O ouro está próximo de alcançar a marca de US$ 4 mil por onça-troy — patamar de resistência psicológica para o mercado. O metal precioso atingiu máximas históricas de fechamento nesta segunda. O estopim mais recente foi aversão a risco causada pelas mudanças políticas no Japão e na França. A dinâmica favorável ao ativo, no entanto, tem sido vista desde o início do ano, diante do alto grau de incerteza macroeconômica, geopolítica e da perspectiva de afrouxamento monetário pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano). O ativo acumula alta de quase 50% em 2025.
A combinação entre a renúncia do primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, após apenas 27 dias no cargo, e a surpreendente eleição de Sanae Takaichi como líder do partido governista no Japão levou a um movimento de fuga de risco entre os investidores. Os receios do mercado com as mudanças têm um pano de fundo em comum: o temor sobre a saúde fiscal de ambos os países.
O Japão passa por um momento ímpar em sua história econômica. A quarta maior economia do mundo enfrenta um período de alta na inflação e a perspectiva de que o banco central do país (BoJ) tenha de apertar a política monetária, algo incomum em uma nação que já teve de combater períodos de desinflação e contava com taxas de empréstimos negativas. Takaichi, por sua vez, é vista como uma política inclinada ao expansionismo fiscal e com maior propensão a contestar eventuais avanços nos juros
A França também passa por um momento político e econômico delicado, no qual Lecornu e seu antecessor, François Bayrou, foram capazes de passar uma proposta orçamentária para ser aceita no parlamento. O presidente Emmanuel Macron enfrenta a possibilidade de perder governabilidade após passar por seu quinto primeiro-ministro nos últimos dois anos.
A somatória entre esses acontecimentos culminou em um movimento de aversão ao risco. Os contratos futuros de ouro com entrega para outubro renovaram máximas históricas de fechamento ao subirem 1,74%, a US$ 3.948,5 por onça-troy. E já durante o pregão eletrônico desta terça-feira bateu US$ 3.999.
Embora a dinâmica eleitoral recente tenha sustentado a valorização do ouro, o rali do ativo neste ano iniciou com outro catalisador: a política comercial de Donald Trump. A incerteza causada pelas tarifas levou a um movimento de rotação de mercado, em especial para fora do dólar e dos Treasuries, títulos do Tesouro americano — dois investimentos que competiam com o ouro pelo status de reserva de segurança.
A política comercial de Trump culminou em um afastamento dos investidores de ativos ligados aos Estados Unidos e gerou um forte movimento de aversão ao risco. A combinação desses fatores deu início ao rali do ouro durante o primeiro semestre. Depois disso, o ativo estabilizou próximo da faixa de US$ 3,5 mil com os primeiros recuos do republicano na retórica tarifária.
Após alguns meses sem grandes direcionadores, a perspectiva de afrouxamento na política monetária dos Estados Unidos pelo Fed deu o impulso necessário para o ouro quebrar essa faixa de negociação estreita e avançar mais de 15% desde o fim de agosto.
Profissionais do Goldman Sachs liderados por Daan Struyven afirmam que o rompimento dessa faixa de negociação foi impulsionado por três principais fatores: o aumento em posições em Exchange Traded Funds (ETFs) no Ocidente; uma possível retomada na demanda por bancos centrais; e posicionamentos especulativos.
O ouro é a principal recomendação de compra entre as commodities para o Goldman Sachs, e o banco chama atenção para a possibilidade de alta do metal. As projeções da instituição são de o ativo atingir US$ 4 mil por onça-troy até o meio de 2026 e de US$ 4,3 mil até o fim do ano que vem.
Os estrategistas do Bank of America, por outro lado, adotam uma postura mais conservadora. Liderados por Paul Ciana, eles destacam que o ouro já superou a maior parte dos alvos para atingir a marca de US$ 4 mil, e que os investidores deveriam ter cautela.
Uma das razões para a cautela, na avaliação de Ciana, é o comportamento histórico do ouro após ralis de valorização. O ativo já acumula sete semanas consecutivas de alta e, desde 1983, sempre que isso ocorreu, o metal caiu em todas as ocasiões nas quatro semanas seguintes, e em dez de 11 ocasiões cinco semanas depois.
O metal precioso também encontra-se acima das médias móveis recentes. O ouro está cerca de 70% acima da média móvel de 200 semanas, o que normalmente é seguido de correções de 20% a 33%, segundo levantamento do BofA.
Em um passado recente, as correções também foram recorrentes. Desde a mínima de 2015, o ouro subiu cerca de 85% até 2020, e viu correção de 15% até 2022, quando subiu mais de 130% nos anos seguintes. “Se este ciclo seguir o padrão dos anteriores, há espaço para mais altas nos próximos anos. No entanto, a redução no percentual de alta e as correções intermediárias são comuns. Isso justifica cautela ao se aproximar da resistência psicológica dos US$ 4 mil”, diz Ciana.
Fonte: Valor Econômico

