Por Talita Moreira e Mônica Scaramuzzo — De São Paulo
17/08/2023 05h03 Atualizado há 13 minutos
O momento não é para euforia, mesmo com as taxas de juros começando a cair no Brasil, diz Alfredo Setubal, presidente da Itaúsa, holding de investimentos que controla o Itaú Unibanco. Setubal destoa do otimismo que vem sendo manifestado nas últimas semanas ao longo da Faria Lima, onde os bancos de investimento projetam uma retomada mais firme das operações no mercado de capitais e um aumento do fluxo de estrangeiros.
“Podemos ver um cenário mais benigno adiante, se tiver arcabouço fiscal e reforma tributária aprovados e sinalização de déficit público controlado. Mas ainda tem muitas incertezas, guerra e China entrando numa crise econômica de um certo grau nunca visto nesses 30 anos. A economia americana [está] ativa, mas com inflação muito resiliente no núcleo, juros subindo. Não vejo motivos para euforia lá fora nem aqui dentro”, enumera.
Setubal afirma que a política econômica está na direção correta, mas vê o governo com dificuldades na articulação das pautas com o Congresso, o que atrasa a aprovação do arcabouço fiscal e da reforma tributária. Para ele, o país corre o risco de não conseguir cumprir a meta fiscal neste ano e no próximo.
Por isso, na Itaúsa, a hora também é de muita cautela. Apesar de avaliar constantemente oportunidades de investimentos – agro e saúde são setores que interessam – a chance de a holding fazer aquisições no curto prazo é baixa. De acordo com Setubal, o foco, agora, é reduzir o endividamento, antecipando pagamentos. A alavancagem da companhia estava em 3,2% no fim de junho. Para reforçar o caixa e ajudar nesse processo, a Itaúsa anunciou nesta semana que fará um aumento de capital privado de R$ 877 milhões. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Valor: Qual estratégia da Itaúsa com o reforço de caixa?
Alfredo Setubal: A estratégia é de redução de dívida. A gente está em um ambiente macro no Brasil e no exterior, político e geopolítico, bastante complexo. O cenário é desafiador não só aqui, mas fora. A gente vê os juros caindo, lentamente, 0,5 ponto a cada reunião do Copom [Comitê de Política Monetária do Banco Central] e eventualmente pode uma ou outra mais adiante cair um pouco mais. Mas é um cenário de juro alto. A Itaúsa vive dos dividendos e proventos que recebe [das empresas investidas], que não têm crescido na mesma velocidade que a taxa de juros cresceu. A prioridade é fazer antecipação de dívidas que vencem nos próximos anos, principalmente a mais curta, a de 2025. A gente fez uma emissão propositalmente mais curta pensando já em pré-amortizá-la à medida que fosse vendendo ações da XP.
Valor: Podemos entender com isso que a Itaúsa deixará de fazer investimentos em empresas?
Setubal: O cenário é difícil. A economia brasileira está em crescimento baixo. Possivelmente é o que veremos nos próximos anos. [A economia] é puxada pelo agronegócio. Os setores industrial, comércio e serviços foram afetados pela queda de renda e mudanças de hábito pós-pandemia. A gente vê o setor de serviços mais aquecido, viagens, restaurantes, e agro com perspectivas bastante positivas. Mas isso tudo leva a um PIB mais baixo. Continuamos olhando alternativas, se encontramos [investimentos] que dão retorno nos próximos anos, vamos fazer, mas a prioridade é sem dúvida redução de endividamento porque pesa nos resultados da Itaúsa mesmo com a taxa de juros sendo reduzida nos próximos meses.
Valor: Caso apareçam alternativas de investimentos, quais os setores mais atrativos?
Setubal: Muitos dos investimentos que fizemos nos últimos anos apareceram como oportunidades e se mostraram atrativos em termos de retorno e no longo prazo. Hoje a gente não participa do agronegócio, mas é difícil de achar ativos nesse segmento. É um setor super-relevante e hoje a gente não tem uma participação direta em nenhuma das nossas investidas.
“[O governo] está indo na direção correta, mas é difícil ver o déficit fiscal ser controlado como esperado”
Valor: Por que é difícil achar investimentos nesse setor?
Setubal: É um setor dominado ou por grandes empresas ou por grandes famílias. Teríamos de participar por algum veículo ou empresa. O setor agro, por questões tributárias e fiscais, é muito contabilizado, digamos assim, nas pessoas físicas, que têm benefícios tributários que podem fazer dessa forma. Então, é difícil achar ativos. É um setor também que está bastante capitalizado, com alta do dólar e das commodities. Outro setor que a gente vê bem é o de saúde, mas também difícil de encontrar ativos. Teve muita oferta de ativos nos últimos anos, mas a gente considerou que os múltiplos de laboratórios e hospitais estavam muito elevados. Hoje, estão muito mais baixos. Muitas empresas não executaram de forma adequada seus planos de investimentos. Com envelhecimento da população, pode ser atrativo. Vamos ver. A gente trabalha com um custo de capital alto, em torno de 14% ao ano. Então o retorno tem que ser de 14% ao ano mais um prêmio de risco. Não é fácil encontrar ativos que deem esse retorno. A gente está muito feliz com o que a gente fez, mas neste cenário mais desafiador do Brasil e do exterior é mais complicado.
