Depois das primárias americanas mais previsíveis na história recente, a convenção republicana, em julho, e a convenção democrata, em agosto, devem oficializar Donald Trump e Joe Biden, respectivamente, para repetir a disputa pela Casa Branca. Mas a seis meses das eleições presidenciais, em 5 de novembro, o cenário predominante é de incerteza e insegurança em relação ao futuro governo, mesmo com dois candidatos já conhecidos pela população.
Do lado democrata, há uma pressão para que Biden dê lugar a um candidato mais jovem, enquanto do lado republicano há uma insatisfação com a candidatura de Trump, que se reflete na sua dificuldade em arrecadar fundos para a campanha – que têm sido drenados por seus gastos legais com os processos na Justiça.
Segundo a pesquisa de intenção de voto do site Real Clear Polling, Trump possui 46,6% dos votos, enquanto Biden tem 45,1%. Os dois presumíveis candidatos estão numa situação de empate técnico há meses. Até o momento a reedição da disputa presidencial de 2020 não tem animado os eleitores e isso pode afetar a taxa de participação na eleição, diz Alexander Keyssar, professor de história e ciências políticas na Universidade Harvard.
“Acredito que a participação seja menor este ano do que em 2020. Não sei dizer o quanto, mas definitivamente menor, talvez 2% a 5%. Isso provavelmente prejudicará Biden, mas muito dependerá da participação especialmente nos Estados-pêndulo, então é realmente difícil prever o impacto”, afirma.
“Certamente todas as pesquisas sugerem uma falta de entusiasmo, em ambos os lados, e acho que muitas pessoas que vão votar, irão escolher não por entusiasmo pelo seu próprio candidato, mas por oposição ao outro”, acrescentou.
Keyssar destaca dois grupos da sociedade que terão uma participação importante na votação. O primeiro são os latinos, que pela primeira vez na história representarão um em cada sete eleitores elegíveis, segundo o Pew Research Center. Isso poderá fazer toda a diferença em Estados indecisos como Wisconsin, onde as duas últimas disputas presidenciais foram decididas por margens mínimas.
O voto dos imigrantes da América Latina, diz Keyssar, tem sido dividido. Tradicionalmente, tende para o lado democrata, mas não em alguns lugares. Os cubanos na Flórida, por exemplo, “são totalmente republicanos”.
Outro grupo decisivo serão as mulheres devido às discussões em torno da questão do aborto. A Suprema Corte dos EUA revogou o direito constitucional ao aborto em uma decisão em 2022, gesto amplamente apoiado pelos conservadores republicanos.
“Há uma questão significativa dos direitos ao aborto e certamente as pesquisas indicam que a grande maioria das mulheres americanas apoia os direitos ao aborto e se opõe ao que os republicanos têm feito sobre isso, e acho que a força dessa oposição vai ser um fator chave”, afirma.
A escolha do eleitor americano irá depender do desdobramento de uma série de eventos que afetam diretamente a popularidade de Trump e Biden. Do lado de Trump, os vários processos na Justiça, incluindo um criminal em andamento em um tribunal de Nova York, em que o ex-presidente é acusado de fraude eleitoral na campanha de 2016 ao tentar encobrir seu escândalo sexual com a ex-atriz pornô Stormy Daniels.
Essa é a primeira vez que um ex-presidente americano é julgado em um processo criminal. Se for condenado, Trump pode perder apoio entre os eleitores indecisos. Ele ainda é alvo de mais três processos criminais, que não devem, no entanto, ser julgados antes do início das eleições.
Para Biden, há muita insatisfação entre os eleitores democratas, em especial os jovens, com o apoio dos EUA a Israel na guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza. Mas, observa Keyssar, ainda não há uma dimensão do quanto essa guerra será um fator nas eleições. “Se [Israel e Hamas] alcançarem um cessar-fogo nas próximas semanas, se as coisas acalmarem e houver algum progresso político, esse efeito negativo pode diminuir.”
Já o desdobramento da guerra entre Rússia e Ucrânia deve afetar em grande parte a popularidade de Trump na avaliação do professor. “Pode haver algum impacto negativo para os republicanos, porque acredito que os americanos, em geral, são muito solidários com a Ucrânia e contrários ao que a Rússia tem feito. E certamente saberão que foram os republicanos que bloquearam a ajuda à Ucrânia nos últimos meses no Congresso”.
Independente dos desdobramentos desses eventos, Keyssar ressalta que a questão principal que deve impactar em novembro será a percepção das pessoas perante a economia americana, que não é boa apesar dos bons resultados econômicos do país.
“Parte do que estamos vendo é que o país está tão polarizado que as pessoas estão respondendo a perguntas sobre ‘como está a economia?’ de acordo com suas ideologias e suas visões partidárias”, explica o professor.
“Uma das chaves será a inflação nos próximos três ou quatro meses. A inflação é uma coisa complicada em termos do impacto sobre os eleitores. O fato é que houve inflação e os preços aumentaram. E mesmo que a taxa diminua, os preços ainda estão mais altos todos os dias”, afirma.
Muitas questões estão em aberto, como o vice-presidente de Trump. Além disso, Keyssar lembra que qualquer coisa pode acontecer até novembro, até mesmo acontecimentos adversos que impeçam um dos candidatos de concorrer. “Essas variáveis são muito imprevisíveis e acho que o cenário pode mudar nos próximos meses.”
Para Keyssar, a disfunção da maioria republicana na Câmara dos Deputados pode devolver o controle da casa aos democratas. Mas estes podem perder o controle do Senado para os republicanos por terem um número maior de cadeiras em disputa.
fonte: valor econômico


