Critérios como o conhecimento profundo do setor perdem força nas escolhas em prol de familiaridade com diversas indústrias
Por Jacílio Saraiva — De São Paulo
18/03/2024 05h02 Atualizado há 7 horasPresentear matéria
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Os processos de busca de CEOs estão mudando. Antes focados apenas na folha corrida de experiências dos executivos, agora os recrutadores analisam os objetivos do candidato como profissional, as habilidades que estará disposto a desenvolver e a capacidade de agregar inovação à empresa. Qualidades como a familiaridade com diversas indústrias e departamentos corporativos, como comercial e recursos humanos, ganham força nas seletivas; enquanto critérios antes vistos como excludentes, como faixa etária e conhecimento profundo do setor de contratação, perdem tração.
“Hoje, o principal desafio [nas seleções] está em não olhar apenas para o passado do CEO ou o que já fez na carreira, mas que tipo de desafio o engajará, quais competências ele vai levar [para a companhia] e que novas práticas deseja adquirir”, diz Paulo Dias, diretor da Page Executive, unidade de negócio do PageGroup especializada no recrutamento de executivos para a alta direção.
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Em 2023, a empresa conduziu mais de 20 processos de colocação de CEOs em oito setores, como saúde, energia e logística. Atualmente 20% das posições abertas na empresa de recrutamento são para dirigentes de organizações.
Dias afirma que também ganhou peso nos mapeamentos o conhecimento sobre diferentes indústrias e departamentos nas corporações. “Profissionais que tiveram sucesso em companhias diversas, em mais de um setor, mostram capacidade de adaptação e entendimento macroeconômico”, explica. “Eles compreendem a realidade de uma corporação por terem passado por áreas como finanças, marketing, comercial, RH e operações. Executivos [com esse perfil] são mais ágeis e flexíveis.”
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Por outro lado, o headhunter analisa que caiu em desuso nas escolhas critérios antes “sagrados”, como idade e tempo de experiência. “As empresas têm percebido que podem se beneficiar tanto de líderes mais novos como mais maduros”, revela. “Os experientes podem contribuir em determinadas situações, evitando que as companhias corram riscos desnecessários, enquanto os jovens são disruptivos e questionam o ‘status quo’ das operações.”
Mas o consultor destaca que para desempenhar bem a função, algumas características continuam no centro das entrevistas. “É preciso ter visão estratégica, saber identificar tendências, como a inteligência artificial; e mostrar habilidade de liderança, para engajar os funcionários nas metas propostas”, relata. “Ainda conta muito ter uma comunicação transparente e capacidade de gerenciar mudanças.”
Em poucos minutos de conversa, essas qualidades foram facilmente identificadas no executivo Renato Franklin, 43 anos, atual CEO da Casas Bahia, contratado pela varejista em maio de 2023. “Fui convidado pelo conselho de administração por meio de um headhunter, com a missão de trazer disciplina de alocação de capital, compromisso com a rentabilidade e geração de valor”, afirma.
Antes de assumir a direção da empresa de 30 mil funcionários, o estreante em redes de varejo foi CEO da Movida, de locação de veículos, por nove anos; ficou por mais de dez na mineradora Vale e acumulou passagens pelo Banco Rural e a Suzano, do setor de celulose. Para dar conta de um posto de comando, ele acredita que é preciso jogo de cintura para tomar decisões difíceis e ter uma rápida adaptação às mudanças de mercado.“É fundamental ser orientado para resultados e ter empatia por colaboradores e clientes”, acrescenta. “Um CEO bem-sucedido é um bom ouvinte, aberto a feedbacks construtivos, e sabe como cultivar um ambiente colaborativo.”
Com menos de um ano na posição, Franklin tem se dedicado a “entrar no coração” da companhia, que anunciou no ano passado um plano de transformação com mais de 170 “alavancas” para aumentar a eficiência operacional – o que inclui renegociação de dívidas, redução de estoques antigos para a melhoria do capital de giro e fechamento de pontos com margem de contribuição negativa.
“Desde que assumi, realizei reuniões individuais e em grupo com membros-chave da equipe executiva, líderes de departamentos e funcionários”, detalha Franklin. “Esses encontros têm sido uma oportunidade para compreender os desafios enfrentados e compartilhar a minha visão para o futuro da empresa.”
As empresas valorizam formas mais abrangentes de gerar valor”
— Rodrigo Forte
A nova rotina inclui visitas às unidades das Casas Bahia no país e exposição nas redes sociais. “Na última Black Friday, participei da live que fizemos, ajudando a levar os clientes para as lojas”, lembra. “Quando cheguei [na empresa], tive bastante preocupação com os desafios de curto prazo, agravados pelo cenário macroeconômico. Após oito meses no cargo, estou impressionado com a capacidade de execução dos times e o andamento do plano de transformação.”
Na avaliação de Rodrigo Forte, managing partner da Exec, de seleção e desenvolvimento de altos executivos, o fato de o novo CEO da Casas Bahia não ter lastro no varejo só conta pontos para ele. Nos últimos anos, os headhunters ampliaram a abordagem na busca por talentos, reconhecendo que os candidatos podem vir de diferentes setores e não precisam ter, necessariamente, experiência em uma indústria específica, diz.
“Por exemplo, o substituto do CEO da Vale pode ser encontrado fora do campo da mineração, a depender do que a empresa precise para o próximo ciclo”, compara ele, referindo-se ao processo de sucessão na mineradora, assunto que tem movimentado o mercado recrutador nas últimas semanas.
Forte diz que as seletivas para o C-level priorizam mais a diversidade de experiências com o intuito de trazer inovação e resiliência às organizações, enquanto as conquistas financeiras obtidas pelos candidatos durante a carreira não “brilham” como antes. “Embora os resultados sejam essenciais, a ênfase exclusiva nesse aspecto está perdendo relevância. As empresas valorizam qualidades de liderança e formas mais abrangentes de gerar valor.”
A Exec ajudou a contratar “mais de 25 CEOs” em 2023, com destaque para os nichos de varejo, bens de consumo, agronegócio e indústria, segundo o executivo. Em 2024, até a primeira quinzena de fevereiro, pelo menos quatro colocações estavam em andamento.
Fonte: Valor Econômico
