Por Fernanda Guimarães, Juliana Schincariol e Rodrigo Carro — De São Paulo e do Rio
14/03/2023 05h01 · Atualizado há 4 horas
Em outubro de 2021, em uma de suas raras aparições públicas, Miguel Gutierrez, que comandou a Americanas por duas décadas, demonstrou o porquê de seus conhecidos o retratarem como uma “figura muito discreta”. Em um longo evento da varejista, que durou cerca de cinco horas e para o qual foi adotado um formato híbrido, o executivo optou por uma participação por vídeo. Seu discurso durou nem dois minutos. Nos momentos em que apareceu, vestido com uma blusa preta, gorro e crachá corporativo, os olhos buscavam no ‘teleprompter’ as frases do discurso.
Apesar do título de “low profile”, Gutierrez nunca chamou a atenção de tanta gente. Deixou o comando da varejista em dezembro e, poucos dias depois, seu sucessor Sérgio Rial anunciou um rombo contábil de R$ 20 bilhões na companhia.
Sua gestão em uma das maiores varejistas do país vai passar pelo escrutínio dos reguladores e provavelmente da Justiça. Nesta quinta-feira, Gutierrez vai depor sobre o caso na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Rial, que ficou no cargo de CEO da Americanas por apenas nove dias, deixou claro que as “inconsistências no balanço” se tratavam de práticas antigas. “Não sei se são sete, oito, dez anos. Mas certamente não são dois e três”, disse Rial, a investidores e analistas, em 12 de janeiro, um dia depois do fatídico fato relevante informar o rombo de R$ 20 bilhões, que fez eclodir uma crise sem precedentes na varejista.
Executivo depõe na Comissão de Valores Mobiliários nesta quinta-feira sobre rombo contábil de R$ 20 bi
A divulgação do fato relevante teria pego Gutierrez de surpresa, diz uma fonte próxima ao executivo. Sua saída da Americanas teria sido combinada desde 2019 e a expectativa era de que prepararia um sucessor, provavelmente um dos diretores estatutários, um de seus nomes de confiança. Mas o acerto foi pelo ex-presidente do Santander. A chegada de Rial foi anunciada em meados de 2022.
Ter seu nome nos holofotes vai na direção contrária de tudo o que construiu em sua carreira. Gutierrez é uma pessoa discreta, fechada e objetiva, segundo pessoas que conviveram com o executivo. Chegou na empresa no início de seus 30 anos, poucos anos depois da varejista ter sido adquirida pelo trio Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, antes de criarem a gestora 3G, que abarca muitos de seus negócios.
Era recorrentemente apontado como um executivo de perfil muito reservado. Não concedia entrevistas à imprensa, algo comum em uma empresa de grande porte e de capital aberto. Mesmo nas usuais teleconferências de resultados, sua fala sempre foi concisa.
Poucos executivos do varejo o conhecem. Nos bastidores, o comentário é de que Gutierrez apenas se voltava ao público interno, da companhia. E que era um ótimo executor, característica que os novos donos da varejista – o trio Lemann, Telles e Sicupira – buscavam no início da década de 1990. Teria sido contratado pela sua experiência na área financeira. “Miguel é muito disciplinado e inteligente. Foi crescendo por sua competência”, diz um conhecido.
No dia a dia no comando da empresa, seu contato direto era com Sicupira, o nome forte da varejista desde a aquisição pelo trio. Sicupira, que já presidiu a Americanas e nos últimos anos ocupava uma cadeira no conselho de administração, ia pouco à companhia presencialmente. Quando visitava, ficava trancado numa sala com o CEO e não costumava circular na empresa.
Há quem diga que Gutierrez não tomava uma decisão sem antes tratar do assunto com Sicupira. No entanto, essa leitura não é unânime. Uma pessoa próxima da companhia disse que sempre houve liberdade na tomada de decisões. “Beto era, sim, o líder do projeto, mas não havia ingerência”, disse. A famosa frase, sempre repetida por Gutierrez “vou ver com o Beto”, podia ser apenas uma estratégia do executivo para encerrar conversas indesejadas, diz a fonte.
Internamente, Gutierrez tinha uma gestão considerada “antiga”, ou seja, de difícil trato e com conversas muitas vezes que terminavam em gritos, algo que perdeu espaço nas corporações. “Era o cara que botava pressão”, diz uma fonte, que já trabalhou com o executivo. Fazia reunião todos os dias. “Quem participava sabia que ele ‘tacava o pau’. Nunca nada estava bom”, disse outra fonte, na condição de anonimato.
Segundo uma fonte, Gutierrez era duro, sim, mas não era desrespeitoso. Era seco nas suas interações, frisou a mesma fonte, algo que poderia ser confundido com um tratamento mais rude.
