Por Alan Beattie — Financial Times
28/07/2023 05h02 Atualizado há uma hora
Não devem existir muitas reuniões de cúpula em que um chefe de governo deixa de participar por medo de ser preso por crimes de guerra. O grupo Brics conseguiu marcar uma. Vladimir Putin estará ausente do encontro em agosto entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, em Johannesburgo, já que os anfitriões, enquanto signatários do Tribunal Penal Internacional, seriam obrigados a detê-lo por um mandado pelas atividades da Rússia na Ucrânia. É improvável que Putin perca muito de substancial. Além de muita retórica de desafio ao mundo rico, um dos principais temas será a tensão, que mal se consegue esconder, em torno do papel da China.
O Brics agora parece estar visivelmente desequilibrado. Inventado de forma célebre em 2001 por economistas do Goldman Sachs como uma ferramenta de marketing, o grupo se tornou uma entidade política real quando os quatro países iniciais (a África do Sul se juntou depois) realizaram sua primeira reunião de cúpula em 2009. Dan Ciuriak, ex-vice-economista-chefe do Departamento de Comércio Exterior do Canadá e agora pesquisador sênior do Centre for International Governance Innovation, escreveu um artigo esclarecedor sobre os fundamentos econômicos que deram base ao Brics. Ele destaca que apenas uma confluência fortuita de eventos no fim da década de 1990 e na de 2000 fez com que o grupo parecesse ter uniformidade, até nas aspirações.
Apoio da China aos demais membros do Brics também não é exatamente incondicional
Enquanto a China se beneficiava de sua produção industrial de baixo custo em virtude das reformas econômicas de Deng Xiaoping, a Rússia e o Brasil emergiam do caos econômico (a Rússia após a queda do comunismo, o Brasil após a estabilização da moeda em 1994), de forma que puderam cavalgar sobre a forte valorização das commodities nos anos 2000. Por sua vez, a Índia vivia um surto de crescimento após a liberalização econômica que veio na esteira da crise de balanço de pagamentos em 1990-1991. África do Sul era impulsionada pelo fim do apartheid em 1994.
No entanto, ao longo das décadas de 2000 e 2010, apenas a China conseguiu avançar rumo ao status do mundo rico, ao valer-se de progressos tecnológicos para se tornar uma economia baseada no conhecimento. Os demais continuaram amarrados a modelos de baixo crescimento, excessivamente dependentes das commodities, com seus aparatos econômicos prejudicados por combinações de disfunção política e corrupção.
A economia chinesa agora rivaliza com a dos EUA – em paridade de poder de compra é até maior – e seu tamanho e arrecadação financiam uma política externa e militar beligerante.
A ideia de uma nova moeda do Brics, mencionada pelo presidente Inácio Lula da Silva, é essencialmente uma fantasia: o yuan é a única das cinco moedas internacionais com papel significativo no exterior. O Brics criou o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), relativamente pequeno, com US$ 32,8 bilhões em empréstimos concedidos até agora, em comparação aos acordos bilaterais da China, que provavelmente já liberaram empréstimos de cerca de US$ 1 trilhão. Sua Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI, na sigla em inglês), também conhecida como Nova Rota da Seda, não apenas constrói projetos de infraestrutura e na economia digital, mas também almeja um alinhamento político e no comércio exterior.
O apoio da China aos demais membros do Brics também não é exatamente incondicional. Mesmo deixando de lado sua rivalidade militar de longa data com a Índia, embora a China dê cobertura diplomática a Putin após a invasão da Ucrânia, na prática cobra ao comprar petróleo russo abaixo do preço do mercado mundial.
Em termos geopolíticos, a China vive uma rivalidade econômica, tecnológica e estratégica com os EUA, enquanto os demais membros do Brics tentam manter boas relações com Bruxelas e Washington. O Brasil quer acesso aos consumidores europeus e trabalha para finalizar um acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o bloco econômico sul-americano Mercosul; a Índia faz parte da aliança de segurança Quad dos EUA na Ásia-Pacífico.
Se Pequim tentar forçar os outros membros do Brics a abandonarem sua estratégia de não alinhamento a nenhum bloco mundial de poder, as tensões sobre o grupo se tornarão intensas.
Fonte: Valor Econômico