Com a adoção de novas tecnologias em ritmo muito mais acelerado do que no passado, é difícil acreditar que o mercado esteja no caminho de uma bolha de inteligência artificial, segundo Nathan Achezinsky, vice-presidente da BlackRock.
“Quando vemos a adoção da IA pela população americana, levou dois anos e meio para que 50% usasse a IA generativa. O PC demorou 15 anos e a internet, dez anos”, comentou ao participar de painel da Global Conference, evento promovido pela XP em Miami.
Nick Cangialosi, diretor-executivo da asset to J.P. Morgan dedicado a ações nos Estados Unidos, diz que o debate gira em torno dos investidores da Costa Leste e dos inventores na Costa Oeste que estão gastando o dinheiro. “Mas onde está o retorno? A gente pode defender, dependendo das nuances, será que o mercado está impaciente?, provocou. “Esta é uma mudança estrutural que nunca vimos nessa escala de investimentos.”
Ele citou que o lançamento da Apolo, que levou o homem à lua em 1969, demandou US$ 250 bilhões, enquanto os investimentos em IA esperados para este ano são 2,5 vezes maiores, “e não vão levar ninguém para a lua”. “É ainda muito cedo para se falar em inflexão dos fundamentos para que as companhias se beneficiem, é uma mudança estrutural.”
Achezinsky afirmou que um dos temas em que a equipe de investimento da BlackRock tem trabalhado é expandir o mercado para além do S&P 500, que se tornou bastante concentrado nas sete gigantes de tecnologia, e olhar o que aconteceu com as outras 493 empresas do índice.
“Estamos bastante contentes com isso”, comentou. Muitos setores ganham eficiência, este é um tópico que tem permeado setores da indústria, financeiro, saúde, companhias de logística. No ano passado, a gestora mapeou 46 empresas que têm benefícios tangíveis com a IA, com potencial aumento de margem. Ele conta que, agora, esse número já chega a 100.
Cangialosi acrescentou que o setor está ciente sobre onde estão os gargalos, pensando em data centers, fabricantes de chips e produção de energia, que são empresas que não necessariamente vão requerer muito capital, mas vão se beneficiar da construção da infraestrutura da IA. Ele citou que os grandes ganhadores do uso da banda larga e da fibra ótica, por exemplo, não foram as empresas que estiveram na fundação dessas tecnologias, mas aquelas que se aproveitaram da transformação trazida por elas, caso de Alphabet, a dona do Google, Meta e Amazon, que compõem o seleto grupo das chamadas “sete magníficas”.
“No longo prazo, há oportunidades em companhias que não necessariamente estão colocando bilhões em capex [investimentos], mas se utilizando da tecnologia construída e treinada para construir negócios fantásticos”, disse Cangialosi.
Ainda não dá para saber quais vão ser as líderes do futuro, mas a receita gerada também impressiona, com empresas exibindo de US$ 40 bilhões a US$ 90 bilhões de receita num mês. Há que se acompanhar, contudo, a alavancagem financeira do setor porque muito dos investimentos é feito com dívida.
Apesar da bagunça neste início de 2026, com a guerra no Irã, Cangialosi disse estar construtivo com os ativos e a classe ações, mas que a dinâmica pode mudar com o tempo. “Em dois a três anos, algumas companhias podem se tornar mais poderosas que outras e vão ser as que você vai querer colocar na carteira.” A produtividade, continuou, vai ser uma das medidas mais importantes para os investimentos. Ele se mostrou otimista com as repercussões no mercado de trabalho, com redução de gastos de mão de obra por um lado, algo que dá para quantificar, mas aqueles que souberem usar a nova tecnologia têm um valor ainda não mensurado.
*A repórter viajou a convite da XP
Fonte: Valor Econômico
