Embora as projeções sejam de crescimento, preocupação das empresas é aumentar a eficiência, diante de um cenário ainda desafiador
Por Genilson Cezar
29/09/2023 05h10 Atualizado há 5 horas
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Para fazer frente às projeções de aumento entre 3% e 3,5% na demanda por transporte de mercadorias, acima do avanço previsto de 2,3% para o Produto Interno Bruto (PIB), as transportadoras buscam mais eficiência e produtividade – sem perder de vista cenários econômicos ainda desafiadores. Os custos operacionais seguem impactados pelos preços dos insumos e por mudanças regulatórias, reclamam os empresários. “Por isso, manter a qualidade dos serviços, com diferenciais tecnológicos é o caminho de gerar maior valor aos clientes”, destaca João Naves, fundador e presidente do Grupo Rodonaves, um dos principais no setor de transporte e logística no Brasil.
Segundo ele, 2023 tem sido um período de crescimento para todo o grupo, formado por seis unidades de negócios, com matriz em Ribeirão Preto (SP), e mais de dez mil colaboradores nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste. A RTE Rodonaves, empresa de transporte de carga fracionada do grupo, por exemplo, ampliou o faturamento do primeiro semestre em 21%, em comparação ao primeiro semestre de 2022. A receita bruta do grupo neste ano atingiu R$ 1 bilhão, aumentando 41% em relação ao mesmo período de 2022.
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Os números, segundo Naves, refletem a estratégia de aumentar a capilaridade e ampliar a gama de serviços com novos centros de transferência de cargas e unidades de atendimento em diferentes regiões do país. Pelo menos R$ 42,5 milhões estão sendo investidos na ampliação da operação de transporte e logística no Sul, e novos centros de distribuição foram inaugurados em Irajá, Chapecó e Curitibanos, em Santa Catarina. “Até 2025, devemos investir mais R$ 150 milhões para expandir a estrutura da companhia no Sudeste, considerada estratégica”, relata.
Os negócios desenvolvidos pela Asia Shipping, multinacional brasileira que atua com foco no transporte de cargas fracionadas, também está apresentando resultados satisfatórios neste ano, informa Ricardo Tavares, diretor de contract logistics. “Ao todo, em 2023, já somamos 11 mil processos de transporte de carga nos vários segmentos em que atuamos – indústrias de transformação, comércio, automotivo e construção –, contabilizando mais de 700 clientes”, conta. “Para 2024 nossa expectativa é crescer em torno de 15% no transporte de cargas fracionadas”, diz Tavares.
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Para o Grupo Sada, conglomerado de empresas criado em Betim (MG), com atuação em transportes, operação e armazenagem para o setor automotivo, a eficiência operacional, de fato, é o principal desafio na geração de resultados. “Essa equação passa por conseguir melhorias de processos, pessoas e tecnologia que compensem os aumentos gerados por ineficiências estruturais que temos em nosso país”, avalia Luis Roberto Santamaria, diretor-executivo de transporte e logística do grupo.
Nesse sentido, o cenário atual não permite previsões definitivas, assinala ele. “O setor de transporte e logística automotiva está diretamente ligado às perspectivas do mercado automotivo na região. Assim, nossas previsões se baseiam naquilo que esse setor provisiona”, diz. “Estudos mostram que a previsão global de vendas de automóveis só retornará ao nível pré-pandemia em 2024. Mas esse cenário no Brasil dependerá muito do cenário macroeconômico e, principalmente, da queda de juros e oferta de crédito”, afirma.
Responsável por mais de 60% da movimentação de cargas do Brasil, que representa cerca de R$ 900 bilhões, o transporte rodoviário de carga enfrenta desafios que não asseguram completo otimismo, avalia Mauricio Lima, sócio-diretor do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos). “A demanda está alta, mas os custos ainda estão elevados, e existem também dificuldades para compra de novos caminhões”, diz. “Para que o otimismo se torne real é preciso uma queda razoável da taxa de juros”, afirma.
