha o desempenho dos bonds corporativos de mercados emergentes em dólar, acumulava retorno de 4,54%, contra 7,33% do índice da S&P, que acompanha os papéis de empresas de países desenvolvidos.
A Oaktree distribui seu fundo flaghip Global Credit no Brasil, que tem US$ 4 bilhões sob gestão, tanto com retorno em reais quanto em dólar, em nove instituições financeiras, com BB, BTG, Avenue e Safra. A carteira busca entregar um retorno de dois pontos percentuais acima do CDI e acumulava ganho de 6,55% no ano até junho, em reais, contra 6,42% do benchmark. A seguir os principais trechos da entrevista de Dahl ao Pipeline:
Qual a perspectiva para o crédito privado diante do crescimento econômico global mais fraco e da guerra comercial dos EUA?
Ainda é um bom momento para os mercados de crédito, pois os yields estão atrativos, as taxas de juros estão altas e as qualidades de crédito são bastante boas. E, ao contrário das ações, que precisam de muito crescimento para gerar um ótimo retorno, o mercado de crédito precisa apenas que as empresas gerem fluxo de caixa suficiente para pagar os juros das dívidas.
Em que classes de ativos e geografias estão as melhores oportunidades?
Em termos de classes de ativos, o crédito high yield e com duration mais curta ainda é muito atraente porque há muita incerteza quanto à trajetória das taxas de juros – e, se eu aumentar a duration dos papéis, posso perder dinheiro simplesmente pelo movimento das taxas. Então, o alto rendimento que ganho me ajudará a me proteger contra volatilidade futura. Quanto à região, na margem, tem sido mais atraente investir na Europa. Esse mercado tem mostrado crescimento de novas emissões, oferece rendimentos atraentes em bases ajustadas ao risco para investidores americanos, o que torna esses investimentos marginalmente melhores do que outros hoje.
Mas há uma compressão nos retornos dos títulos high yield neste ano e aumento das emissões de dívida de emergentes. Deve ficar menos atrativo para o investidor?
Os spreads definitivamente se comprimiram no segmento high yield, mas os yields ainda são relativamente atrativos, acima de 7% em muitos casos. Esse é um retorno muito bom ajustado ao risco e, se você adicionar o aspecto de duration menor, é ainda é bastante atraente. A qualidade do crédito é muito boa para muitos emissores, mas você precisa ter um gestor ativo para evitar problemas de crédito.
Qual o impacto do aumento das tarifas comerciais anunciada pelo governo Trump para o mercado de bonds global e para papéis brasileiros?
Ainda é difícil prever o impacto das tarifas. Houve muitas mudanças. Não sabemos os números finais, mas é definitivamente uma área em que precisamos nos concentrar e ver como ela impacta alguns mercados emergentes, se eles exportam commodities agrícolas ou importam commodities agrícolas ou energéticas. Então, em um país como o Brasil ou outros da América Latina, alguns investimentos podem ser menos atraentes e outros mais. Mas não acho que isso significa ficar fora de títulos corporativos do Brasil ou de outros países da América Latina.
Quanto do fundo de crédito global da Oaktree está alocado na América Latina?
Temos investido em papéis da América Latina, incluindo a Argentina e o Brasil. Hoje temos uma porcentagem pequena investida na região, mas acredito que, no futuro, há potencial para crescer. Hoje é menor em comparação com o histórico porque temos visto mais oportunidade em títulos de mercados desenvolvidos, que estão um pouco mais atrativos que o de países emergentes. Há mais oportunidades nesse grupo e os rendimentos estão muito semelhantes ao de emergentes, sem o risco adicional.
Qual o cenário da Oaktree para os juros americanos? O Fed faz um corte na taxa neste ano?
Acredito que o Federal Reserve ajustará sua política monetária de acordo com os dados econômicos. Concordo plenamente com o presidente Jerome Powell, que está em uma boa posição. Eles não precisam se sentir pressionados a cortar a taxa de juros. Acho que se observarmos uma mudança significativa no mercado de trabalho, se a inflação permanecer na trajetória atual, então, sim, poderemos ver um afrouxamento da política monetária em 2025. Mas sabemos que há risco da inflação subir. Mas, como investidores de crédito, isso não é algo que precisamos para termos um bom desempenho.
A desaceleração econômica, já vista nos EUA e outros mercados, aumenta os riscos de default?
Acredito que o risco de inadimplência continua mais predominante no mercado de empréstimos sindicalizados e de títulos high yield. Temos visto níveis de inadimplência mais altos nos últimos anos e acredito que isso continuará. Há alguns tomadores de crédito com alta alavancagem, com estrutura de capital precisando de soluções adicionais. Veremos a inadimplência permanecer nessa faixa de 3%, 5%, talvez na faixa de 6%. Se for 6%, significa que 94% do universo de emissores estão performando bem. Nos concentramos nos fundamentos do crédito, ou seja, no universo desses 94%.
Para o investidor brasileiro, que tem taxa de juros local de 15%, ainda compensa o crédito offshore?
A vantagem para os investidores brasileiros é realmente a diversificação. O mercado de crédito fora do Brasil é significativo, dá exposição a mais setores, mais regiões. Além disso, investir em dólares offshore é uma espécie de proteção contra a inflação no mercado local. O nosso foco, por exemplo, é atingir um retorno de CDI mais 200 pontos-base, o que ainda deve ser atraente para os investidores no longo prazo, principalmente considerando um cenário em que as taxas de juros no Brasil caiam no curto prazo. Continuamos vendo investidores brasileiros interessados em fundos de crédito privado global e um dos motivos é que o spread no Brasil é muito baixo.
Fonte: Pipeline


