Além de um forte estresse nos juros futuros e um enfraquecimento do real, a comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na sua decisão da última semana impactou a expectativa dos agentes financeiros para a inflação. As chamadas medidas de inflação “implícita” do mercado, obtidas por meio da diferença entre as taxas nominais e os juros reais das NTN-B (os títulos da dívida pública atrelados ao IPCA) saltaram nos últimos dias diante da percepção de que a autoridade monetária se afastou do cumprimento da sua meta de inflação a 3%.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/w/Z/lBSCiIQYaBJ87EYaLOOQ/07fin-400-tlbitcoin-c2-img01.jpg)
A inflação implícita extraída da NTN-B com vencimento em agosto de 2028, por exemplo, saiu de 5,34% no fechamento anterior à decisão do Copom e terminou a semana em 5,43% – após ter chegado a 5,49% na quinta-feira. Em prazos mais longos, o impacto foi ainda mais significativo: a inflação precificada na NTN-B de maio de 2032, por exemplo, saltou de 5,59% para 5,79% de quarta para sexta-feira.
A deterioração das percepção dos investidores sobre o comportamento futuro da inflação decorre, em especial, da decisão do Copom de alongar o horizonte relevante da política monetária em um trimestre, utilizando-se de um cenário alternativo para a taxa Selic em relação ao Focus para justificar a decisão de cortar o juro básico de 14,50% para 14,25%, mesmo diante da piora do quadro inflacionário descrita pelo próprio Copom no comunicado.
Para Milena Landgraf, CIO da estratégia macro da Jubarte Capital, a comunicação deu a entender que o BC “forçou a barra” para encontrar espaço para baixar a Selic e continuar o processo de flexibilização monetária além de junho, o que gerou perda de credibilidade e, como consequência, a expectativa por uma inflação mais elevada por parte do mercado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2025/I/Q/WYHbjeTyWnNYXApiFWJg/foto12fin-101-jubarte-c6.jpg)
“Voltamos a negociar a inflação implícita próxima das máximas recentes, só abaixo dos momentos de maior estresse de mais de um ano atrás”, diz a profissional. Landgraf destaca, ainda, que o estresse observado na inflação implícita vai na contramão de outros mercados ao redor do mundo, que se beneficiam do acordo preliminar entre os Estados Unidos e o Irã que derrubou os preços do petróleo para baixo do nível de US$ 80 por barril.
“Depois que ficou claro que o conflito deve estar perto do fim, houve uma queda expressiva do petróleo e vimos um movimento de queda das inflações implícitas globais. Aqui, fomos na contramão. Era um momento em que poderíamos nos beneficiar dessa queda dos preços de energia.”
Landgraf chama atenção ainda para o fato de que o contexto atual já oferecia “pouca margem de erro” para o BC. “A maioria dos diretores foram indicados pelo governo atual, estamos num ano de eleição e com uma aceleração muito forte dos gastos com o objetivo claro de aumentar a popularidade [do governo]. O BC tem pouca margem de erro e qualquer deslize implica nessa perda de credibilidade”, aponta.
Questionada se os ajustes na inflação esperada pelo mercado podem se refletir em algum grau nas expectativas do relatório Focus que será divulgado na segunda-feira (22), a CIO da Jubarte Capital diz que “ficaria surpresa se houvesse uma piora muito rápida”, mas adverte que é difícil prever os movimentos do Focus.
Ian Lima, gestor de renda fixa ativa da Inter Asset, vai na mesma linha. “Não espero mudanças no Focus, considerando que ainda teremos a divulgação da ata, além do Relatório de Política Monetária e a coletiva, que poderão trazer esclarecimentos adicionais sobre os questionamentos em relação ao comunicado”. Segundo ele, a comunicação do Copom deixou um “ponto de interrogação” que pode ser esclarecido nos próximos dias.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/9/Y/mdzMMhQgCCDudTFoNGYg/20fin-100-mercados-c2-img01.jpg)
O gestor entende que seria mais adequado o Copom ter reduzido a Selic mas, ao mesmo tempo, sinalizado de forma mais explícita que poderia parar o ciclo de afrouxamento se o cenário não melhorar até a próxima reunião, em agosto. Ou então, caso quisesse adotar um cenário alternativo de Selic constante, poderia comunicar isso de forma mais clara e, pelo menos, indicar ao mercado que novos aumentos da Selic não serão necessários.
Caso a mensagem passada pelo BC não fique mais clara e persista a impressão de que o Copom está mais leniente com a inflação, “há espaço para uma deterioração relevante”, alerta Lima. “Os preços atuais, embora pressionados, ainda refletem uma probabilidade razoável de que os pontos em aberto sejam elucidados”, avalia.
Já Landgraf entende que os preços atuais, sejam os da curva de juros futuros ou das medidas de inflação implícita já parecem muito esticados e o próprio posicionamento técnico do mercado é leve, o que tende a limitar uma nova onda de deterioração significativa.
“A dinâmica adiante vai depender de como o BC vai lidar com essa situação daqui pra frente, se conseguirá reverter essa percepção e a perda de credibilidade, o que na minha visão é totalmente possível”, aponta. Para a profissional, a própria reação do mercado foi um pouco exagerada, uma vez que, embora a comunicação do Copom tenha sido falha, reduzir a Selic de 14,50% a 14,25% “não deveria ser o fim do mundo”. “Vejo oportunidades de ajustar essa percepção do mercado e retirar esse ruído que ficou”, diz.
Em particular, Landgraf espera que o Copom esclareça melhor dois pontos: quais são os cenários alternativos delineados pelo comitê na decisão de quarta-feira; e qual o espaço real que o BC enxerga para o ciclo de corte de juros.
“Se houver mais transparência em relação ao que o BC está vendo de espaço para cortes, o mercado ficará mais tranquilo. O medo é que ele veja um espaço maior do que os fundamentos permitem, mas se foi apenas uma preferência por mais um corte de 0,25 ponto percentual, não há motivo para estresse”, argumenta a gestora.
Fonte: Valor Econômico