Os multimercados começaram 2026 com o ensaio de uma recuperação. A categoria atraiu R$ 17,9 bilhões em janeiro, até o dia 28, segundo dados da Anbima, que representa os mercados financeiros e de capitais. É uma boa notícia para o segmento, que entre 2022 e 2025 registrou saídas líquidas de R$ 672,8 bilhões, com o grande deslocamento de recursos para a renda fixa em meio à escalada dos juros.
A taxa básica da economia subiu de 2% para 15% ao ano, num período que coincidiu com vários reveses macroeconômicos e com a fraca performance da indústria de fundos. Agora, o bom desempenho dos multimercados em termos de retorno em 2025 e em janeiro pode ser um chamariz para novos aportes num ano que deve ser de corte de juros.
Em 2025, o índice de hedge funds da Anbima (IHFA) teve um dos seus melhores desempenhos dos últimos cinco anos, com valorização de 15,3%, ante 14,3% do CDI. Em janeiro, o IHFA subia 2,7%, também acima do CDI de 1,16%.
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Quando se coloca as lentes nos multimercados macro, que montam suas estratégias de acordo com o andar das economias, só 24 de uma amostra de 63 carteiras acompanhadas pelo Guia de Fundos do Valor tiveram ganhos acima do CDI.
Nas estruturas dos multimercados cabem estratégias tão diversas quanto fundos de crédito ou de arbitragem de ações, o que significa que a média do IHFA capturou o efeito do desempenho excepcional que o Ibovespa teve no ano passado, com ganhos de 34%, e em janeiro, de 13,7%.
Para o economista Marcelo d’Agosto, coordenador do guia, foi melhor quem se expôs ao chamado “kit Brasil”, com posições vendidas em dólar, pró-real, e compradas em bolsa e juros prefixados. Só que nem todos os fundos macro capturaram a recuperação dos ativos locais, porque na virada de 2024 para 2025 esse cenário parecia impensável com o dólar acima de R$ 6, ações depreciadas e juros nas alturas. “Os gestores, ao que parece, não compraram muito a ideia de que o mercado brasileiro ia melhorar.”
A performance recente pode começar a jogar a favor dos multimercados, segundo José Tibães, sócio-responsável pela plataformas de fundos da XP. “A participação desses fundos nas carteiras dos investidores se reduziu muito nos últimos anos. É possível que essa agenda volte a partir de resultados consistentes e à medida que se tenha mais visibilidade”, diz. “Com a perspectiva de queda de juros, obviamente, começa a ter um maior interesse por ativos de maior risco.”
Ele destaca que o IHFA mostra que, no conjunto, os multimercados tiveram, em média, um retorno de 17,9% em 12 meses, equivalente a 122% do CDI, “reforçando uma visão mais construtiva para a classe” adiante. O impulso veio de posições em ativos locais, em especial em ações e no real.
O fundo Verde, de Luis Stuhlberger, esteve entre os que têm se beneficiado da valorização dos ativos locais, com ganhos de 15,9% em 2025. Entre novembro e dezembro, o gestor fez uma posição em Brasil, não direcional, por meio uma estrutura de opções de EWZ, o fundo de índice de bolsa brasileira negociado em dólar. Era uma opcionalidade para a corrida eleitoral, caso um nome pró-ajuste fiscal se mostrasse competitivo. Mas foi o fluxo estrangeiro que ajudou.
“Essa posição está feita e eu não aumentei nem diminuí. Mas ela não é pequena e tem uma opcionalidade porque é um ‘call spread’ de EWZ para dezembro de 2026 com uma venda de ‘put’ de EWZ para junho de 2026 que é seis meses antes da eleição”, detalha Stuhlberger. “Eu tive sorte porque, muito antes de o evento eleição estar precificado, veio essa horda de dinheiro de fora e fez a bolsa subir.” Ele conta ter montado uma estrutura muito semelhante de câmbio, um “put” spread de dólar/ real. O posicionamento em ouro também deu frutos.
Stuhlberger afirma que, para que a reação dos multimercados seja duradoura, os gestores têm que provar que merecem a confiança do investidor. “Eu acho que parte [dos resgates] é uma questão da gente mesmo [gestores], coletivamente, ter dado retornos medíocres. Não são retornos horrorosos, mas qualquer cliente que nesses anos teve uma carteira com alguns multimercados acabou tendo um retorno pouco abaixo do CDI. Não foi horrível, mas não foi bom.”
Se olhar o resultado de 2025 em relação ao que se esperava no início do ano, o “consenso se mostrou errado”, diz Mario Schalc, sócio-gestor da Neo Investimentos. A tese de continuidade de dólar forte e economia americana melhor do que o resto do mundo não se confirmou, e moedas e índices de ações fora dos Estados Unidos performaram muito bem. Não houve, ao seu ver, uma explicação fundamentalista para justificar o movimento de preços localmente. “Esse não era o cenário que estava na cabeça da maioria dos gestores, essa fonte de retorno deixaram passar.”
Com o viés de buscar combinações de valor relativo para a carteira, o Neo Provectus (15,9%) depende menos da direção do mercado, afirma Schalc. Os grandes resultados vieram de posições em diferentes vencimentos no mercado futuro de juros e da compra pontual de ações. “A gente se aproveitou do momento de maior estresse do mercado para montar posições compradas, embora na maior parte do tempo ficasse zerado.”
