Por Liane Thedim — Do Rio
03/08/2023 05h03 Atualizado há uma hora
O Brics voltou aos holofotes nas últimas semanas. De um lado, o governo Lula tenta fortalecer o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, retomando sua política externa de outros mandatos. Do outro, China e Rússia buscam apoio na contraposição aos Estados Unidos e à Europa, em meio à invasão da Ucrânia e à guerra comercial com o governo americano. Um passo importante nessa direção está marcado para os próximos dias 22 a 24, na cúpula de líderes do grupo, em Joanesburgo, quando deve ser decidida a adesão de 13 países: Arábia Saudita, Irã, Indonésia, Argentina, Bangladesh, Cazaquistão, Comores, Cuba, Egito, Emirados Árabes Unidos, Gabão, Guiné-Bissau e Congo.
Para Jim O’Neill, que em 2001 criou o acrônimo Bric – o grupo foi pensado por ele sem a África do Sul, adicionada em 2011 após pressão da China -, no entanto, aumentar o número de países-membros “não faz muito sentido e, muito provavelmente, tornará o bloco uma força ainda menos eficaz”. Em entrevista por e-mail ao Valor, ele afirma que, antes de aceitar os pedidos de adesão, o grupo deveria calcular “quais problemas eles vão trazer, tornando a vida mais difícil.”
O economista britânico critica duramente as nações emergentes do bloco, que haviam sido apontadas por ele como grandes promessas de crescimento no mundo. Ao idealizar o acrônimo, O’Neill previu que os quatro países juntos teriam um Produto Interno Bruto (PIB) tão grande quanto o do G-6 (o G-7, grupo das principais economias ricas, menos o Canadá). Desde então, com exceção de China e Índia, esses países acumulam taxas de expansão pouco expressivas e políticas econômicas erráticas, quadro agravado no ano passado pela invasão da Ucrânia pela Rússia. “O Brics fortaleceu seu simbolismo superficialmente. Em termos de conteúdo, é decepcionante”, ataca O’Neill.
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Aposentado do posto de vice-presidente da área de pesquisa do banco Goldman Sachs em 2013 e ex-secretário do Tesouro do Reino Unido, o economista atualmente é consultor do think tank britânico Chatham House, focado em relações internacionais no Reino Unido, e também não parece satisfeito com os países ricos: ele critica o descontrole da inflação e a dominância do dólar no mercado internacional.
Do Brasil, especificamente, reclama da falta de estímulos ao investimento privado para reduzir a dependência das commodities e diz que o país perdeu o bonde do bônus demográfico. Mas diz que a recente melhora na avaliação das agências de classificação de risco Fitch e Standard&Poor’s podem ajudar a impulsionar a economia brasileira: “Espero que sim, porque o Brasil não pode ficar pior do que nos últimos dez anos.” Leia a entrevista concedida ao Valor:
Valor: Como o senhor vê o Brics no pós-pandemia?
Jim O’Neill: Acho que o Brics, como bloco, fortaleceu seu simbolismo superficialmente, e nada mais do que isso. Em termos de conteúdo, é decepcionante. Economicamente, a China tem sido bastante frustrante, na verdade, bastante preocupante. Rússia e Brasil têm sido um pouco desastrosos desde 2010-2012, quando os preços das commodities atingiram o pico. A Índia tem se saído bem, apesar de ser ela mesma. A África do Sul é quase uma vergonha.
Valor: O Brics nunca teve muita expressão política, era apenas um grupo de países com potencial de crescimento. Mas agora, num mundo dividido pela guerra comercial entre EUA e China, o governo chinês busca aumentar o bloco com 13 novas adesões. É uma tentativa de contraposição ao G-7? Se sim, qual é a chance de sucesso?
O’Neill: Sem um objetivo definido e critérios claros sobre quem e porque, qual é o propósito por trás de qualquer expansão? Não faz muito sentido e, muito provavelmente, tornará o bloco uma força ainda menos eficaz, a não ser pelo simbolismo de ser um clube sem os Estados Unidos.
Valor: Quais deveriam ser esses critérios? O Irã e a Arábia Saudita estão na lista, por exemplo.
O’Neill: Os critérios deveriam ser o tamanho do PIB; o tamanho de sua população; o que esses países trarão de melhorias para os membros atuais; e quais problemas eles vão trazer, tornando a vida mais difícil.
Valor: México, Chile e Colômbia na América Latina, além de Malásia e Vietnã na Ásia já são tratados como a Nova China. Como o senhor vê esses novos países no foco dos alocadores internacionais?
O’Neill: A maioria desses países tem sido decepcionante, com exceção do Vietnã, francamente.
“Uma expansão do Brics não faz muito sentido e tornará o bloco uma força ainda menos eficaz”
Valor: Essas nações então estão fadadas a continuarem pobres, para sempre “em desenvolvimento”?
