O Estreito de Hormuz permanecia fechado na sexta-feira (10) e Israel trocou tiros com o Hezbollah no Líbano, o que tanto os Estados Unidos quanto o Irã descreveram como violações de seu acordo de cessar-fogo na véspera de suas primeiras negociações de paz da guerra.
O cessar-fogo, com dois dias de duração, interrompeu a campanha de ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã. Mas, até agora, não fez nada para encerrar o bloqueio do estreito, que causou a maior interrupção já registrada no fornecimento global de energia, nem para acalmar uma guerra paralela travada por Israel contra os aliados do Irã, o Hezbollah, no Líbano.
O exército israelense informou no início de sexta-feira que atingiu 10 lançadores no Líbano que dispararam foguetes em direção ao norte de Israel na noite de quinta-feira, e que o Hezbollah, aliado do Irã, lançou um míssil contra Israel, acionando sirenes de alerta.
O Hezbollah afirmou ter atingido infraestrutura militar israelense na cidade de Haifa, no norte. O grupo armado havia inicialmente indicado que pausaria os ataques em conformidade com o cessar-fogo, mas anunciou que retomaria os combates após os ataques israelenses de quarta-feira.
Um alto funcionário libanês disse à Reuters que o Líbano passou o dia pressionando por um cessar-fogo temporário para permitir negociações mais amplas com Israel, descrevendo o esforço como um “caminho separado, mas com o mesmo modelo” da trégua entre EUA e Irã.
Um funcionário do Departamento de Estado dos EUA confirmou que os Estados Unidos sediarão uma reunião na próxima semana para “discutir as negociações de cessar-fogo em andamento”.
O Irã estava fazendo um “péssimo trabalho” ao permitir a passagem de petróleo pelo estreito, disse o presidente dos EUA, Donald Trump, em uma publicação nas redes sociais durante a madrugada. “Esse não é o acordo que temos!” Em outra publicação, ele disse que o petróleo voltaria a fluir, sem explicar como.
Impasse no Líbano
O Irã, por sua vez, descreveu os ataques israelenses em andamento no Líbano como uma violação da trégua. As forças israelenses lançaram o maior ataque da guerra horas após o anúncio do cessar-fogo, matando mais de 250 libaneses em ataques surpresa em áreas densamente povoadas.
O Irã afirma que a trégua deveria se aplicar ao Líbano, posição inicialmente apoiada pelo Paquistão, que mediou o acordo. Israel e os EUA dizem que o Líbano não está incluído no cessar-fogo entre EUA e Irã. No entanto, em uma mudança de posição na quinta-feira (9), Israel disse que abriria negociações separadas com o governo libanês com o objetivo de encerrar a guerra no país e desarmar o Hezbollah.
As acusações mútuas de violações parecem improváveis de inviabilizar as primeiras negociações de paz planejadas entre EUA e Irã, previstas para começar na capital paquistanesa, Islamabad, a partir de sábado (11).
O centro de Islamabad foi colocado em bloqueio total devido a um feriado público anunciado às pressas, com um perímetro de segurança estabelecido para uma “zona vermelha” de 3 quilômetros ao redor de um hotel de luxo, de onde todos os hóspedes foram retirados para dar lugar às duas delegações.
Autoridades paquistanesas mantiveram sigilo sobre o horário exato da chegada da delegação iraniana, que será liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf. Uma fonte envolvida nas negociações disse que a força aérea paquistanesa escoltaria o avião dos iranianos. A delegação dos EUA, liderada pelo vice-presidente JD Vance, deve chegar a tempo do início das negociações no sábado.
Sem passagem
O cessar-fogo trouxe a expectativa de que o petróleo do Oriente Médio volte a fluir e reduziu os preços de referência baseados em entregas futuras de um mês. No entanto, os preços para entrega imediata ainda não caíram, e algumas refinarias na Europa e na Ásia estão pagando preços recordes próximos de US$ 150 por barril.
Nas primeiras 24 horas do cessar-fogo, apenas um navio-tanque de derivados de petróleo e cinco graneleiros atravessaram o estreito, que normalmente transporta cerca de 140 embarcações por dia.
Embora Trump tenha declarado vitória, a guerra não atingiu os objetivos que ele estabeleceu no início: privar o Irã da capacidade de atacar seus vizinhos, desmantelar seu programa nuclear e facilitar que sua população derrubasse o governo.
O Irã ainda possui mísseis e drones capazes de atingir seus vizinhos e um estoque de mais de 400 kg de urânio enriquecido próximo ao nível necessário para produzir uma bomba. Seus líderes teocráticos, que enfrentaram um levante popular poucos meses atrás, resistiram ao ataque sem sinais de oposição organizada.
A agenda do Irã nas negociações agora inclui demandas por grandes concessões, incluindo o fim das sanções que prejudicaram sua economia por anos e o reconhecimento de sua autoridade sobre o estreito, onde pretende cobrar taxas de trânsito e controlar o acesso — o que representaria uma grande mudança no equilíbrio de poder regional.
Seu novo líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, que ainda não apareceu em público desde que assumiu o lugar de seu pai morto no primeiro dia da guerra, divulgou uma declaração desafiadora na quinta-feira, afirmando que o Irã exigirá compensação por todos os danos de guerra. “Certamente não deixaremos impunes os agressores criminosos que atacaram nosso país”, disse.
Os EUA, por sua vez, querem que o Irã abra mão do urânio, abandone o enriquecimento adicional, desista de seus mísseis e encerre o apoio a aliados regionais — exigências antigas remanescentes de negociações que Trump abandonou dois dias antes de iniciar a guerra.
Israel negocia
O anúncio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, na quinta-feira, de que havia dado instruções para iniciar negociações de paz com o Líbano o mais rápido possível marcou uma mudança, após ele ter rejeitado no mês passado pedidos libaneses por negociações diretas.
“As negociações se concentrarão no desarmamento do Hezbollah e no estabelecimento de relações pacíficas entre Israel e o Líbano”, disse Netanyahu.
Israel invadiu o Líbano no mês passado em perseguição ao Hezbollah, depois que o grupo disparou contra Israel em apoio ao Irã. Cerca de um quinto dos libaneses foi forçado a deixar suas casas pela invasão israelense, com tropas buscando ocupar toda a faixa sul do país.
Fonte: Valor Econômico