Por Eduardo Magossi — De São Paulo
11/08/2022 05h03 Atualizado há 4 horas
A desaceleração da inflação dos Estados Unidos em julho tira a urgência do Federal Reserve (Fed) em aumentar os juros rapidamente, embora as taxas tenham de permanecer em um nível restritivo da atividade econômica por mais tempo que o sinalizado pelo mercado hoje, afirma Luciano Paiva, diretor de investimentos (CIO) do Credit Suisse Brasil.
Para ele, esse cenário também é boa notícia para o mercado brasileiro, que já vinha reagindo positivamente a alguns sinais de que o banco central americano poderia seguir um ritmo mais lento de aperto monetário.
A retração do índice de preços ao consumidor (CPI) – de 9,1% em junho para 8,5% em julho, na base anual – não significa que a batalha contra a inflação está vencida, diz Paiva. No entanto, os ajustes poderão ser feitos de forma mais branda. “O Fed ainda vai precisar manter os juros mais elevados durante um bom tempo, mas não precisa fazer isso com a velocidade que vinha fazendo”, afirma.
Por isso, o executivo acredita que na reunião de setembro do Comitê Federal de Mercado Aberto do Fed a decisão será uma alta de 0,50 ponto percentual nas taxas de referência da economia americana, em vez do 0,75 ponto adotado nas duas últimas reuniões.
Com isso, o desafio do banco central americano agora é desaquecer o mercado de trabalho, único indicador que ainda não deu sinais de arrefecimento. Os EUA possuem hoje duas vagas em aberto para cada cidadão procurando emprego, o que deixa os salários aquecidos. “O mercado temia que o Fed embarcasse em um processo semelhante ao do Copom [Comitê de Política Monetária] que, no Brasil, também realizou altas de até 1,5 ponto nos juros por várias vezes para causar um choque e derrubar as expectativas de inflação e não teve resultado. O CPI de julho reduz a expectativa de que isso aconteça”, disse.
Segundo ele, o mercado precifica hoje uma taxa final de 3,5% para as taxas americanas, 1 ponto acima do patamar atual. “Mas vamos precisar de taxas entre 4% e 4,5%, talvez até mais, para levar de volta a inflação à meta”, diz.
Paiva alerta também para o fato de o mercado já considerar que os juros começarão a cair no início do segundo semestre de 2023 o que, na visão dele, é improvável.
Um sinal de que o Fed agirá a partir de agora com mais tranquilidade, segundo Paiva, é que o banco central já indicou que não pretende derrubar a inflação para a meta de 2% de forma abrupta, mas agir gradualmente até, pelo menos, 2024. O economista lembra que a queda nos preços das commodities pode ser um sinal de que a expectativa de crescimento da atividade global está caindo.
Para o executivo, essa composição de fatores favorece os ativos no Brasil. Caso o Fed adote de fato um ritmo de altas mais lento, as chances de o Copom de interromper a elevação dos juros aumentam. “O DI pré-fixado para janeiro de 2025 recuou 150 pontos base em 20 dias, o Ibovespa voltou para os 110 mil pontos e o dólar recuou de R$ 5,50 para perto de R$ 5 desde que o Fed passou a indicar uma desaceleração, sentimento que ficou mais forte agora”, afirma. Ele não descarta uma última alta de 0,25 ponto na Selic, contudo – o que levaria a taxa brasileira para 14% ao ano.
O economista pondera que o período de eleições no Brasil. “Mas com a vitória de um dos candidatos, ele vai ter de se ater à responsabilidade fiscal”, diz.
Paiva trabalha com um cenário mais favorável para os ativos brasileiros após a eleição, com a expectativa de um retorno de 12% a 15% na bolsa brasileira no médio a longo prazo ante 7% a 10% do S&P 500. “A maior previsibilidade do Fed coincidirá com o momento pós-eleitoral brasileiro.”
Fonte: Valor Econômico
