Ainda que os níveis dos juros reais no Brasil estejam em patamares historicamente elevados, há espaço para taxas ainda mais altas, na avaliação da Ace Capital. Segundo o diretor de investimentos da gestora, Fabricio Taschetto, a necessidade de o BC manter uma postura restritiva para atingir seus objetivos, diante de uma meta de inflação de difícil cumprimento, pode empurrar ainda mais para cima os juros das NTN-Bs intermediárias. A posição “vendida” nos títulos públicos, segundo ele, é acompanhada de uma posição “aplicada” nos juros nominais de curto prazo, diante da leitura de que não haverá a necessidade de o Banco Central subir juros ainda neste ano.
Confira os principais trechos da entrevista, concedida ao lado do CEO da Ace, Ricardo Denadai.
Valor: Qual a avaliação sobre o cenário global, com a situação da guerra parcialmente resolvida?
Ricardo Denadai: Mesmo antes da guerra, tínhamos convicção na resiliência da economia americana. Já faz vários anos que ela funciona quase como um relógio. Sempre nos perguntamos se existe algum grande desequilíbrio na economia americana e a resposta é não, à exceção do endividamento. Eu diria que os EUA saíram iguais ou até melhores da guerra. A novidade recente talvez seja um dinamismo maior do mercado de trabalho. Somando isso à questão da IA — tanto pelo volume de investimentos quanto pelo potencial ganho de produtividade, acho que estamos voltando a discutir, ainda que não na mesma magnitude, a ideia do excepcionalismo americano. E as empresas americanas nunca deixaram de ser excepcionais.
Valor: O “excepcionalismo americano”, de fato, voltou?
Fabricio Taschetto: Essa narrativa do excepcionalismo foi abalada em 2025. As tarifas levaram o mundo a buscar alternativas de realocação de capital, aumentando a exposição ao restante do mundo. O Brasil surfou essa onda muito bem entre maio de 2025 e o início deste ano. Mas o excepcionalismo das empresas americanas nunca deixou de existir. No início do ano havia uma grande dúvida sobre o retorno dos investimentos em data centers e sobre o volume de capex associado à IA. O fato é que, quando as empresas começaram a divulgar os resultados do primeiro trimestre, os números vieram significativamente melhores do que o esperado. Por isso, estamos começando a enxergar o retorno dessa velha-nova narrativa do excepcionalismo americano. Talvez ela esteja muito próxima de voltar.
Valor: Como isso se traduz nas posições dos fundos?
Taschetto: Existe uma oportunidade relevante para que os ativos americanos, especialmente a bolsa, voltem a apresentar desempenho superior ao restante do mundo. Um dos efeitos desse processo, observado também na década passada, é que empresas americanas fortes e uma bolsa em alta atraem fluxos globais de capital. Isso fortalece o dólar. Portanto, também enxergamos espaço para um dólar um pouco mais forte, algo que já começa a aparecer em relação a moedas desenvolvidas. Resumindo, a posição que temos mais convicção é uma posição comprada em S&P 500 combinada com uma posição comprada em dólar.
Valor: E como fica o Brasil?
Denadai: Passamos dois meses [março e abril] discutindo exclusivamente a guerra. Após isso, os fatores idiossincráticos começaram a chamar atenção pelos motivos errados. O evento do Flávio [Bolsonaro] tornou a disputa eleitoral mais acirrada. Além disso, aumentou bastante a preocupação com o El Niño, onde já existia discussão sobre um mercado de trabalho que não desacelerava e uma inflação que não apresentava dinâmica tão favorável. Depois o mercado se deu conta do tamanho da transferência de renda em curso. Quando se somam todos os programas de transferência de renda, os já existentes e os novos, além dos programas de crédito, estamos falando de algo próximo de 1,5% do PIB em transferências. E talvez o ponto que tenha servido como estalo para o mercado tenha sido a discussão da escala 6×1. A percepção passou a ser a de que, em ano eleitoral, não existe goleiro. Não existe Congresso atuando como goleiro. Não existe ninguém exercendo esse papel de contenção.
Valor: Como isso se refletiu nas projeções da Ace?
Denadai: Revisamos nossas projeções de PIB para cima neste ano e para baixo no ano que vem. É algo que temos discutido com frequência. Existe uma espécie de encontro com a realidade em 2027. Colocando de forma mais direta, cresce a probabilidade de termos um ano de forte ressaca. A economia já vinha operando com estímulos que funcionavam como anabolizantes, representados principalmente pelas transferências fiscais. Neste ano, decidimos aplicar um anabolizante muito mais potente. Existe espaço para encontrar mais 1% ou 1,5% do PIB em estímulos em 2027? Quanto mais desse anabolizante for utilizado agora, maior tende a ser a conta a ser paga em 2027.