Francisco Pelucio, presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), que representa empresas transportadoras de carga e de logística, considera positivo o desempenho do setor. Mas aponta preocupação, por exemplo, em relação a questões regulatórias que impactam diretamente os operadores. É o caso, segundo ele, da recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que declarou inconstitucional 11 pontos da Lei dos Caminhoneiros (Lei 13.103/2015), referentes a jornada de trabalho, pausas para descanso e repouso semanal.
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“Trata-se de uma legislação que vinha sendo seguida desde 2015, e alterações significativas agora impactam a produtividade e podem gerar passivos pesados nos próximos anos”, diz Eduardo Ghelere, diretor-executivo da Ghelere Transportes, sediada em Cascavel (PR), que atua no transporte de produtos manufaturados, com mais de 200 veículos. Neste ano, a empresa investiu R$ 50 milhões na compra de mais de 50 veículos novos padrão Euro 6, semirreboques, e sistemas novos de telemetria para carreta, atualizando os sistemas de controle via imagem.
Outro desafio das transportadoras é em relação ao preço do frete, que estaria defasado em 12%, de acordo com os dados da NTC&Logística. “Os aumentos de preços dos combustíveis e a variação do dólar tornam necessário um reajuste imediato nos preços do frete para reduzir o impacto negativo nos custos”, defende Roberto Mira Junior, presidente do Grupo Mira Transportes, que opera no segmento de cargas fracionadas nas regiões Centro-Oeste e Norte.
O esforço das transportadoras passa também pelo aumento de participação em contas ou nichos de negócios de maior lucratividade. A Localfrio, de São Paulo, especializada no transporte e armazenagem de medicamentos, cosméticos, equipamentos médicos e hospitalares, decidiu aumentar sua participação no transporte das chamadas cargas oversize – cargas superdimensionadas, principalmente projetos eólicos e industriais. “Desenvolvemos soluções para conquistar novas contas em segmentos importantes, como celulose, eólicos e industrial, máquinas e equipamentos, módulos solares e químico”, conta Rodrigo Casado, CEO da Localfrio. “No primeiro semestre chegamos a R$ 329,9 milhões de receita e a expectativa é fechar 2023 com um crescimento de 20%”, afirma.
A Brink’s Brasil, subsidiária brasileira do grupo norte-americano, reconhecida em logística e transporte de valores, fortaleceu suas operações no segmento de carga de alto valor, com expansão dos contratos nos setores farmacêutico e de luxo, relata Marcelo Caio Bartolini D’Arco, CEO da empresa no país. O executivo não comenta resultados no mercado brasileiro, mas indica que as receitas globais da Brink’s no primeiro semestre de 2023 apresentaram crescimento de 9%, algo em torno de US$ 2,4 bilhões, com lucro bruto de US$ 259 milhões.
No Brasil, segundo ele, a estratégia de expansão passa por investimento em inovação e melhoria da experiência do cliente. “Estamos finalizando a implementação de uma nova plataforma omnichannel e um processo de autoaendimento para novas cotações dos clientes de varejo”, diz D’Arco.
A Modern Logistics, sediada em Jundiaí, também investe na diversificação de suas operações, relata Cristiano Koga, CEO da companhia. “O objetivo é ser o primeiro operador de logística integrada a contar com um armazém de atendimento ao setor de medicamentos em um terminal doméstico aéreo”, informa.
A empresa está preparando a infraestrutura do terminal de carga aérea no Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), com investimentos de R$ 500 mil, para atender clientes do setor de medicamentos e para transporte de cargas de alto valor dos segmentos industrial, automotivo, tecnologia, cosmético, confecção e eletrônicos. O armazém tem capacidade de 840 posições-palete e está preparado para atender carga tanto para embarque aéreo quanto recebimento de carga para distribuição rodoviária, além de armazenagem.
Fonte: Valor Econômico