Por Fernanda Guimarães — De São Paulo
04/07/2023 05h03 Atualizado há 4 horas
Depois de um início de ano bastante fraco para a atividade de mercado de capitais no Brasil, a leitura de que o ciclo de corte de juros começará a partir de agosto fez com que um grupo de companhias tirasse da gaveta planos para levantar capital, o que ajudou a melhorar o retrato da primeira metade de 2023. Com a tração vista nas últimas semanas, o volume de ofertas de ações chegou a R$ 15,4 bilhões no primeiro semestre, com um total de dez empresas indo a mercado, mas ainda sem nenhuma oferta inicial (IPO, na sigla em inglês).
Com o impulso observado em junho, o volume financeiro das ofertas ficou mais próximo ao visto em mesmo intervalo do ano passado, quando foi registrado um montante de R$ 18 bilhões, se excluindo Eletrobras, operação que distorce os dados. Nesse período de 2022, foram um total de 13 ofertas. No entanto, no segundo semestre do ano passado o mercado perdeu ritmo, dada a volatilidade diante das eleições presidenciais no Brasil. Com isso, na segunda metade do ano passado foram precificadas apenas mais seis ofertas, que juntas somaram cerca de R$ 6 bilhões. Neste ano a tendência é oposta, com o otimismo direcionado para os próximos meses.
O volume neste ano irá ganhar um impulso de peso neste mês, segundo fontes, com a oferta da Copel, esperada em girar até R$ 5 bilhões e, ainda, a da BRF, estimada em R$ 4,5 bilhões. A Hidrovias do Brasil também lançará seu “follow-on”, para o início do desinvestimento do fundo Pátria, conforme fontes. Com isso, o valor já superará o de 2022 – também se excluindo Eletrobras. Até o momento, as decisões para os IPOs seguem em compasso de espera, muito embora exista uma expectativa na Faria Lima de que algumas transações ocorrerão no último trimestre do ano.
Com a melhora de cenário, as transações também começaram a mudar de perfil, com mais companhias buscando capital para fazer frente ao “capex”. Apenas na semana passada, por exemplo, as captações de Localiza e Direcional tinham como viés reforçar o caixa para investir. Nas demais, foram vistas transações para ajudar a ajustar o balanço, exemplo de Hapvida, Dasa e CVC. Também foram observadas transações para dar saída a fundos de private equity (que compram participação em companhias), caso de Orizon, Oncoclínicas e Smartfit. A oferta de Hidrovias também terá esse pano de fundo.
“Empresas estão começando a tirar da gaveta projetos de investimento e as captações vão acontecer. Primeiro estamos vendo os ‘block trades’ [vendas por meio de leilão em bolsa] e ‘follow-ons’, mas mantido o cenário começaremos a ver os IPOs”, afirma o coresponsável pelo banco de investimento do Bank of America no Brasil, Bruno Saraiva. Segundo o executivo, serão observadas nos próximos meses mais ofertas com o objetivo de “dar combustível ao balanço e para suportar planos de investimento”.
Para o responsável pelo banco de investimento do Bradesco BBI, Felipe Thut, o ritmo de emissões de ações deve se manter mais aquecido. “Embora os juros ainda não tenham sido cortados, a taxa de longo prazo já mostra queda e o Ibovespa começa a refletir isso”, confirma.
O pano de fundo tem ajudado a dar mais gás às operações. O chefe da área de renda variável do Citi, Marcelo Millen, diz que o conjunto de elementos macro, somado à aprovação do arcabouço fiscal e a expectativa da votação da reforma tributária, também ajudaram a convergir os humores para uma retomada da atividade. “Vemos um grande número de ‘follow-ons’, vai ter muita coisa”, afirma. O responsável pelo banco de investimento do Citi, Eduardo Miras, diz que as conversas estão mais construtivas com as companhias, com muitas voltando a se preparar também para um IPO. “Elas estão sentindo a temperatura e tirando o pó dos planos de ofertas.”
Responsável pela área de renda variável do banco de investimento da XP, Vitor Saraiva ressalta que os primeiros movimentos também estão sendo observados por aquelas empresas que registraram valorização em bolsa, algo que deve seguir motivando outras transações. E, somado a isso, as últimas ofertas, avaliadas como bem-sucedidas, devem ajudar a puxar a fila para mais follow-ons.
“Isso tem animado as companhias a falarem mais efetivamente sobre ofertas”, diz o executivo da XP. Segundo Saraiva, há muitas conversas em andamento no momento e a leitura é a de que mais operações devem vir a mercado de um a dois meses.
Fonte: Valor Econômico