Valor: Como avaliam o cenário de política monetária no Brasil?
Denadai: No início do ano, estava bastante cristalizada a ideia de um ciclo de cortes de juros, algo na ordem três pontos. Hoje, porém, essa perspectiva parece bem menor. Tivemos o corte [na semana passada] e, na nossa avaliação, o cenário mais provável ainda contempla pelo menos mais uma redução de juros.
Valor: Como avaliaram a última decisão do Copom?
Denadai: A decisão foi especialmente ruidosa. O mercado entrou na decisão já desconfiado, a comunicação veio confusa e a reação acabou sendo muito mais dura do que teria sido em um contexto mais favorável. Por isso, embora existam críticas legítimas, tenho a impressão de que o Banco Central está apanhando mais do que efetivamente mereceria.
Valor: A decisão de cortar os juros foi equivocada?
Taschetto: O BC acabou se atrapalhando na comunicação. Ele poderia ter chegado exatamente ao mesmo resultado prático — um corte de 0,25 ponto mantendo a porta aberta para as próximas reuniões — sem provocar toda a turbulência que vimos desde quarta-feira. A decisão de política monetária foi correta. O problema não foi a decisão em si, mas como ela foi comunicada.
Valor: Diante do cenário, quais são as posições em juros no Brasil?
Taschetto: Temos uma posição aplicada em juros curtos. Mesmo que não ocorram mais cortes, me parece difícil defender um cenário de alta da Selic a partir do nível atual de 14,25% até o fim do ano. Por isso, vejo uma assimetria favorável nessa posição aplicada nos juros curtos. Além disso, seguimos defendendo uma posição vendida em NTN-B. Apesar de as taxas reais já estarem em níveis elevados, existe uma discussão importante em torno da meta de inflação. A meta parece cada vez mais difícil de ser atingida e, se o BC realmente decidir persegui-la, os juros reais precisarão permanecer elevados por bastante tempo. Esse desafio se torna ainda maior porque a política fiscal segue atuando na direção oposta da política monetária.
Valor: Os juros reais podem ficar ainda mais altos?
Taschetto: Neste ano, a taxa média de juros deve ficar próxima de 14,5%, com uma inflação ao redor de 5%. Isso significa um juro real corrente perto de 9,5%. E, mesmo com um juro real dessa magnitude, não estamos conseguindo fazer a inflação convergir para a meta. Isso nos leva a acreditar que o juro neutro no Brasil é mais alto do que se imagina, especialmente por conta da questão fiscal. Com uma política fiscal mais frouxa, o juro neutro acaba sendo mais elevado. Então, até onde pode ir esse juro real? Pode ir para 9% ou 9,5%.
Valor: A bolsa ficou barata após a correção recente?
Taschetto: Desde o pico de abril até agora, a bolsa caiu algo próximo de 15%. Ao mesmo tempo, as expectativas de lucro para este ano e para o ano que vem subiram algo entre 15% e 20%. Quando você olha para o múltiplo de preço sobre lucro, ele saiu de algo próximo de 12 vezes para perto de 8 vezes. Nesse nível, começa a ficar mais interessante. O que ainda falta é um gatilho.
Valor: Qual seria o gatilho?
Taschetto: Esse gatilho seria o investidor estrangeiro voltar a comprar. Durante dois meses ele vendeu praticamente todos os dias. Mais recentemente, começamos a ver um comportamento um pouco mais equilibrado. Houve entrada em um dia, saída no outro, e o fluxo parece ter parado de piorar. Se o estrangeiro voltar a comprar de forma mais consistente, acho que esse “trade” passa a fazer bastante sentido. A assimetria parece melhor neste momento.
Valor: Qual o cenário-base para a eleição no Brasil?
Taschetto: Acho que existe um excesso de pessimismo em relação à eleição. Houve um momento em que o cenário parecia relativamente simples de interpretar. Hoje ele está muito mais complexo. Mas também não compartilho da visão de que o resultado já está definido. Me parece muito cedo para esse tipo de conclusão. Ao longo dos próximos meses, especialmente entre julho e agosto, a discussão eleitoral deve ganhar intensidade e o mercado vai começar a acompanhar o tema de forma muito mais próxima. E aí pode existir uma assimetria favorável. Dependendo da evolução das pesquisas, mudanças nas intenções de voto podem produzir reações relevantes nos preços.
Fonte: Valor Econômico