Quando se olha para a atribuição de resultados, 2025 foi muito particular para o Vinland Macro Plus (27,7%), diz José Monforte, sócio e gestor da Vinland Capital. “Não foi um ano de acertar uma única tese e ter bons resultados. A gente foi capaz de capturar ganhos em vários mercados, de juros, bolsa e moedas, em diversas geografias, no Brasil, América Latina e Europa”, diz. “Períodos como esse são reveladores da capacidade do time de buscar oportunidades onde quer que estejam, dentro das competências da casa.”
Assim como em 2025, em 2026 vai ser a configuração da política monetária nos EUA que deve ditar os rumos do dólar, e isso importa para as demais moedas e taxas de juros, influencia a dinâmica de preços no Brasil, diz o sócio e economista-chefe da Vinland, Aurélio Bicalho.
Ele espera que o Federal Reserve (Fed) corte as taxas em magnitude maior do que aquilo que vem sendo embutido nos preços de mercado. Cita que o Fed está mais atrasado no ajuste do que outros bancos centrais e vê a inflação americana ao redor da meta no fim do ano, após absorvidos os impactos tarifários do presidente dos EUA, Donald Trump.
“O BC, mesmo sem qualquer pressão política, eu olharia para o cenário de inflação na meta e taxa de desemprego acima do pleno emprego e veria espaço para uma taxa de juros estimulativa, abaixo da neutra, que o Fed estima em 3%”, diz Bicalho. A pressão de Trump, num ano de eleições intermediárias no Congresso, só adiciona um elemento a mais nessa assimetria em favor de um custo do dinheiro mais baixo. O sócio da Vinland vê chances elevadas de os juros nos EUA caírem para o intervalo entre 2% e 2,5%.
Nas contas da Vinland, a Selic pode ir a 11,5%, dos 15% ao ano atuais, enquanto o consenso do mercado aponta para 12,25%.
O ano de 2026 tende a ser um terreno fértil para os multimercados macro, com a divergência de política monetária ao redor do mundo trazendo oportunidades para os gestores, diz Thiago Morgado, especialista de portfólio da Itaú Asset Management. Embora os gestores do multimesas, que atuam em células independentes, possam ter ideias de investimentos diversas, um ponto comum é que eles começaram 2026 com uma mentalidade pró-ativos de riscos.
“A percepção é que o Fed vai suportar a economia americana e que a atividade continuará mostrando resiliência”, diz Morgado. Embora haja preocupações do lado fiscal com gastos de infraestrutura de Trump, é um ambiente que tende a ser favorável para a economia.
Entre os destaques de 2025 da grade da gestora estiveram os fundos da do multimesas Itaú Artax Ultra (24,4%), Janeiro (20,8%), Artax (18,4%) e Optimus Extreme (17,2%). O Global Dinâmico (18,9%), que consolida posições dos diversos portfólios, fechou o ano com ganhos de 18,9%.
O rali das ações brasileiras, em especial a exposição a papéis de concessionárias de serviços públicos, trouxe uma das principais contribuições ao Global Dinâmico, relata Morgado. O “book” de juros internacionais também proporcionou bons resultados à performance do fundo consolidador, além de ouro, prata e outras commodities. Outra classe que compôs o retorno foi a renda variável internacional, com ações relacionadas à infraestrutura da inteligência artificial nos EUA e a bolsa mexicana.
O Genoa Radar, principal multimercado da Genoa, por seu lado, teve performance aquém do esperado em Brasil ao longo de 2025 porque no início do ano tinha posições que refletiam uma visão mais pessimista em relação a juros e câmbio. A gestão chegou a “virar a mão” e ficar comprada em real, mas no fim do ano as especulações em torno dos passos do Banco Central e notícias no campo eleitoral acabaram detratando o desempenho, que ficou levemente abaixo do CDI, descreve Rodrigo Noel, sócio responsável por operações (COO) da asset.
O destaque da temporada de 2025 foi o S3 Genoa Capital Sagres (24,3%), uma estratégia sistematizada, com uso intensivo de dados e que ampliou a capacidade da equipe de gestão de tomar posições em moedas e juros em várias localidades.
Uma parte dessa inteligência entra na carteira do Radar, o principal fundo da gestora. “Foi um trabalho de formiguinha de econometria, ciência de dados, que a gente amadureceu ao longo da nossa trajetória, e a avaliação foi que fazia sentido pegar a metodologia que usava, totalmente discricionária, para começar com um pedaço pequeno desse risco no Radar.”
O Sagres, por fim, ganhou vida própria. Significa que, todos os dias, o modelo construído coleta dados brutos e usa uma fórmula, “tão secreta quanto a da Coca-Cola”, brinca Noel, para ter informações de preços de uma série de ativos e instrumentos financeiros, o seu valor justo, para operar juros e moedas em 19 mercados. “Por construção, é um fundo super diversificado”, diz. “A ideia por trás dele é identificar, de maneira sistemática, um desequilíbrio macro que não esteja refletido nos preços e apostar que eles vão convergir para neutralizar isso, se equilibrar com as condições macro.”
Fonte: Valor Econômico

