As eleições são em outubro, mas o “calor” da disputa chegou mais cedo que o de costume às mesas de operação e deixou mais instável o cenário já definido pela incerteza global, de acordo com especialistas ouvidos pelo Valor Investe. O fluxo de capital externo beneficiou o Brasil até agora – mas há quem diga que o cenário pode mudar, a depender do resultado que sair das urnas.
Sem definição sobre as candidaturas e quem será o principal nome na oposição ao governo Lula, as duas hipóteses são, por ora, de continuidade ou de mudança da política econômica. E o banco americano Morgan Stanley já delineou uma estratégia para navegar o ano eleitoral, com grupos de ações que devem se beneficiar em cada um dos casos.
No caso de mudança, as empresas ligadas a investimentos financeiros e produtivos, como bancos, fintechs, infraestrutura e energia, seriam as mais beneficiadas. Na outra hipótese, de continuidade, se sairiam melhor as empresas com receitas em moedas fortes, como as exportadoras, empresas defensivas, resilientes a ciclos econômicos recessivos, além de financeiras que se beneficiam de juros altos. Confira as listas com 15 empresas para cada um dos cenários no final da reportagem.
O que o mercado espera das eleições de 2026?
O mercado está “brincando com fogo” ao não trabalhar com o cenário de reeleição do atual presidente como tendência, afirma Matheus Spiess, analista de macroeconomia da Empiricus. Há um esforço de fazer preços com a chance de ajuste fiscal em 2027, o que estimularia um rali das ações e títulos brasileiros, ainda consideradas baratas pelo investidor estrangeiro.
Na sua leitura, o mercado espera a definição da candidatura de oposição e trabalha com um cenário dividido. “Ele não colapsa agora porque entende que algum ajuste fiscal será feito, nem que seja um ‘puxadinho’ ou uma gambiarra para empurrar o problema para 2031”, diz Spiess.
O entendimento é que a totalidade do gasto público brasileiro estará atrelado a gastos obrigatórios no próximo mandato presidencial, se nada for feito. “Ou você reforma, ou você reforma. A dúvida é se esse ajuste será feito com mais ou menos convicção.”
A grande distância entre cenário pessimista e otimista
Para o Morgan Stanley, a diferença entre as duas opções não é nada desprezível. O Brasil tem uma enorme “assimetria entre risco e retorno”, de acordo com o banco, com uma larga diferença entre os resultados dos cenários otimista e pessimista.
No cenário neutro, o principal índice de ações da bolsa brasileira, o Ibovespa, deve subir 21% em 2026 e chegar a 200 mil pontos.
No cenário otimista, com suporte de uma redução da taxa básica de juros no primeiro trimestre e uma potencial mudança de política econômica em outubro, o índice registraria alta de 46% e chegaria a 240 mil pontos no ano. A mudança acionaria um “rebalanceamento” da bolsa, e atrairia muitos investidores estrangeiros.
Do outro lado, no cenário pessimista, o índice da bolsa cairia 42%, contraindo-se para 95 mil pontos. A recessão seria “resultado de um forte impulso fiscal ao longo de 2026 e da continuidade da política que mantém a incerteza fiscal elevada”, com impacto na geração de caixa das empresas a partir do final do ano.
O que dizem as pesquisas de intenção de voto?
Há pouca margem para o fortalecimento de qualquer candidatura de oposição ao governo a esta altura, afirma Dalson Figueiredo. cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco. Na sua avaliação, a rejeição à família Bolsonaro é elevada e o clã político resiste a “passar o bastão” para outra candidatura mais competitiva, como a de Tarcísio de Freitas ou Ratinho Júnior. “Se Flávio não decolar, a direita terá que se organizar, mas não vejo possibilidade técnica de reversão baseada nos dados de hoje. O mais provável é que Lula seja eleito e com uma chance não desprezível de vitória no primeiro turno”, diz.
