Os fundos multimercados, tradicionalmente vendidos como instrumentos de diversificação e descorrelação de outros ativos, como bolsa, juros e o mercado doméstico, estão cada vez mais expostos aos mesmos fatores de risco do mercado brasileiro. Essa é a principal conclusão de um estudo divulgado pela TAG Investimentos, que analisou o comportamento da indústria entre 2015 e 2026.
O estudo argumenta que antes de 2015 os multimercados apresentavam níveis significativamente menores de correlação com os principais ativos brasileiros. Desde então, porém, a exposição aos chamados fatores de risco do “Kit Brasil” (combinação de bolsa, juros, inflação e dólar) aumentou de forma consistente.
Segundo o levantamento, isso ficou claro no estresse provocado pelo inicio do conflito entre Estados Unidos e o Irã e a disparada do petróleo em março. Naquele mês, o índice IHFA, referência para os multimercados, caiu 3,42%, enquanto mais de 77% dos fundos registraram perdas. Para a TAG, o movimento mostrou que muitos gestores carregavam posições semelhantes em juros, câmbio e ativos domésticos, reduzindo os benefícios da diversificação entre diferentes casas para os investidores.
O tamanho relativo da perda do IHFA diante do choque de março indica ainda ”algo além de azar”, segundo o relatório. O Kit Brasil, composto pelos mesmos fatores de risco e sem gestão ativa, perdeu menos da metade. Na avaliação da gestora, a diferença não estava na descorrelação, mas no maior uso de alavancagem e nas apostas que dependem de o gestor acertar para onde vai o mercado. “A indústria perdeu mais porque carregava exposições maiores aos mesmos fatores de risco, e não porque estava exposta a riscos diferentes.”
“A indústria brasileira de multimercados vende sofisticação e entrega 2/20 sobre um Kit Brasil ligeiramente mais arriscado”, conclui o relatório
A gestora também sustenta que boa parte dos fundos passou a oferecer essencialmente exposição aos mesmos riscos que podem ser obtidos por meio de uma carteira passiva de ativos locais (via ETFs), porém com taxas significativamente mais elevadas. Os multimercados, geralmente, cobram taxa de administração de 2% e 20% sobre o retorno que exceder o índice de referência.
Na avaliação da TAG, apenas uma parcela reduzida dos fundos macro continua entregando estratégias realmente diferenciadas e menos dependentes do comportamento do mercado doméstico.
Evidências
A gestora aponta cinco dados que, em sua visão, devem levar o investidor a repensar “seriamente” a classe de ativos em seu portfolio.
Os cálculos foram feitos sobre 2.091 observações diárias sobre o desempenho desses fundos.
– 81,4%: correlação entre o índice de multimercados (IHFA) versus o Ibovespa no período
Isso significa que os multimercados acompanharam boa parte dos movimentos da bolsa brasileira ao longo dos últimos anos. A análise indica que cerca de dois terços da variação do índice do IHFA pode ser explicada pelo comportamento do mercado de ações, colocando em xeque a tese de descorrelação frequentemente utilizada para vender a classe de ativos.
– 207,8%: retorno do Kit Brasil passivo, enquanto o IHFA rendeu 203,2% e o CDI deu retorno de 191,4%.
O dado sugere que uma estratégia simples e passiva, composta por ativos domésticos tradicionais, foi capaz de superar o desempenho agregado da indústria de multimercados no período. Isso levanta questionamentos sobre o valor efetivamente gerado pela gestão ativa, especialmente diante das taxas cobradas pelos fundos, tradicionalmente de 2% (taxa de administração) mais 20% sobre o que exceder o índice de referência (taxa de performance).
– Apenas 32% dos fundos do IHFA conseguiram bater o CDI nos últimos 48 meses
O percentual revela a dificuldade da indústria em entregar retorno ajustado ao risco superior ao índice de referência mais utilizado pelo investidor brasileiro, o CDI. Em momentos de estresse, a situação se agrava: em março, quase 80% dos fundos encerraram o mês no vermelho, mostrando que a proteção prometida nem sempre se materializa quando os mercados passam por turbulências.
– 0,72%: correlação média entre IHFA × Kit Brasil pós-2015
Houve picos de 0,90 e vales de 0,40. Atualmente, está em 0,83. Quanto mais próximo de 1, maior a semelhança entre os comportamentos. O nível atual indica que os multimercados estão fortemente alinhados aos fatores de risco tradicionais da economia brasileira, reforçando a percepção de que a diversificação oferecida pela indústria diminuiu ao longo do tempo.
– +40 pontos porcentuais foi o salto na correlação a partir de 2015
Antes disso, a relação entre multimercados e Kit Brasil girava em torno de 0,27 e chegou a registrar episódios de correlação negativa, quando os fundos efetivamente funcionavam como instrumento de diversificação. Desde então, a correlação passou a oscilar em um patamar muito mais elevado, entre 0,65 e 0,93, sugerindo uma mudança estrutural no comportamento da indústria e uma perda gradual da descorrelação que marcou o segmento em seus primeiros anos.
Resistência a mudanças
Outro ponto levantado é que a indústria brasileira teria dificuldade para se adaptar às mudanças recentes do mercado global.
O estudo cita a predominância de estratégias macro tradicionais, forte dependência de apostas em convergência econômica e pouca renovação geracional nas equipes de gestão.
“A paisagem dos multimercados brasileiros não mudou: continuam vendendo o mesmo livro, com os mesmos times, pela mesmas taxas. O que precisa mudar são os olhos com que olhamos para essa paisagem. Os dados não mentem! A próxima década pede coragem para reformar uma classe que se acomodou.”
Muitos gestores brasileiros continuam investindo como se o mundo funcionasse da mesma forma que funcionava nas últimas décadas, apostando que os preços sempre voltarão para a média histórica. O problema é que o mundo pode estar passando por transformações estruturais que tornam essas referências do passado menos úteis, como:
- Inteligência artificial reduzindo custos de mão de obra;
- Tensões geopolíticas alterando permanentemente rotas comerciais;
- Novas tecnologias descentralizando a geração de energia.
Se essas mudanças forem permanentes, os preços podem não voltar aos níveis históricos que os gestores esperam, diz a TAG.
Imagine um gestor que acredita que os juros reais no Brasil estão excessivamente altos e vão cair rapidamente. Ele compra títulos apostando nessa queda. Mas, se uma mudança estrutural mantém a inflação elevada por mais tempo, os juros podem continuar altos. Nesse caso, o gestor fica preso a uma aposta que fazia sentido olhando para o passado, mas não para o novo cenário.
Para a TAG, os gestores que conseguiram preservar a descorrelação nos últimos anos foram justamente aqueles que revisaram seus modelos e passaram a incorporar novas abordagens quantitativas e tecnológicas.
Vale a pena investir?
Com base nas conclusões, a gestora afirma ter reduzido sua recomendação para multimercados ao nível mínimo permitido em suas carteiras.
“Após o estudo e amplos debates internos, mudamos o nosso termômetro de alocação (que vai de -2 até +2, com neutro em 0), da neutralidade para o ponto mínimo, -2. A indústria necessita dar sinais de reformas profundas para que nosso posicionamento mude no futuro.”
A gestora defende que o futuro da classe de ativos passa por uma combinação de fundos multimercados globais e uma seleção mais restrita de gestores locais capazes de gerar alfa sem depender do desempenho do mercado brasileiro.
Fonte: Estadão