Quando o Iraque disparou dezenas de mísseis Scud contra Israel no início de 1991, os EUA imploraram ao então premiê Yitzhak Shamir para que não desse uma resposta. Shamir disse que precisava agir. Depois de dias de ligações até altas horas, de visitas de alto escalão e de longas reuniões ministeriais, Israel acabou cedendo e os EUA lideraram uma aliança de 42 países para derrotar o Iraque no que se tornaria a Guerra do Golfo.
A decisão do Irã de lançar 350 mísseis e drones contra Israel no fim de semana passado foi a primeira vez, desde então, em que uma nação soberana fez um ataque desse tipo ao Estado judeu. Novamente, o premiê é um líder linha-dura do partido Likud, Benjamin Netanyahu, e uma série igualmente frenética de ligações e visitantes o está conclamando a não reagir, embora as reuniões ministeriais tenham como foco a necessidade de fazer algo.
Ainda que existam muitos paralelos, os eventos mais recentes são diferentes dos de 1991 em pelo menos um aspecto importante: os poderosos aliados ocidentais de Israel não estão se oferecendo para lutar pelo país. Em vez disso, estão sugerindo que ninguém desafie o Irã militarmente neste momento. E muitos em Israel, inclusive na coalizão de extrema direita de Netanyahu, dizem que isso não vai funcionar.
O Irã informou que sua missão para vingar o ataque a seu complexo diplomático na Síria está encerrada. Israel também reivindicou sucesso, depois de ter repelido a saraivada sem praticamente nenhum dano ou mortes. Ainda assim, a dúvida premente que continua no ar é saber se os dois países mergulharão em um conflito direto mais profundo, com repercussões além do Oriente Médio, e em que grau a resposta a essa questão dependerá da política israelense — e dos instintos de sobrevivência de Netanyahu.
“Não podemos absorver isso em silêncio”, disse o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, na Rádio do Exército, de Israel, na quarta-feira (17). “Estamos em uma encruzilhada no que se refere ao nosso lugar no Oriente Médio, assim como ao de nossos filhos. Nossa dissuasão está em um ponto problemático, e dar uma resposta fraca seria perigoso.”
O presidente dos EUA, Joe Biden, e o premiê do Reino Unido, Rishi Sunak, disseram a Netanyahu durante toda a semana para “aceitar a vitória”, referindo-se ao fato de que — com a ajuda deles e de países árabes vizinhos — Israel destruiu 99% dos projéteis lançados contra o país.
O governo e o público israelenses, de fato, estão divididos sobre como proceder. De acordo com uma pesquisa da Universidade Hebraica publicada na quarta-feira, metade dos consultados defende que Israel não deveria responder e metade, que deveria, mesmo que isso signifique prolongar a atual rodada de conflitos.
Depois, está a questão de como Israel deveria fazê-lo e se deveria fazê-lo sozinho. Segundo o general de brigada Zvika Haimovich, ex-chefe de defesa aérea, não há como Israel não fazer nada, embora ele ache “muito importante que Israel não fique sozinho contra o Irã”.
Muitos comentaristas no exterior expressam frustração diante de todo o apoio que os aliados de Israel dão ao país e da forma como Netanyahu parece ignorá-los em favor de sua sobrevivência política. Segundo essa linha de argumentação, para permanecer no cargo, ele precisa de seus aliados da extrema direita como o ministro Smotrich e, portanto, em vez de buscar o que seria melhor, ele lhes dá ouvidos.
Netanyahu já é o premiê que ocupa o cargo por mais tempo na história do país. Embora o homem de 74 anos seja profundamente impopular, pela maneira como seu governo de extrema direita impôs políticas populistas e por não ter previsto o ataque do Hamas em 7 de outubro, poucos em Israel — mesmo entre seus críticos — acham que o dilema sobre o Irã gira principalmente em torno a ele.
“Não se trata de Netanyahu”, diz Yoel Esteron, editor do jornal de negócios “Calcalist” e grande crítico do primeiro-ministro. “A divisão entre aqueles que dizem que precisamos fazer algo não é mais realmente política. Estou ouvindo pessoas definitivamente à esquerda dizendo que não podemos tolerar centenas de mísseis sem resposta, e generais [normalmente] ansiosos para mostrar sua hombridade dizendo: ‘Espere um minuto, vamos parar’.”
Aqueles que conhecem bem Netanyahu dizem que este é um momento crucial para ele, por várias razões. O Irã tem sido o cerne de suas preocupações estratégicas há décadas. Em 2003, quando os EUA voltaram a entrar em guerra contra o Iraque, de Saddam Hussein, ele argumentava que a verdadeira ameaça era o Irã.
Em segundo lugar, o fracasso de 7 de outubro determinará seu legado, a menos que ele consiga usar o momento atual para reverter a situação, e que consiga remodelar a posição de segurança de Israel. Como resultado, dizem essas pessoas, ele está tomando seu tempo para decidir o que fazer a seguir.
Israel tem recebido duras críticas de países aliados por sua guerra contra o Hamas na Faixa de Gaza. Essa guerra, desencadeada quando operativos do Hamas invadiram Israel em outubro, matando 1,2 mil pessoas e sequestrando 250, já matou 33 mil, segundo o Hamas, considerado uma organização terrorista pelos EUA e pela União Europeia. Bairros inteiros foram devastados na tentativa de Israel de eliminar combatentes do Hamas em túneis. A fome é generalizada.
Portanto, o apoio caloroso manifestado agora por esses mesmos governos, prometendo punir o Irã com sanções, tem sido reconfortante. “Nós precisamos dos abraços”, disse Esteron. “É bom, mas ninguém sabe como isso afetará a mentalidade dos iranianos. Estamos diante de um grande dilema.”
Não é um dilema novo. Golda Meir, premiê no início dos anos 70, disse de forma célebre: “Se tivermos que escolher entre estar mortos e ser motivo de pesar, e estarmos vivos com uma má imagem, preferimos estar vivos e ter a má imagem.”
Além do Irã, Israel enfrenta combatentes do Hamas que ainda estão entrincheirados na Faixa de Gaza e mantêm dezenas de reféns. Também se depara com batalhas diárias em sua parte norte com o Hezbollah, outro aliado iraniano. E muitos israelenses prefeririam lidar com esses conflitos, em vez de enfrentar o Irã neste momento.
“Uma coisa que Israel percebeu em 7 de outubro é que o que imaginamos como ‘dissuasão’ nem sempre é real”, disse Menahem Merhavy, pesquisador sobre o Irã no Instituto Truman, da Universidade Hebraica. “O Hamas não foi dissuadido; o Hezbollah não foi dissuadido. Ainda temos Gaza na nossa mesa e os reféns e o norte. É nisso que precisamos colocar nosso foco agora.”
De acordo com Jonathan Conricus, ex-porta-voz militar de Israel e hoje pesquisador sênior no centro de estudos Foundation for Defense of Democracies, com sede em Washington, não importa o que aconteça, Israel atingirá diretamente o solo iraniano. “O mínimo seria atacar o Irã com força suficiente para fazê-los parar e pensar muitas vezes antes de fazer isso de novo”, disse.
Fonte: Valor Econômico