Para ele, muito mais nebuloso é o que acontecerá no pós-eleições. O presidente chegaria a um quarto mandato com idade avançada, um legislativo provavelmente pouco renovado e empoderado pelas emendas parlamentares, e em conflito com o Supremo Tribunal Federal (STF). A governabilidade do novo governo em uma eventual reeleição seria, por isso, um desafio.
O que esperar até outubro?
O gestor de multimercados Luiz Henrique Guerra, da Logos Capital, prevê “muito estresse” pela frente até, e talvez após, as eleições. Abril e setembro serão meses decisivos para o humor do mercado, na sua leitura. No primeiro, haverá a definição de quem concorrerá contra Lula como principal nome da oposição — se Flávio Bolsonaro, Ratinho Júnior ou mesmo Tarcísio. Em setembro, o resultado do pleito deve ganhar contornos mais claros e os preços serão pautados pelos cenários de reeleição ou mudança.
“Se o Lula for reeleito, vai estressar o câmbio e a bolsa vai cair na hora. O ajuste fiscal viria pela inflação. Não seria difícil ver o dólar entre R$ 6,5 e R$ 7”, prevê Guerra. Com um porém: “o cenário externo sempre predomina. Se o dólar estiver fraco no mundo e houver liquidez global, isso segura o Brasil mesmo com erros domésticos”.
Ele entende que o investidor estrangeiro “tem outra visão do Lula”, enquanto os brasileiros guardam um viés (“home-bias”) no qual “sempre achamos que a coisa vai ser mais traumática”. Em contrapartida, “o estrangeiro olha para o mundo todo e vê que o Brasil não está tão mal em termos relativos”, afirma o gestor.
Como navegar o ano eleitoral?
Para o Morgan Stanley, as ações que mais se beneficiariam de uma mudança de política econômica são as empresas ligadas a ciclos de investimentos financeiros e produtivos. A seleção do banco incluiu:
- Mercado Libre (MELI34)
- Petrobras (PETR3; PETR4)
- Nubank (ROXO34)
- XP Inc. (XPBR31)
- Axia Energia (AXIA3)
- Banco do Brasil (BBAS3)
- B3 (B3SA3)
- BTG Pactual (BPAC11)
- Equatorial (EQTL3)
- Vibra Energia (VBBR3)
- Rumo (RAIL3)
- Cyrela (CYRE3)
- Motiva (MOTV3)
- Energisa (ENGI11)
- Vivara (VIVA3)
Do outro lado estão as ações ligadas à continuidade da política, na qual o modelo econômico do Brasil “permanece impulsionado pelo estímulo fiscal”. Para o banco, é o caso de empresas cujas receitas são em moedas fortes, como o dólar; empresas financeiras que se beneficiam de taxas de juros elevadas; e telecomunicações defensivas, menos expostas aos ciclos econômicos. A seleção incluiu:
- Vale (VALE3)
- Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4)
- Embraer (EMBJ3)
- Gerdau (GGBR4)
- JBS (JBSS3)
- Copel (CPLE3)
- Suzano (SUZB3)
- Prio (PRIO3)
- Raia Drogasil (RADL3)
- TIM (TIMS3)
- Telefônica Brasil (Vivo) (VIVT3)
- BB Seguridade (BBSE3)
- Klabin (KLBN11)
- Porto Seguro (PSSA3)
- Caixa Seguridade (CXSE3)
O mercado parece apostar na mudança de política, escreveu o banco, em vista da performance superior deste grupo desde janeiro de 2025 (variação de 59%), quando comparado ao de ações ligadas à continuidade (variação de 47%).
Matheus Spiess, da Empiricus, recomenda uma estratégia de “defesa ativa” para atravessar o cenário eleitoral. Ele vê boas oportunidades na bolsa, mas também sugere alocar parte da carteira em ouro e ativos em moedas fortes, como “hedge” (proteção) a eventuais oscilações bruscas na bolsa.
Fonte: Valor Investe

