O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador de inflação oficial do país por ser considerado pelo Banco Central para calibrar os juros, subiu 0,88% em março, mês em que começou a guerra entre Estados Unidos e Irã.
Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (10). A mediana das 32 projeções coletadas pelo Valor Data apontava para uma alta de 0,76%, após um avanço de 0,70% em fevereiro. As estimativas para o IPCA de março variam entre 0,47% e 0,82%. A aceleração veio justamente em um momento de mais cautela por parte dos investidores com a alta dos preços.
Afinal, a guerra entre Estados Unidos e Irã tem promovido uma verdeira escalada no petróleo. O movimento pode ter como consequência um aumento da inflação global. Com a alta do petróleo, o principal destaque foi o grupo Transportes, com alta de 1,64% e 0,34 ponto percentual de impacto. O grupo Alimentação e bebidas, que subiu 1,56% e teve impacto 0,33 p.p. no índice do mês veio na sequência. Juntos, os dois grupos respondem por 76% do IPCA de março. Os demais grupos oscilaram entre 0,02% (Educação) e 0,65% (Despesas pessoais).
No ano, o IPCA acumula alta de 1,92% e, nos últimos 12 meses, de 4,14%, acima dos 3,81% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em março de 2025, a variação havia sido de 0,56%.
Como a inflação mexe com a minha vida?
Quando a inflação está muito alta ou acelerando de forma rápida, o instrumento que o Banco Central usa para conter esse avanço é a Selic, a taxa referência para os juros no Brasil. Portanto, o BC aumenta os juros para encarecer o crédito às empresas e às pessoas e, dessa forma, conter o consumo e frear a inflação. O mesmo acontece no cenário oposto. Se a alta dos preços está sob controle, a autoridade monetária pode cortar os juros (ou seja, “baratear o dinheiro”) para incentivar que as empresas e as pessoas voltem a gastar sem que isso comprometa o bolso delas. Portanto, é um estímulo para a economia aquecer.
Uma guerra no meio do caminho…
O problema é que agora há, ainda, uma guerra no meio do caminho. Além das óbvias consequências humanitárias desastrosas que um conflito entre países traz, ele também tem ajudado na escalada do petróleo, que acende um alerta global. Isso porque o Irã é um dos maiores produtores da commodity do mundo e controla o estreito de Ormuz, um dos principais pontos de distribuição do produto que está fechado a mando dos iranianos. Portanto, uma guerra envolvendo o Irã pode afetar não só a produção, como a distribuição do petróleo. Assim, o preço da commodity vem subindo devido à oferta menor. Como o petróleo é base para combustíveis e para o transporte de praticamente todos os produtos, quando o barril sobe, empresas pagam mais caro por gasolina, diesel e energia, o que encarece a produção e a distribuição de muitos itens, desde alimentos, roupas e outros bens. E para manter suas margens, essas empresas repassam esses custos ao consumidor final. Como o petróleo também influencia o preço de plásticos, fertilizantes e diversos insumos industriais, o efeito se espalha por toda a economia, pressionando os preços em geral e aumentando a inflação em nível global.
Qual é o cenário agora?
Atualmente, o Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 14,75% ao ano. O corte foi mais brando do que o mercado esperava no começo do ano justamente por conta da guerra no Oriente Médio.
Portanto, os investidores monitoram a composição do IPCA-15, à procura de evidências de que a inflação de itens mais resistentes ao ciclo de alta de juros melhorou para decidir o tamanho e a intensidade da queda da Selic.
O que subiu e o que caiu no mês?
Os Transportes registraram forte aceleração e passaram de um avanço de 0,74% em fevereiro para 1,64% em março, impulsionados principalmente pelos combustíveis, que subiram 4,47%. A gasolina teve alta de 4,59% (impacto de 0,23 p.p.), após queda de -0,61% em fevereiro. O óleo diesel avançou 13,90% (impacto de 0,03 p.p.), enquanto o etanol subiu 0,93% e o gás veicular caiu -0,98%. Entre os transportes públicos e serviços, a passagem aérea desacelerou de 11,40% para 6,08%. O ônibus urbano variou 1,17%, refletindo reajustes e reduções tarifárias. O táxi subiu 0,26%, o metrô 0,67%, e o ônibus intermunicipal 0,22%, todos influenciados por reajustes tarifários no período.
O grupo Alimentação e bebidas apresentou alta de 1,56% (ante 0,26% em fevereiro), com alimentação no domicílio subindo 1,94%. Destacaram-se aumentos no tomate (20,31%), cebola (17,25%), batata-inglesa (12,17%), leite (11,74%) e carnes (1,73%). Em contrapartida, houve queda na maçã (-5,79%) e no café (-1,28%). A alimentação fora do domicílio subiu 0,61%. Outros grupos tiveram variações mais moderadas: Despesas pessoais (0,65%), Saúde (0,42%) e Habitação (0,22%). Na habitação, a energia elétrica subiu 0,13%, enquanto água e esgoto avançaram 0,24% e o gás encanado caiu -0,10%. Regionalmente, a maior alta foi de 1,47% e a menor de 0,37%, influenciadas principalmente por combustíveis, energia e alimentos.
Fonte: Valor Investe