Enquanto os juros prefixados conseguiram exibir alguma melhora nos prêmios de risco exigidos pelo mercado no auge do estresse com a guerra no Irã – à custa de uma megaintervenção do Tesouro Nacional -, nas NTN-Bs, os títulos públicos atrelados à inflação, o alívio foi bem mais modesto, sobretudo nos vencimentos mais longos. O início do conflito, inclusive, pegou o mercado de surpresa, justamente no momento em que os agentes financeiros começavam a testar as taxas reais ultralongas abaixo de 7%. Agora, os juros das NTN-Bs voltaram a operar na faixa entre 7% e 7,5%, sem sinais concretos de um alívio mais consistente no curtíssimo prazo.
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No último pregão de fevereiro, logo antes da eclosão do conflito, a taxa do papel com vencimento em 2050 estava em 6,9857%, após operar acima de 7% durante um longo período. Na semana passada, essa NTN-B chegou a 7,2553%, o que mostra um aumento dos prêmios exigidos pelos investidores mesmo em prazos que podem ser pouco afetados pela guerra diretamente. Vale notar que, em outras ocasiões mais recentes, o mercado também testou colocar os juros reais ultralongos abaixo da marca de 7%, mas sem êxito de forma consistente.
Em vencimentos mais curtos, como a NTN-B para agosto de 2030, houve um aumento das taxas desde o início da guerra, para níveis bem acima de 8%, mas, nas últimas sessões, há algum alívio nos prêmios de risco, ainda que os juros não tenham se afastado tanto dos picos recentes. No início do conflito, o papel operava a uma taxa de 7,5500% e, na segunda-feira, era negociado a 7,9363%.
“O mercado está operando a inflação”, observa um gestor de renda fixa, ao se referir entre a diferença entre os juros reais e as taxas das NTN-Bs. Ele lembra que, com a expectativa de que a disparada dos preços do petróleo provoque um aumento da inflação, as taxas futuras costumam subir mais e deixam a taxa da NTN-B “parada” ou menos pressionada do que as taxas futuras.
No entanto, com o alívio observado na segunda-feira, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump anunciar uma pausa de cinco dias nos ataques à infraestrutura de energia do Irã, o mercado viu uma descompressão relevante dos prêmios de inflação na curva de juros nominais. Em compensação, quase não houve movimento nas NTN-Bs, que seguiram em níveis muito pressionados. “A NTN-B é um ativo menos líquido que o DI e um pouco mais inercial. Com o mercado machucado do jeito que está, também acho que seria preciso ter alguma confirmação do arrefecimento para voltar a gerar engajamento”, diz o gestor.
Além disso, nos trechos mais longos da curva de juros reais, o risco fiscal, um velho conhecido dos mercados, também impede um alívio mais duradouro das taxas, ainda que elas estejam em níveis historicamente muito elevados. “A taxa acima de 7% reflete um risco de crédito e isso tem um peso maior do que outras variáveis”, observa o gestor de renda fixa Marcelo Bacelar, da Azimut Brasil, que no momento não tem posição no mercado de juro real.
“O mercado tirou os cortes [da taxa Selic que estavam precificados] da curva. Quando isso acontece, a curva de juros nominais abre [sobe] e, mesmo que a inflação também suba, alguma coisa o juro real [das NTN-Bs] também precisa subir para equivaler à curva nominal, que precifica menos cortes”, afirma. Para Bacelar, as NTN-Bs mais longas não tiveram um desempenho tão bom quanto as curtas porque a inflação “implícita” não subiu tanto quanto a quantidade de cortes de juros que o mercado tirou da conta.
Segundo o gestor de renda fixa da Oby Capital, Camilo Cavalcanti, a casa tinha um viés aplicado em NTN-Bs e comprado em inflação implícita, o que acabou defendendo o fundo da volatilidade acentuada atravessada pelos mercados de juros e de títulos públicos neste mês de março. “Conseguimos ficar ligeiramente positivos no mês, o que, no relativo, parece bom”, diz.
Na visão do profissional, em um momento em que o mercado esperava leituras mensais de inflação de aproximadamente 0,3% nos próximos meses, o que poderia pesar sobre o carrego das NTN-Bs, a guerra no Oriente Médio já tem elevado projeções mensais para uma faixa entre 0,5% e 0,6%. No Focus, inclusive, já tem havido revisões na inflação de curto prazo.
“Em se mantendo o cenário mais um pouco, isso acaba favorecendo o carrego das NTN-Bs. Juro alto e inflação corrente baixa faz as NTN-Bs sofrerem, mas isso pode estar mudando. Caso a guerra dure mais tempo, a inércia deve fazer com que o mercado passe a projetar inflações mais elevadas por toda a curva. As implícitas, para um prazo de 5 anos, já rondam os 5,5%, o que é uma alta relevante”, diz.
Cavalcanti também ressalta o fato de o BC ter iniciado os cortes de juros mesmo com as incertezas sobre o petróleo. “As projeções de inflação chamaram atenção e, quando ele diz que pode revisar o ritmo do ciclo de cortes, quer dizer que pode cortar mais, não menos, já que ele começou com 0,25 ponto. Ele deixou um viés ‘dovish’ [pró-afrouxamento] que joga um pouco mais de expectativa de inflação para frente”, avalia.
Fonte: Valor Econômico