Por Bloomberg
06/03/2023 16h06 Atualizado há 11 horas
A China estabeleceu uma meta de crescimento econômico modesta de cerca de 5% para este ano, com os principais líderes do país evitando grandes medidas de estímulo para ajudar uma recuperação impulsionada pelo consumidor já em andamento, sugerindo um menor estímulo ao crescimento à debilitada economia mundial.
O premiê da China, Li Keqiang, que está de saída do cargo, anunciou a meta para o Produto Interno Bruto (PIB) em seu relatório final ao Parlamento, controlado pelo Partido Comunista, que iniciou sua reunião anual no domingo. Economistas esperavam uma meta mais ambiciosa, acima de 5%, depois de uma recuperação dos gastos do consumidor e da produção industrial com o fim das medidas restritivas de combate à covid-19.
Depois de não cumprir a meta para o PIB no ano passado por uma ampla margem pela primeira vez, a meta mais cautelosa para este ano poderá restabelecer a credibilidade de Pequim e dar ao presidente Xi Jinping e às novas autoridades econômicas de alto escalão, mais espaço para se concentrarem em políticas de longo prazo.
A dependência de Pequim dos consumidores para alimentar a economia, e a relutância em estimular o crescimento por meio dos setores intensivos em commodities, como o imobiliário e o de infraestrutura, significa que “o efeito indireto positivo, comparado aos ciclos anteriores de recuperação da China, diminuirá um pouco”, disse Jacqueline Rong, economista do BNP Paribas para a China.
Para os bancos centrais globais que lutam contra a alta dos preços, a perspectiva de crescimento mais discreta da China poderá ajudar a amenizar as preocupações com a inflação. Recentes bons dados de emprego, preços e consumo nos EUA levaram algumas autoridades do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) a considerar mais aumentos no juro. Todas as atenções estarão voltadas para o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, ao Congresso americano nesta semana, para ver se ele repetirá esses pontos de vista.
Os índices de ações da China tiveram nesta segunda-feira (06) um desempenho inferior ao de outras bolsas asiáticas, em reação à meta modesta de crescimento anunciada. O índice CSI 300 fechou em queda de 0,5%, enquanto o índice Hang Seng China Enterprises, um indicador das ações chinesas negociadas em Hong Kong, fechou praticamente estável. Commodities como minério de ferro e petróleo caíram.
Zhang Zhiwei, economista-chefe da Pinpoint Asset Management, disse que a meta do PIB “deve ser tomada como um piso”, o que implica que o crescimento de fato poderá superar a meta. “Como a política para a covid foi ajustada, não há urgência para eles realizarem outra rodada de grandes estímulos econômicos”, disse ele.
O crescimento de 5% ainda é maior que a expansão de 3% registrada no ano passado, e dará algum suporte à economia mundial. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que quando o PIB da China cresce 1 ponto porcentual, o ritmo nos outros países aumenta em 0,3 ponto porcentual.
É provável que o crescimento supere a meta. O UBS Group elevou ontem sua previsão de crescimento da China para 2023 de 4,9% para 5,4%, Uma ex-autoridade do BC chinês disse que sua análise das metas de crescimento para as províncias sugere que a economia chinesa como um todo crescerá 5,6%.
A reunião deste ano do Parlamento será a última para Li, que deverá ser substituído por Li Qiang, um aliado de Xi que já é o número 2 do Partido Comunista. A medida é parte da reformulação da equipe econômica da China em uma década.
Ao ler seu relatório econômico, Li disse que estimular a demanda interna — uma referência aos gastos do consumidor e investimentos das empresas — será a maior prioridade do governo neste ano, enquanto as importações e exportações aumentarão de forma constante. A meta de emprego mais alta do governo para este ano — de 12 milhões de novos empregos em áreas urbanas — sugere que as autoridades veem a economia sendo alimentada por setores da área de consumo que exigem mais mão de obra, enquanto o crescimento por investimentos em infraestrutura bancados pelo governo deverá diminuir.
“É mais provável que uma recuperação do consumo lidere o crescimento”, disse Bert Hofman, ex-diretora do Banco Mundial para a China. “Os investimentos das empresas poderão permanecer estagnados até que medidas mais vigorosas de apoio ao setor privado se tornem aparentes.”
O orçamento nacional, divulgado no domingo, sugere que o apoio fiscal será contido. A meta para o déficit nominal — baseada em uma definição estreita de receita e gastos do governo — foi elevada de 2,8% do PIB no ano passado para 3% neste ano.
Mas os governos locais deverão reduzir os grandes investimentos, com uma cota menor para os bônus especiais locais, usados principalmente para financiar projetos de infraestrutura.
“Se o crescimento da infraestrutura for fraco, isso poderá impactar setores como o siderúrgico e o de cimento também em outros países, porque a China poderá importar menos commodities”, disse Iris Pang, economista-chefe do ING Bank para a Grande China.
O relatório de Li destacou uma mudança na perspectiva de Pequim para enfatizar a segurança nacional, a autossuficiência tecnológica e a estabilidade financeira em vez do ritmo de crescimento. O premiê pediu políticas que possam “equilibrar o desenvolvimento e a segurança”.
Ressaltando esses objetivos, a China aumentará os gastos com defesa em 7,2% neste ano, o maior aumento em quatro anos, para 1,55 trilhão de yuans. Pequim também visará a “reunificação pacífica” com Taiwan, disse Li, mantendo sua posição sobre a ilha.
A ciência e a política industrial ficaram em segundo lugar na lista de prioridades de Li, com as autoridades almejando coordenar as empresas para obter avanços em tecnologias importantes para aumentar a “autossuficiência e o autofortalecimento”. A questão ganhou urgência em Pequim depois que Washington impôs sanções sem precedentes ao setor de microchips da China no ano passado.
Fonte: Valor Econômico