Por Marcelo Osakabe e Victor Rezende — De São Paulo
30/05/2023 03h48 · Atualizado há 6 horas
A recente leva de revisões dos cenários econômicos para 2023 não surpreende tanto quem já adotava premissas mais otimistas no cenário. Para economistas ouvidos pelo Valor, a surpresa positiva trazida por indicadores nos últimos meses tem ajudado apenas a retirar o pessimismo que pairava entre analistas. No entanto, ainda existe espaço para melhora adicional nas projeções deste ano, dizem.
No primeiro relatório Focus do ano, a mediana das estimativas dos analistas apontava expansão de 0,78% do PIB. Alguns chegavam a alertar para o risco de um cenário de recessão técnica no primeiro trimestre, após a contração do PIB de 0,2% observada no últimos três meses do ano passado. De lá para cá, houve uma melhora da atividade e das estimativas para o desempenho da economia, processo que se acelerou na última semana, quando o Focus passou a apontar crescimento de 1,26% no ano.
O resultado de indicadores econômicos referentes a março ajuda a contar boa parte do viés altista para o crescimento, já que o mercado foi bastante surpreendido. Esse fenômeno foi capturado no índice de surpresa da atividade econômica, que, nos cálculos do Bradesco, chegou a 0,94 ponto em maio, maior nível desde setembro de 2020. Quanto mais alto o indicador, maior a surpresa positiva do desempenho da atividade econômica em relação às expectativas consensuais do mercado.
Na formulação do indicador, o Bradesco utiliza os resultados da Pesquisa Mensal da Indústria (PMI), do Comércio (PMC) e de Serviços (PMS), além dos dados do mercado de trabalho extraídos do Caged e da Pnad. “São os cinco indicadores mais importantes para o PIB e para a formação das expectativas de atividade do mercado”, enfatiza o economista Vitor Vidal. “No fim do dia, a intenção é agregar os dados para ter algum cheiro sobre o que vai ser a percepção de PIB do mercado”, afirma.
Nesse sentido, Vidal observa que, na virada de 2021 para 2022, o mercado foi surpreendido com a força da atividade, o que foi observado no indicador, e, agora, novamente os dados têm apontado para uma resiliência maior do desempenho da economia. O Bradesco, inclusive, já estava na ponta mais otimista e, agora, projeta um crescimento de 1,8% em 2023.
“Existe um fenômeno global por trás”, observa o economista-chefe do banco, Fernando Honorato Barbosa. “O que conseguimos fazer nesta altura é identificar que ainda existe um legado da reabertura da economia; uma demanda reprimida por serviços; alguma poupança que foi gerada durante a pandemia… E, aqui no Brasil, a economia teve muitos estímulos, fiscais e monetários; o crédito cresceu uma enormidade; a expansão da renda agrícola é muito forte e tudo isso vai se multiplicando na economia”, elenca.
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Na JGP, o ano que começou com uma expectativa já alta em relação ao consenso, de crescimento de 1,5%, agora contempla uma expectativa de expansão de 2%.
“Existem dois motivos para essa surpresa da atividade, só que são dois motivos meio que previsíveis. O primeiro é a agricultura. As pessoas tendem a subestimar o peso dele porque, no cálculo do PIB, ele pesa apenas 8%. Só que os efeitos indiretos que ele tem na indústria e nos serviços são muito maior. Considerando o agro nesse latu sensu, diria que ele corresponde por algo perto de 30% da economia brasileira”, diz o economista-chefe da gestora, Fernando Rocha.
Ocorre que a safra muito favorável já estava desenhada no fim do ano passado, nota. “As consultorias que estimam isso só vieram melhorando a previsão. O fenômeno La Niña, que provoca seca na Argentina, é bom para as culturas na maior parte do Brasil.”
O segundo fator que pesa na avaliação mais otimista de Rocha é o impulso fiscal. “Também era algo conhecido desde meados do ano passado, quando o Auxílio Brasil [agora novamente Bolsa Família] aumentou de tamanho e viu o valor subir para R$ 600. O orçamento do programa passou de R$ 30 bilhões antes da pandemia para R$ 170 bilhões.”
Uma vez que a safra agrícola se concentra no primeiro trimestre, muitos analistas avaliam que seus efeitos positivos sobre a atividade também se esgotem no começo do ano. Para Rocha, no entanto, o agro ainda é importante no impulso do segundo trimestre. “Existe toda a questão do escoamento e reinvestimento da renda que acontece em abril e maio. É só olhar os dados da balança comercial, que está bem. Juntamente com o impulso das transferências fiscais, que é mais bem distribuído ao longo do ano, a desaceleração fica apenas para o segundo semestre”, diz Rocha.