Valor: Mesmo com as taxas de juros começando a cair?
Setubal: O custo de capital de longo prazo, como NTN-B de dez anos, está muito alto. O juro real não caiu tanto. A gente está vendo uma queda de juros do curto prazo, mas a curva de longo prazo não tem caído. Pessoalmente vejo dificuldades de cair pelo nosso cenário interno, de crescimento baixo, déficit, e pelo cenário internacional, com a economia americana ainda não muito forte, mas que não deve entrar numa recessão, e a China com deflação, crescimento mais baixo. Nos Estados Unidos, o núcleo da inflação está muito alto. Não descarto uma ‘altinha’ adicional de juros, e depois um período longo de taxas elevadas. Temos de ter muita cautela para que a gente não entre na euforia de fazer negócios por fazer.
Valor: A Itaúsa se tornou referência para investimentos para infraestrutura. Há expectativa de desinvestimentos do atual portfólio?
Setubal: Se olhar o histórico da Itaúsa, até 2015, era uma empresa que basicamente tinha uma participação no banco, na Duratex, atual Dexco, numa química pequena, a Elekeiroz, e outra em final de operação, a Itautec. Encerramos Itautec, vendemos a Elekeiroz e decidimos criar um portfólio de participações de longo prazo, em setores de que não participávamos. O Banco Central praticamente proibiu o banco de fazer novas aquisições depois das operações de varejo do Citi no Brasil. Então, vemos o banco com crescimento orgânico. Criamos em cinco anos um portfólio muito interessante de participações. Acho que ficaremos com esse portfólio por muito tempo. Podemos reduzir participação nessas empresas, entrar em outras, mas estamos em processo de longo prazo, mas de gestão ativa à medida que a empresa esteja em um nível de maturidade que a gente entenda que possa considerar desinvestimento. Não estamos nessa fase, mas é o que a gente entende.
Valor: Seu tom é mais pessimista com as perspectivas para a economia, mas na Faria Lima há uma certa euforia nas últimas semanas…
Setubal: Sou muito cauteloso. Tenho de analisar todos os cenários. A gente está vendo um cenário melhor do que esperava para o Brasil neste momento, mas ainda desafiador. Tem uma inflação ainda resiliente, taxa de juros de curto prazo caindo lentamente, a de longo prazo ainda é alta e deve continuar alta. A gente vê as dificuldades políticas que o governo tem de formar maioria para votar projetos importantes. Até agora, o arcabouço fiscal não foi votado, a reforma tributária a mesma coisa. A gente vê algumas dificuldades do governo em executar as suas políticas econômicas. No mercado internacional, os EUA, Europa e China com sinais de baixo crescimento. No Brasil, estamos longe de crescimento mais robusto. Exige cautela. Muitas nuvens negras pairando sobre isso tudo. Não é um cenário catastrófico, mas de extrema dificuldade, mas é difícil. Se as nuvens forem se dissipando, vamos ser menos cautelosos. Mas o momento é de incerteza na economia e política aqui e lá fora também. Como gestor da Itaúsa, não posso entrar numa euforia porque os juros caíram 0,5 ponto, e vão caindo mais 0,5 ou 0,75. Isso é ótimo, mas não tira todo o pano de fundo de dificuldade de aprovação no Congresso e da geopolítica internacional.
Valor: Que tipo de risco político que o sr. vê no Brasil?
Setubal: O arcabouço deverá ser aprovado pelo Senado, possivelmente com algumas mudanças. Reforma tributária idem, mas está tendo uma negociação difícil entre governo e Legislativo. Acho que tudo no final será aprovado, mas as negociações estão levando a um certo desgaste político. Evidente que o investidor fica mais cauteloso. É um processo difícil, de negociação, e o governo não tem base, e o tempo corre contra. Já estamos entrando no fim do terceiro trimestre. Dificilmente as metas fiscais deste ano e do ano que vem serão atingidas. Gera esse clima de insegurança.
Valor: Em termos de política econômica, o sr. acha que o governo está na direção correta?
Setubal: Está indo na direção correta, mas é difícil ver o déficit fiscal ser controlado como esperado. Com déficit fiscal meio crônico, neste ano e em 2024, se a gente não mudar essa dinâmica, seja por reforma fiscal ou por aumento de impostos, fica difícil o Brasil crescer. E a gente entra nesse círculo vicioso. Não cresce, não arrecada. Não arrecada, não investe. Não investe, a inflação não cai. A inflação não cai, o juro não desce. O juro de curto prazo cai um pouco, mas o longo fica alto e os riscos continuam. Precisamos romper essa dinâmica. E o déficit é o problema central.
