O processo de redução das taxas de juros na América Latina terá condições de continuar no próximo ano, mas as condições monetárias devem permanecer restritivas na região. A intensidade da dinâmica de redução dos níveis de aperto nos emergentes, porém, dependerá da condução dos juros pelo Federal Reserve (Fed), projeta o economista-chefe para mercados emergentes do J.P. Morgan, Jahangir Aziz. Para ele, os bancos centrais dos emergentes terão mais facilidade em reduzir os juros caso o Fed antecipe o início do ciclo de flexibilização monetária.
“Mesmo que o Fed dê esse ‘espaço’ e que a desinflação na América Latina continue, eu não vejo os bancos centrais da região cortando os juros profundamente. E isso vem da cultura dos emergentes, porque nós sempre tememos que a inflação esteja próxima”, defende o economista em entrevista ao Valor. Aziz, inclusive, observa que os cortes de juros nos emergentes não devem ser mais intensos do que a desinflação em 2024, o que aponta para uma tendência de elevação dos juros reais e de condições financeiras mais apertadas do que os níveis vistos neste ano.
No cenário-base do J.P. Morgan, a Selic deve encerrar o próximo ano em 9,5%, enquanto a inflação deve ficar em 3,5%, o que indicaria um juro real ex-post de 6%. A política monetária, assim, permaneceria no campo contracionista no próximo ano, ao se observar que o Banco Central, por exemplo, trabalha em seus modelos com um juro real de equilíbrio de 4,5%.
Embora a política monetária americana influencie os mercados emergentes, o executivo vê o impacto do dólar como maior do que o dos juros americanos em 2024, ainda que os dois estejam ligados. Para Aziz, o diferencial de crescimento entre os EUA e a Europa deve ajudar a definir o rumo do dólar. Os americanos vinham levando vantagem nessa comparação, mas o economista acredita que os europeus podem reverter a tendência no ano que vem em razão da desaceleração dos EUA.
“Se isso acontecer, acreditamos que, na segunda metade de 2024, o euro vai apreciar em relação ao dólar para cerca de US$ 1,15”, diz. Para Aziz, com o euro nessa faixa, o dólar tende a depreciar globalmente, o que ajudaria os emergentes.
Ao observar o diferencial de crescimento como um fator determinante para a dinâmica dos mercados de câmbio, Aziz nota que, no cenário básico do J.P., os países emergentes devem registar no próximo ano um crescimento econômico parecido com o de 2023. Mesmo assim, ele afirma que os fatores externos podem representar alguma dificuldade a esse cenário.
“Em 2024, o crescimento dos EUA vai ser menor do que em 2023, independentemente de haver pouso suave ou não”, projeta o economista. A resiliência, diz, viria principalmente do setor privado nos países emergentes, em que a poupança ainda é forte.
O executivo, porém, destaca que, se os EUA alcançarem um “pouso suave” na economia e se o Fed fizer um corte considerável nos juros, os mercados emergentes podem ter um desempenho melhor que o projetado pelo J.P. Morgan.
Nesse contexto, Aziz acredita que os cortes de juros no Brasil, que tiveram início em agosto, devem dar apoio à atividade econômica. “Acho que o corte de juros que já aconteceu vai influenciar o crescimento de 2024”, diz.
Já em horizontes mais longos, Aziz vê chance de reformas realizadas desde 2016 darem força às perspectivas econômicas do país. Ele afirma, inclusive, que elas “podem melhorar o sentimento empresarial e seu impacto provavelmente será finalmente sentido na economia; o crescimento de médio prazo poderá ganhar um impulso, fazendo com que as pessoas pensem no Brasil de forma mais positiva.” Esse cenário, porém, não é certo. “Precisaremos esperar para ver.”
O economista, aliás, destaca a possibilidade de o Brasil poder se beneficiar da dinâmica de realocação das cadeias de produção, o chamado “nearshoring”, na medida em que países ocidentais têm retirado a produção de bens e serviços de algumas localidades, como a China. Esse processo tem ganhado força, especialmente após o início da guerra na Ucrânia, além das disputas comerciais sino-americanas e do acirramento dos atritos entre China e Taiwan.
“Não acho que o mundo vai mudar o centro da cadeia de suprimentos, porque a China é o polo de fabricação mais barato e eficiente do mundo, mas acredito que um segundo centro será estabelecido, e o Brasil tem um setor de manufatura que pode se aproveitar desse movimento”, diz Aziz. Para o economista, esse ponto é positivo. “Após todas as reformas que foram feitas, o país pode substituir a dependência em agricultura e mineração com mais manufatura, mas precisamos esperar para ver.”
Fonte: Valor Econômico


