Inteligência artificial vai permitir que o profissional de saúde fique mais ao paciente
Por Laura Knapp — De São Paulo
19/12/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
A medicina do futuro, com diagnósticos, prognósticos e tratamentos mais precisos e personalizados, começa a chegar a hospitais do país. A inteligência artificial (IA) e o machine learning, ou aprendizado de máquinas, conseguem diagnosticar se o paciente admitido na unidade de emergência pode estar sofrendo um acidente vascular cerebral (AVC) e encaminhá-lo com maior rapidez para o médico. Elas também podem identificar lesões pulmonares ou planejar neurocirurgias. Os equipamentos que trabalham com IA também auxiliam os profissionais de saúde a distinguir pontos em imagens computadorizadas que não seriam normalmente visíveis. Fornecem, em resumo, uma visão ampliada e detalhada sobre a saúde dos pacientes, auxiliando o profissional médico a tomar decisões mais precisas em relação a diagnósticos e tratamentos.
As máquinas são capazes de fazer isso porque analisaram milhões e milhões de dados relativos a doenças e aprenderam com eles. Sabem distinguir informações, processá-las. O crescimento exponencial da capacidade de processamento, aliado à disponibilidade de dados muito grande, com digitalização dos prontuários médicos, e a evolução dos algoritmos, permitem a chegada da medicina de precisão no nosso dia a dia. “É um tripé muito importante”, afirma Gabriel Dalla Costa, superintendente médico do Hcor.
Com as novas tecnologias, exames relativos a lesões de pele tornaram-se muito mais precisos. Em alguns casos, a quimioterapia é dispensada no tratamento de câncer. Até agora, a medicina funciona de forma mais reativa: trata uma doença quando ela surge. Com a medicina de precisão, que engloba fatores ambientais, comportamentais e genéticos, ela vai se transformar em medicina proativa, diz Fernando Moura, gerente da medicina de precisão do Hospital Albert Einstein.
No começo dos anos 2000, uma das únicas opções de tratamento para o câncer era a quimioterapia. Um tumor tinha nome e sobrenome. Não havia, então, o entendimento do diagnóstico molecular do paciente. Hoje com o sequenciamento do DNA do tumor, é possível identificar onde existem alterações moleculares. O tumor ganha vários sobrenomes e cada mutação pode ser alvo de determinado tratamento. Ao invés de sessões de quimioterapia, o paciente pode receber uma pílula. É o tratamento médico personalizado.
As máquinas que usam IA e machine learning podem identificar sinais mais sutis que indicam se o paciente tem probabilidade de desenvolver câncer de pulmão. Podem detectar retinopatia diabética com precisão igual ou superior a um oftalmologista. Exames dermatológicos são feitos com mais acurácia. Seu poder é grande para estabelecer modelos preditivos. Mesmo assim, não substituem a tomada de decisão do profissional médico em nenhum caso, afirmam os entrevistados. O que fazem é analisar milhões de dados gerados pelo sistema de saúde, mais do que qualquer médico poderia fazer.
A colaboração entre a IA e o ser humano é o novo paradigma. Alexandre Chiavegatto Filho, diretor do laboratório de big data e análise preventiva da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) pretende iniciar, no próximo ano, um estudo clínico a fim de verificar se as informações colhidas pela IA realmente alteram a conduta clínica e melhoram o prognóstico dos pacientes. Como se faz para medicamentos e vacinas, haverá um estudo randomizado, em que alguns médicos receberão as informações e outros não. Os pacientes serão monitorados para analisar os efeitos reais da IA. “Em dez anos, a IA vai transformar profundamente a saúde. É o momento de fazermos descobertas e garantir qualidade e melhor saúde no nosso país”, afirma.
A medicina de precisão será fundamental para auxiliar médicos em áreas remotas, em cidades onde o único profissional precisa ser especialista em tudo. Uma base de dados em mãos poderá modificar profundamente seu trabalho. Hoje em dia, a tecnologia ainda está restrita a grandes centros e instituições. As novas tecnologias aumentaram o poder de diagnósticos e tratamento, mas ainda têm custo financeiro alto, que tende a cair e seu uso se generalizar.
“A IA libera nosso potencial humano. Ela vai permitir que o profissional de saúde atente-se mais ao paciente, pois organiza os dados”, diz André Filipe de Moraes Batista, professor e coordenador do centro de ciência de dados Insper.
Fonte: Valor Econômico