“Neste momento, posso dizer que a gente parou [de fazer investimentos]. Mas estamos sempre olhando”
Valor: Qual sua visão sobre a proposta de reforma tributária?
Setubal: Não sou expert, mas o que leio é que é uma reforma extremamente necessária, vai trazer eficiência maior para economia, a sonegação que possa existir em alguns setores vai ser mais dificultada. Parece ir no caminho correto. Mas é uma coisa para nossos filhos e netos. Não vai ter benefício imediato. É quase um projeto de Estado, mais do que de governo. Mas muito importante. Houve excesso de exceções aprovadas na Câmara. Precisa ver se IVA vai chegar a 28%, muito alto. Tem ajustes a ser feitos.
Valor: Que tipo de investidor está mais cauteloso com o Brasil?
Setubal: Vejo o mercado de capitais, o estrangeiro reduzindo exposição no mercado de ações brasileiro. Não vemos os fundos de ações captando no mercado. A gente vê os institucionais também reduzindo participações. Vejo uma cautela tanto no Brasil quanto no exterior. Minha leitura pessoal dessa conjuntura é de cautela. Vemos dez dias [agora, são 12] de queda na bolsa, mesmo pequena, mas é queda. Não está um cenário eufórico não. Não sei quem está soltando todos esses rojões.
Valor: Não há motivo para euforia então?
Setubal: Na minha visão, para este momento, não. Podemos ver um cenário mais benigno adiante, se tiver arcabouço fiscal e reforma tributária aprovados e sinalização de déficit público controlado. Mas ainda tem muitas incertezas, guerra e China entrando numa crise econômica de um certo grau nunca visto nesses 30 anos, a economia americana ativa, mas com inflação muito resiliente no núcleo, juros subindo. O título de dez anos já está a mais de 4,2%. Não vejo motivos para euforia lá fora nem aqui dentro.
Valor: Na Itaúsa, a diversificação de portfólio já atingiu um ponto ótimo?
Setubal: Neste momento, sim. A Itaúsa é uma holding, sem operação direta. Os juros cresceram mais que o fluxo de dividendos, as nossas despesas financeiras cresceram muito. Por isso, estamos focados em reduzir a dívida. Chegamos a um patamar de endividamento limite para novos investimentos. Todos os investimentos foram alavancados por emissão de debêntures. Depois que estabilizar a dívida, chegar a um patamar mais razoável, antecipando pagamentos, a gente pode começar a pensarem voltar se o cenário ficar mais benigno. Neste momento, posso dizer que a gente parou. Mas sempre estamos estudando. Olhando a gente sempre está, não necessariamente para comprar. A gente olha muito para entender setor, conhecer empresas. Temos vários NDAs [sigla em inglês para acordos de confidencialidade] assinados, mesmo eu falando de um cenário de mais cautela. O Brasil no macro é sempre ruim, mas no micro sempre tem oportunidades. É possível que a gente faça investimentos novos. É improvável, mas é possível, pensando nos próximos meses e trimestres.
Valor: Os bancos, inclusive o Itaú, estão mais otimistas que o sr. para o segundo semestre…
Setubal: A queda de juros ajuda no crescimento da carteira de crédito, a reduzir inadimplência. Segundo semestre é sempre mais ativo na economia brasileira. O banco está indo muito bem, com resultados muito sólidos, mas também com cautela. A gente já vê a demanda de crédito não tão aquecida, os bancos têm sua cautela em relação a perdas. É um cenário bom, mas sem euforia.
Valor: O Itaú é um grande emissor de cartão de crédito. Preocupa a discussão sobre o rotativo?
Setubal: O cartão de crédito é o maior meio de pagamento [do Brasil], tirando Pix. Tem de ouvir todas as partes para ter uma solução que não impacte a economia. É um sistema muito complexo. Tem de conciliar tudo isso sem prejudicar o consumidor. É uma tarefa difícil e sensível. É uma agenda do BC e governo, mas tem de ser trabalhada porque há muitos participantes. As discussões, até onde acompanho, têm sido muito boas, abertas. Todo mundo entendendo a dimensão disso para encontrar uma solução que atenda o consumidor em primeiro lugar, mas que não desbalanceie a economia como um todo.
Valor: A Itaúsa vendeu ações da XP nos últimos meses. A intenção é zerar, se possível, neste ano?
Setubal: É isso, mas hoje nossa participação é residual. São 17 milhões de ações, poucos dias de negociação. O ‘overhang’ que o mercado sempre colocou hoje é muito pequeno. A gente vendeu no mês passado 5 milhões de ações com uma demanda cinco vezes maior. Deixou de ser um problema para o mercado, a gente vende em lotes pequenos. A Itaúsa não pode ser acionista de um concorrente dela. Não podemos estar em duas canoas. Só estamos em uma canoa, o banco. A XP é uma boa empresa, provavelmente com queda de juros, vai voltar a crescer e está tudo certo, mas ficamos incomodados de estar nas duas empresas. Não dá.
Fonte: Valor Econômico