Apesar do tempo de casa, não se mostrava aberto a conversas. O escritório da Americanas no Rio, onde a empresa foi fundada, tem uma estrutura aberta com um aquário (uma sala de envidraçada) para a diretoria. Mas Gutierrez ficava em uma outra sala e não costumava circular pela companhia como executivos de outras empresas costumam fazer.
Nas reuniões que presidia não costumava abrir chances para perguntas. “Ele dava o recado e ia embora”, disse uma fonte. Tampouco tinha o hábito de visitar frequentemente lojas ou centros de distribuição. Quando o fazia, o tom era de formalidade, tudo com hora marcada. A unidade que mais visitou foi a de Ipanema, perto de sua casa.
Essa maneira de administrar o negócio pode ter sido um dos problemas da gestão de Gutierrez, dizem fontes ouvidas pelo Valor. O executivo costumava trabalhar e interagir com um grupo de diretores de sua confiança e era pouco aberto a opiniões de terceiros. Também não se relacionava com outros “stakeholders” como fornecedores, por exemplo. “Isso não era algo desejável, mas não condenável”, afirmou um executivo que trabalhou com Gutierrez.
Considerado inteligente e de raciocínio rápido, Gutierrez se expressava na companhia de forma culta. Era dono de opiniões fortes e não gostava de ser contrariado.
Casado e pai de três filhos, Gutierrez sempre foi discreto em sua vida pessoal. Por vezes, foi visto saindo da empresa usando um boné azul e preto, provavelmente para não ser reconhecido. O executivo não costumava participar de eventos que contavam com o patrocínio da Americanas. “Ele nunca ia a uma festa”, resume uma fonte.
Na Americanas, Gutierrez era bastante admirado por uma parte dos funcionários, especialmente os que originalmente eram da Lojas Americanas – a empresa foi fundada em Niterói (RJ) em 1929 por empresários americanos.
Gutierrez era visto quase como um mártir, segundo duas fontes ouvidas pelo Valor. O que se falava na companhia era que o executivo foi responsável pela melhora dos resultados da empresa, que eram ruins antes de sua chegada. Quando entrou na companhia, egresso da Casa Moeda, já lhe foi concedido um alto cargo: gerente executivo de controles financeiros. Na Americanas, era mais comum que executivos começassem assumindo cargos mais baixos e que fossem promovidos dentro dos critérios da cultura da meritocracia adotada nas empresas do trio Lemann, Telles e Sicupira.
Nascido em 1961 no Brasil (e com cidadania espanhola), Gutierrez teve praticamente toda sua formação acadêmica e a vida profissional no Rio de Janeiro, com exceção de uma passagem por Harvard. Na universidade americana, fez parte de um programa voltado para formação de lideranças, conhecido como Owner/President Management (OPM). Graduado em engenharia mecânica pela UFRJ e em economia pela UERJ, também possui uma pós-graduação em marketing pela Coppead. Na escola de engenharia, estudou na mesma turma de Carlos Brito, que foi executivo da Ambev e comandou a AB InBev, uma das principais empresas do portfólio da 3G Capital.
Como executivo, também foi gerente de produção da Michelin entre 1986 e 1988. A partir do ano seguinte, na Casa da Moeda, foi superintendente de recursos humanos e diretor técnico. Saiu de lá em 1993 para a Americanas, onde atuou em diversas áreas e cargos. Inicialmente, foi gerente do departamento de controle financeiro. Em 1995, tornou-se superintendente de operações, e dois anos depois passou a diretor executivo de logística. A partir de 1998 foi nomeado diretor estatutário, para em 2001 assumir o cargo de diretor superintendente.
Gutierrez deixou o comando da Americanas em dezembro de 2022 para a chegada de Rial. Sem um período de transição na empresa, o ex-CEO foi para a Espanha com sua família, onde esteve até pouco tempo. Até agora, adotou o tradicional silêncio, que será quebrado nesta semana, na quinta-feira, em depoimento na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O executivo contratou, para sua defesa, o escritório de advocacia Vieira Rezende. Segundo o Valor apurou, o executivo está no Brasil.
Os bancos credores da companhia, que foram surpreendidos por um pedido de recuperação judicial pela empresa, ainda em janeiro, tem repetido o mantra de que a administração tinha conhecimento sobre o rombo da contábil identificado por Rial, algo que as instituições financeiras têm dado certo como uma fraude. Os bancos estão pedindo ainda uma oitiva de Gutierrez no processo contra a companhia para a produção antecipada de provas.
Procurado, Gutierrez não respondeu aos pedidos de entrevista. A Americanas preferiu não comentar.
Fonte: Valor Econômico