O’Neill: A Coreia do Sul é provavelmente o melhor exemplo do mundo de como escapar à armadilha do rendimento médio baixo ou baixo. Os outros países, especialmente os produtores de matérias-primas, como o Brasil, a Rússia e a África do Sul, precisam estudar cuidadosamente como a Coreia do Sul conseguiu isso, e levar a sério as reformas.
Valor: Como o sr. vê o novo modelo econômico da China, focado na “common prosperity” (prosperidade comum, desenvolvimento baseado na eliminação da pobreza e na diminuição da desigualdade social, em que o consumo interno substitui as exportações e os investimentos como propulsor do crescimento)? Qual será o custo dessa virada para a economia do país e do mundo? A China ainda pode ser a maior economia do mundo em dez anos?
O’Neill: Eu não entendo isso! Parece apenas uma retórica. Eles precisam voltar a levar sério os estímulos ao consumo doméstico. Se não o fizerem, francamente, a China terá muito mais dificuldades do que nos últimos 30 anos. O país não conseguirá ser o maior do mundo, a menos que seu consumo doméstico acelere significativamente.
Valor: Se China vai enfrentar muitos desafios daqui para frente, quem será o motor da economia mundial nos próximos anos?
O’Neill: Bem, a China certamente vai fazer algo significativo para impulsionar seu consumo interno em algum momento. Se não o fizer, poderá ter muitos problemas. E, se não for bem-sucedida, o mundo vai crescer menos, dado o enorme impulso positivo vindo do país asiático nos últimos 25 anos. A Índia, no entanto, desempenhará um papel cada vez maior, especialmente depois de 2030, quando sua economia será maior que a da Alemanha.
Valor: Até onde vai a guerra entre a China e os EUA? Como o Brasil deve se posicionar?
O’Neill: Tenho a impressão de que, mais recentemente, cada um está tentando estabilizar a relação. O Brasil definitivamente não deve se posicionar. Deve cuidar de si mesmo e fazer o que é certo para o Brasil.
Valor: O que acendeu o sinal de alerta para os EUA e a China de que era hora de estabilizar a relação?
O’Neill: As consequências negativas para os dois países e para a economia mundial.
Valor: Sendo cada vez mais concentrado em commodities, como o Brasil pode se beneficiar dessa reorganização das cadeias de produção globais (nearshoring, friendshoring) provodada pela guerra comercial entre EUA e China?
O’Neill: O Brasil precisa, como eu tenho dito há 20 anos, parar de ser tão dependente de commodities. Precisa aumentar os investimentos do setor privado.
“O Brics fortaleceu seu simbolismo de forma superficial. Em termos de conteúdo, decepciona”
Valor: Como o senhor avalia o início do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva?
O’Neill: Não tenho certeza ainda. Muita retórica fácil.
Valor: O país tem em tramitação no Congresso um novo arcabouço fiscal e a reforma tributária. Com o ciclo de cortes de juros prestes a começar, quais são as suas perspectivas para o Brasil?
O’Neill: O Brasil precisa restaurar o arcabouço das administrações [Fernando Henrique] Cardoso e primeiro governo Lula, tanto em política monetária quanto fiscal, e levar a sério a poupança e o investimento do setor privado.
Valor: Dados recentes mostram que a população brasileira ficou abaixo do estimado inicialmente, e o senhor cita com frequência o bônus demográfico como determinante para o sucesso dos emergentes. O Brasil perdeu esse bonde?
O’Neill: Sim, sem uma grande melhoria na produtividade, o Brasil perdeu o bonde.
Valor: O combate à inflação nos países ricos tem mostrado as limitações dos bancos centrais e há sinais de que o mundo vai entrar em recessão para segurar os preços. O sistema de metas ficou ultrapassado no pós-pandemia?
O’Neill: Talvez entre em recessão, não tenho certeza. Eles precisam conter a inflação. Foi um erro deixá-la sair do controle. Acho que há alguma justificativa para questionar se uma única meta de inflação é suficiente, e talvez os bancos centrais devessem ter metas monetárias como alvo secundário. Também sou um grande fã de metas de PIB nominal com uma meta de inflação.
Valor: O senhor é um crítico da dominância do dólar no mercado internacional. Qual é a saída para o sistema monetário refletir melhor as mudanças no mundo?
O’Neill: É absurda a dominação do dólar, mas, a menos que China e Índia possam cooperar e qualquer uma delas, junto com a zona do euro, abrir seus mercados financeiros para permitir que centenas de milhões de pessoas invistam dentro e fora de suas moedas, isso ainda será assim no futuro.
Valor: Fitch e S&P revisaram suas avaliações do Brasil recentemente. A primeira elevou a nota e a segunda colocou em perspectiva positiva. Pode ser um novo impulso para a economia brasileira?
O’Neill: Espero que sim, porque o Brasil não pode ficar pior do que nos últimos dez anos! Mas o país precisa fazer mais reformas, especialmente para incentivar o investimento doméstico que não seja em commodities.
Fonte: Valor Econômico