Mesmo com a perspectiva de desaceleração inflacionária no mundo desenvolvido, o que beneficia os mercados emergentes, é pouco provável que o Brasil consiga testar níveis de juros muito abaixo de dois dígitos. A avaliação é de Alexandre Muller, sócio e gestor de crédito privado da JGP, que participou nesta quinta-feira do evento “Encontro com gestores”, promovido pela Icatu Seguros, no Rio. Segundo ele, não há no momento uma agenda de reformas que aumentem a eficiência do Estado ou que recuperem o espaço da iniciativa privada, e são muitas as ameaças à disciplina fiscal.
“A gente vê a curva de juros futuros precificando uma Selic em torno de 9% a 9,5%, mas, em 2024, vamos seguir flertando com os dois dígitos, o que tende a deixar a renda fixa ainda como uma classe competitiva nos portfólios.”
Muller afirma que a gestora, nesse contexto, segue com olhar crítico em relação à disciplina de estrutura de capital das empresas. Ele explica que a JGP persegue o que chama de “teses de transição”, ou seja, papéis de empresas que hoje pagam spreads altos, mas que tenham bons planos para saída desse patamar. “Quem paga um nível de spread de 5,5% acima do CDI, por exemplo, tem que ter um plano para sair dele, e as melhores oportunidades estão na identificação dessas teses de transição.”
De acordo com o sócio da JGP, com a reativação do mercado de crédito no segundo semestre do ano, depois da crise de Americanas e Light que paralisou as emissões na primeira metade de 2023, empresas com problemas de crédito hoje no país têm alguma falha estrutural, e não conjuntural. Ele citou como exemplo as empresas de comércio eletrônico, que viveram uma explosão na demanda durante a quarentena e que agora enfrentam desafios de gestão, como Via Varejo e Magalu.
“O mercado precisa ser funcional, ter oportunidades de refinanciamento disponíveis para as empresas. Tanto durante a pandemia quanto no início do ano o mercado primário congelou e criou um problema, já que, sem capacidade de se refinanciar, as empresas tendem a aumentar esforços de reestruturação e de recuperação judicial. No segundo semestre essa funcionalidade foi readquirida.” Muller explica que, desde agosto, o volume de emissões primárias está em torno de R$ 15 bilhões por mês.
Diferentemente de ações e outros ativos, o gestor lembra que, em crédito, boa parte do valor do investimento está no curto prazo. “Quando um investidor compra um papel de tecnologia, por exemplo, imagina que vai distribuir muitos dividendos lá na frente. No crédito, fazemos operações de três, quatro, cinco anos, ou seja, boa parte volta cedo.”
Segundo Stefan Castro, gestor de crédito da Absolute Investimentos, a asset vem elevando o prazo médio da carteira, mas de forma seletiva. “Dez anos atrás, emissões de dois ou três anos eram normais. Hoje já vemos emissões de dez, sete anos, o que permite gestão ativa do crédito e do prazo que está carregando na carteira.” Ele ressalta que muitas vezes a gestão de crédito é contraditória. Num mercado de euforia, como o país viveu em 2019, afirma, não há dispersão de retorno para ter um prazo mais longo, já que a curva fica estável. “Em momentos de euforia devemos ter uma carteira mais curta.”
Segundo o índice JGP-Idex, o menor nível da série histórica, que começa em 2017, foi registrado em novembro de 2019, em CDI mais 0,9%. E o maior nível em março de 2020, com CDI mais 4,9% ao ano. Em dezembro de 2022, a média estava em CDI mais 1,90% e, depois de Americanas, chegou a 3,10%. Agora, caiu a CDI mais 2,20% ao ano.
Para 2024, Castro diz que haverá muita atratividade no crédito privado, já que a inflação esperada é em torno de 4%, enquanto os juros ainda se manterão altos, diante da gradualidade dos cortes pelo Banco Central. “Estamos falando de um juro real de 8%, um retorno bem atrativo.”
Antonio Correa, gestor de crédito privado da Icatu Vanguarda, vê mais oportunidades hoje no mercado secundário do que no primário. De acordo com o executivo, em 2022 a gestora participou de mais de cem captações e, neste ano, o número caiu para 20. “Em emissões primárias de empresas de primeira linha de qualidade de crédito, houve muita demanda, o que levou os spreads a caírem muito rapidamente. Em muitos casos estão abaixo do que pagavam antes da crise de Americanas. Nessa primeira faixa, portanto, vai ter menos chance de ganhar dinheiro. Papéis com classificação AA (um nível abaixo de avaliação de crédito) ou A têm mais potencial.”
No mesmo evento, o CEO da Icatu Seguros, Luciano Soares, lembrou que o cenário de queda dos juros no Brasil é benigno para os investimentos em previdência privada. Ele afirmou que, mesmo em anos de crise, o segmento nunca deixou de apresentar crescimento. “A resiliência do mercado de previdência tem se mostrado importante.” Henrique Diniz, diretor de produtos de previdência da seguradora, afirmou que vê os investidores mais sensíveis à previdência, que, disse, era vista como mais complexa.
Diniz destacou que a legislação permitiu uma maior flexibilidade na gestão dos fundos, o que levou à oferta de produtos sofisticados, com resultados semelhantes aos do restante da indústria. “O órgão regulador entendeu que precisávamos de mudanças. A Icatu participou desse processo junto à Susep e, na vanguarda do mercado, trouxe gestores como parceiros em nossos fundos.”
Soares lembrou que os investidores foram se conscientizando da relevância desse investimento em seu portfólio. “A diferença de performance para o restante da indústria de fundos está cada vez menor e isso vai ficar cada vez mais claro para o investidor. O desafio agora é educacional para que o cliente entenda a importância de se proteger com os melhores produtos.”
Diniz ressaltou o benefício tributário da previdência privada, que, segundo ele, corresponde a 20% a mais em 20 anos para quem usar a tabela regressiva, que chega a 10% de alíquota. “Ou seja, quem iria se aposentar com reservas de R$ 1 bilhão vai se aposentar com R$ 1,2 milhão.”
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Alexandre Muller, gestor da JGP — Foto: Leo Pinheiro/Valor
Fonte: Valor Econômico