Visão semelhante é defendida pelo Bradesco. “O agro é o grande ator do primeiro trimestre e podemos ver um cenário em que o PIB cresce e, como isso se dá do lado da oferta, não é algo inflacionário. E, mesmo excluindo a parte agro, a dinâmica de serviços ainda é boa e isso se espalha no segundo trimestre. É o que tem fomentado a nossa expectativa de crescimento de 1,8% neste ano”, diz Vitor Vidal.
“O motivo do crescimento vem, principalmente, do lado da oferta… Não acho que seja muito inflacionário no momento” — José Carlos Carvalho
A Vinci Partners é outra casa que já carrega há algum tempo a expectativa de um PIB mais forte no ano e projeta um crescimento de 2%. “Estamos crescendo mais que o esperado pelas pessoas? Sim, mas o mercado esperava coisas erradas.” diz o responsável pela área de macroeconomia da Vinci, José Carlos Carvalho. “O motivo do crescimento vem, principalmente, do lado da oferta. Claro que a atividade tem mostrado números melhores, mas estamos vendo uma produção agrícola superforte. Não acho que o crescimento seja muito inflacionário neste momento”, defende.
Carvalho lembra que, em 2022, o PIB brasileiro cresceu 2,9%, o que confirma um viés de desaceleração do crescimento. “Esse crescimento de 2% é inferior ao do ano passado. A economia está esfriando. Além disso, esse crescimento não é inflacionário. A produção agrícola está subindo 15% e isso indica um aumento da oferta. É um fator deflacionário. São choques positivos. O mercado estava excessivamente pessimista e, agora, começa a migrar para números próximos dos nossos. O crescimento mais forte não nos causa surpresa.”
Quem também adota uma leitura mais otimista com a inflação é o UBS BB. O economista-chefe do banco, Alexandre de Ázara, avalia que o IPCA vai fechar 2023 em 5%, 0,71 ponto a menos que o consenso do último relatório Focus. Dessa diferença, 0,5 ponto aparecerá nos próximos quatro meses, avalia.
“Minha projeção para o comportamento de serviços é igual a do mercado. O que muda é a parte de alimentação e bens industriais”, diz. Apenas para o primeiro grupo, ele estima alta de 1% de alimentos este ano, contra 4% da Focus. “A safra neste ano foi superboa, não vamos conseguir exportar todo esse excedente e isso exerce uma pressão baixista no Brasil.”
A estimativa para a inflação bem abaixo do consenso do Focus, que também significa uma inércia menor para 2024, é um dos três fatores que devem apoiar um ritmo mais forte de redução da Selic, opina Ázara. Nos cálculos do economista, com a aprovação de um arcabouço fiscal “mais ou menos ajeitado” e a manutenção da meta de inflação em 3%, o modelo usado pelo Banco Central para estimar a trajetória da inflação passaria a indicar ela na meta já na virada do primeiro para o segundo semestre de 2024 e abaixo dela no fim de 2025.
“Se estivermos certos, vai ocorrer uma queda muito firme das projeções. No caso da Selic, a gente acha que existe espaço para um corte de 0,5 ponto em dezembro, em uma trajetória que chega a 9% em setembro do ano que vem, diz.
Carvalho, da Vinci, acredita que há espaço para o BC iniciar o ciclo de queda já em agosto. O economista aponta que a autoridade monetária pode optar por conduzir o desaperto monetário de forma bastante gradual, com movimentos de 0,25 ponto, que levaria a Selic para 12,75% no fim do ano. “Não acho que o BC vai ficar tranquilo com a inflação de serviços, mas é possível começar com cortes pequenos nos juros.”
O Itaú revisou recentemente sua projeção para o PIB do primeiro trimestre de 1,2% para 1%, incorporando a surpresa principalmente com a agricultura, mas também uma maior resiliência da atividade. Caso esse número se confirme nesta quinta-feira (1º), quando o IBGE divulga os dados do PIB, a estimativa para o ano, atualmente em 1,4%, também deve ser elevada, diz a economista Natalia Cotarelli.
Ela ressalta que o índice de surpresa econômica do banco também mostra uma forte aceleração na ponta, principalmente em março e abril. “Houve surpresa principalmente nos indicadores de varejo e serviços às famílias, bem como do mercado de trabalho formal e informal”, diz.
Cotarelli acrescentando que o segundo trimestre também tem mostrado alguma resiliência e lembra que alguns estímulos fiscais estão entrando em vigor neste momento, como o novo valor do salário mínimo e a antecipação do abono salarial.
Fonte: Valor Econômico

