Israel anunciou ontem ter matado o principal líder do Hamas na Faixa de Gaza, Yahya Sinwar, apontado como o arquiteto dos ataques terroristas de 7 de outubro de 2023 — que mataram cerca de 1.200 israelenses e desencadearam a guerra mais mortal na história do conflito israelense-palestino. Apesar de os israelenses terem celebrado a morte de Sinwar, ela também levantou temores sobre o futuro dos 97 reféns ainda em mãos do Hamas e deve elevar a pressão, sobretudo dos EUA, pelo fim da guerra.
O Hamas não confirmou imediatamente a morte de Sinwar.
O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, saudou a eliminação do líder como “vitória do bem sobre o mal”, ressaltando, porém, que a campanha de Israel no território continua. “O Hamas não governará mais Gaza. Às famílias dos reféns, eu digo: este é um momento importante na guerra. Continuaremos com força total até que todos os seus entes queridos, nossos entes queridos, estejam em casa”, proseguiu o premiê, acrescentando que Sinwar foi “um assassino em massa que matou milhares de israelenses e sequestrou centenas de nossos cidadãos”.
Nos EUA, o presidente Joe Biden, disse que a notícia sobre Sinwar “trouxe um bom dia” para Israel — após descrever o palestino como “um obstáculo intransponível para a paz”. Anunciando que falaria ainda ontem com Netanyahu para “discutir o caminho para levar os reféns de volta e para acabar com esta guerra de uma vez por todas”, Biden disse que havia agora “a oportunidade para um ‘dia seguinte’ em Gaza sem o Hamas no poder, e para um acordo político que proporcione um futuro melhor para os israelenses e para os palestinos”.
Candidata à Presidência nas eleições do próximo dia 5, a vice-presidente americana, Kamala Harris, seguiu a linha de Biden. “Este momento nos dá a oportunidade de finalmente acabar com a guerra em Gaza”, disse ela.
Diplomatas iniciaram discussões com o governo de Netanyahu sobre oferecer ao Hamas uma pausa de dois a três dias nas ofensivas militares de Israel em troca da libertação dos reféns israelenses restantes em Gaza, disse uma autoridade ocidental ao diário britânico “Financial Times”.
Matar Sinwar era um dos objetivos do ataque devastador a Gaza que Israel lançou em resposta aos atentados do Hamas. Mas, para alguns especialistas, a eliminação do líder não deve significar automaticamente o fim do conflito. “A morte de Sinwar, por si só, não é condição suficiente para acabar com a guerra em Gaza e colocar israelenses e palestinos em um caminho para um futuro melhor”, publicou em sua coluna de ontem no “New York Times” o analista Thomas L. Friedman. “Para isso seria preciso que Israel tivesse um líder e uma coalizão governista pronta para aproveitar a oportunidade que a morte de Sinwar criou. E chamar a participação de uma Autoridade Palestina em uma força internacional de paz que substituiria o Hamas no lugar que ele ocupa na Faixa de Gaza”, afirmou.
Israel nunca apresentou um plano claro de saída de Gaza, numa indicação de que — alegando questões de segurança — pretende manter o controle do enclave de 2,3 milhões de habitantes, que tem uma área similar à do município de São Paulo.
Por mais de um ano, a busca por Sinwar, mobilizou os mais sofisticados recursos de dois dos serviços de inteligência mais eficientes do planeta: o de Israel e dos EUA. Acreditava-se que ele estivesse em algum túnel da Faixa de Gaza, rodeado de reféns israelenses que lhe serviriam de escudos humanos. Mas ele foi morto por soldados de Israel em treinamento em uma operação de patrulha rotineira no sul da Cidade de Gaza e quase por acaso, segundo relataram anonimamente fontes militares a correspondentes em Israel.
O local onde soldados trocaram tiros com um grupo de suspeitos era um lugar aparentemente improvável para encontrar o líder de campo do Hamas. Os soldados — apoiados por drones — se envolveram em um tiroteio, e três militantes palestinos foram mortos. Durante essa troca de disparos, o fogo israelense derrubou parte de um prédio onde os militantes estavam abrigados. Só quando a poeira baixou e eles começaram a vasculhar o prédio, os soldados israelenses notaram que um dos corpos tinha uma grande semelhança com o líder do Hamas, disseram as fontes.
Sinwar era um líder discreto, quase nunca visto em público. Ele se radicalizou durante a adolescência no acampamento de Khan Yunis, em Gaza. Passou anos em prisões israelenses e foi o principal negociador do acordo de 2011, pelo qual o soldado israelense Gilad Shalit foi trocado por mais de 1.000 palestinos presos em Israel.
Ontem, ainda antes da confirmação da morte de Sinwar, o chanceler do Irã, Abbas Araghchi, estava reunido no Cairo com o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, em um esforço diplomático para evitar que ataques de Israel a grupos militantes regionais evoluam para uma guerra mais ampla. Israel está na iminência retaliar o ataque de mísseis de Teerã contra seu território no último dia 1, mas sofre pressão dos EUA para que não atingir instalações nucleares e petrolíferas do Irã — que financia não só o Hamas como o movimento extremista Hezbollah.
Fonte: Valor Econômico